Krugman: O negócio é manter o rumo

Paul Krugman

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O debate a respeito da política econômica sofreu uma virada previsível, mas ameaçadora: a intensidade da crise parece estar diminuindo, mas um coro de críticos já está exigindo que o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) e o governo Obama abandonem as medidas para salvar as instituições em apuros. Para aqueles que conhecem história, tudo isto é, literalmente, deja vu.

Esta é a terceira vez na história que uma grande economia vê-se em uma armadilha de liquidez, uma situação na qual as reduções das taxas de juros, a maneira convencional de estimular a economia, atingiram o seu limite. Quando isso acontece, medidas não convencionais são a única maneira de combater a recessão.

Ritmo lento das mudanças ajudou o Brasil a evitar o pior da crise

Se Bernard Madoff tivesse tentado aplicar o seu esquema Ponzi no Brasil, a operação jamais teria decolado. No país, as corretoras são obrigadas a fornecer informações sobre cada transação de cada cliente, que é identificado pelo seu número de conta registrado. Madoff, que teria inventado transações de clientes e que não foi obrigado a apresentar provas, teria tropeçado nessa exigência.

Mas tais medidas heterodoxas fazem com que as pessoas que pensam de forma convencional sintam-se desconfortáveis, e elas fazem pressões constantes pelo retorno à normalidade. Em episódios anteriores de armadilhas de liquidez, os governantes cederam rapidamente a essas pressões, fazendo com que a economia voltasse a mergulhar na crise. E caso os críticos tenham carta branca, o governo fará o mesmo desta vez.

O primeiro exemplo de política econômica adotada em uma situação de armadilha de liquidez ocorreu na década de trinta. A economia dos Estados Unidos cresceu rapidamente de 1933 a 1937, ajudada pelas políticas do New Deal. Porém, o país permaneceu bem aquém do pleno emprego.

Mas o governo deixou de preocupar-se com a depressão e passou a temer a inflação. O Federal Reserve endureceu a política monetária, enquanto Franklin Delano Roosevelt tentava equilibrar o orçamento federal. A economia acabou sofrendo uma nova queda, e a recuperação plena teve que aguardar a Segunda Guerra Mundial.

O segundo exemplo é o Japão da década de noventa. Após sofrer uma desaceleração econômica no início da década, o Japão experimentou uma recuperação parcial, e a economia cresceu a um índice de quase 3% em 1996. O governo respondeu desviando o seu foco para o déficit orçamentário, elevando impostos e reduzindo os gastos. O Japão caiu novamente em recessão.

E aqui vamos nós novamente.

Por um lado, aqueles que temem a inflação estão assediando o Fed. O exemplo mais recente: Arthur Laffer, aquele da curva, adverte que as políticas do Fed provocarão uma inflação devastadora. Ele recomenda, entre outras coisas, tornar mais estritas as exigências relativas às reservas dos bancos, o que foi exatamente o que o Fed fez em 1936 e 1937 - uma medida que ninguém menos que Milton Friedman condenou por acreditar que ela contribui para estrangular a recuperação econômica.

Enquanto isso, há demandas vindas de várias áreas no sentido de que o plano de estímulo fiscal do presidente Barack Obama seja cancelado. Alguns indivíduos, especialmente na Europa, argumentam que não é necessário estímulo, já que a situação econômica já estaria melhorando.

Outros alegam que os empréstimos do governo estão aquecendo as taxas de juros, e que isso prejudicará a recuperação.

E os republicanos, fornecendo uma pitada de alívio cômico, estão dizendo que o estímulo fracassou, já que a legislação relativa a ele foi aprovada quatro meses atrás - Uau! Quatro meses inteiros! - e o desemprego ainda está aumentando. Isso sugere uma comparação interessante como o histórico econômico de Ronald Reagan, cuja redução dos impostos em 1981 foi seguida de nada menos do que 16 meses de aumento do desemprego.

Ok, hora de fazer alguns testes de realidade.

Primeiramente, embora os mercados de ações estejam celebrando os "green shoots" (termo coloquial para os sinais de recuperação econômica), o fato é que o desemprego está muito alto e continua aumentando. Ou seja, nós não estamos sequer experimentando aquele tipo de crescimento que levou aos grandes erros cometidos em 1937 e 1997. Ainda é muito cedo para declarar vitória.

E quanto à alegação de que o Fed estaria fazendo com que aumentasse o risco da inflação? Ele não está fazendo tal coisa. Laffer parece ter entrado em pânico devido a uma elevação rápida da base monetária, a soma do dinheiro em circulação e das reservas dos bancos. Mas uma alta da base monetária não é inflacionária quando um país encontra-se em uma armadilha de liquidez. A base monetária dos Estados Unidos dobrou entre 1929 e 1939; os preços caíram 19%. A base monetária do Japão subiu 85% entre 1997 e 2003; a deflação continuou inabalável.

Bem, então, e quanto a todos os empréstimos tomados pelo governo? Tudo o que eles estão fazendo é compensar uma grande queda dos empréstimos privados - o empréstimo total está em queda, e não em alta. De fato, se o governo não tivesse neste momento um déficit tão grande nas mãos , a economia provavelmente estaria a caminho de uma depressão total.

Ah, e a certeza crescente dos investidores de que conseguiremos evitar uma depressão econômica generalizada - e não a pressão representada pelos empréstimos do governo - explicam a recente ascensão das taxas de juros de longo prazo. Essas taxas, aliás, ainda estão baixas segundo os padrões históricos. Elas só não estão tão reduzidas quanto foram durante o apogeu do pânico, no início deste ano.

Resumindo: alguns meses atrás, a economia dos Estados Unidos corria o risco de mergulhar em uma depressão. Mas, por ora, a política monetária agressiva e os gastos vinculados ao déficit afastaram esse perigo. E de repente os críticos estão exigindo que cancelemos todas essas medidas e voltemos a adotar as práticas usuais.

Tais exigências devem ser ignoradas. É muito cedo para desistir de políticas que, na maior parte das vezes, nos afastaram apenas alguns centímetros da beira do abismo.

Tradução: UOL

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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