A alegria do Sachs

Paul Krugman

Paul Krugman

A economia americana permanece em situação difícil, com um trabalhador entre seis desempregado ou em subemprego. Mas o Goldman Sachs acabou de informar lucros trimestrais recordes - e está se preparando para pagar bônus imensos, comparáveis aos que pagava antes da crise. O que este contraste nos diz?

Primeiro, que o Goldman Sachs é muito bom no que faz. Infelizmente, o que faz é ruim para os Estados Unidos.

Segundo, ele mostra que os maus hábitos de Wall Street - acima de tudo, o sistema de remuneração que ajudou a causar a crise financeira - não foi embora.

Terceiro, ele mostra que ao resgatar o sistema financeiro sem reformá-lo, Washington não fez nada para nos proteger de uma nova crise, e, na verdade, tornou outra crise mais provável.

Vamos começar falando sobre como o Goldman ganha dinheiro.

Ao longo da última geração -desde a desregulamentação bancária dos anos Reagan- a economia americana foi "financializada". O negócio de movimentar dinheiro, de fatiar, picar e reempacotar papéis financeiros, aumentou em importância em comparação com a produção de fato de coisas úteis. O setor oficialmente rotulado de "valores mobiliários, contratos de commodities e investimentos" cresceu particularmente rápido, de apenas 0,3% do PIB no final dos anos 70 para 1,7% do PIB em 2007.

Esse crescimento seria ótimo se a financialização realmente cumprisse suas promessas -se as empresas financeiras ganhassem dinheiro ao direcionar o capital para seus usos mais produtivos, ao desenvolver formas inovadoras de dispersar e reduzir o risco. Mas alguém pode, a esta altura, dizer isso seriamente? As empresas financeiras, como sabemos agora, direcionaram vastas quantidades de capital para a construção de casas que não podem ser vendidas e shopping centers vazios. Elas aumentaram o risco em vez de reduzi-lo, e concentraram o risco em vez de dispersá-lo. Na prática, o setor estava vendendo medicamentos perigosos para consumidores crédulos.

O papel do Goldman na financialização dos Estados Unidos foi semelhante ao de outros agentes, exceto por uma coisa: o Goldman não acreditava em sua própria badalação. Outros bancos investiram pesadamente nos mesmos ativos tóxicos que vendiam ao público em geral. O Goldman, famosamente, ganhou muito dinheiro vendendo ativos baseados em hipotecas de alto risco -então ainda mais dinheiro vendendo abaixo do preço os ativos baseados em hipotecas pouco antes de sua alta desvalorização. Tudo isso foi perfeitamente legal, mas o efeito líquido foi que o Goldman lucrou fazendo todas as demais pessoas de otárias.

E Wall Street tem todos os incentivos para continuar jogando esse jogo.

Os bônus imensos que o Goldman em breve pagará mostram que os figurões do setor financeiro ainda estão operando em um sistema no qual cara, eles ganham, coroa, outras pessoas perdem. Se você for um banqueiro e gerar grandes lucros de curto prazo, você é abundantemente recompensado -e você não precisa devolver o dinheiro se e quando esses lucros provarem ser uma miragem. Logo, há muitos motivos para incentivar os investidores a correrem riscos que não entendem.

E os eventos do ano passado aumentaram ainda mais esses incentivos, ao deixar a conta para os contribuintes, tanto quanto aos investidores, quando as coisas derem errado.

Eu nem vou tentar analisar as alegações contrárias sobre quanto benefício direto o Goldman recebeu dos recentes pacotes de resgate financeiro, especialmente a apropriação pelo governo das dívidas do AIG. O que está claro é que Wall Street em geral, o Goldman incluso, se beneficiou enormemente da posição do governo de garantir que resgatará grandes agentes financeiros sempre que as coisas derem errado.

É possível argumentar que esses resgates são necessários para evitar uma repetição da Grande Depressão. Eu concordo. Mas o resultado é que as dívidas do sistema financeiro agora são apoiadas por uma garantia implícita do governo.

Da última vez em que ocorreu uma expansão comparável da rede de segurança financeira, a criação do seguro federal para depósitos nos anos 30, ela foi acompanhada por uma regulamentação muito mais rígida, para assegurar que os bancos não abusariam de seus privilégios. Desta vez, novas regulamentações ainda estão na prancheta - e o lobby financeiro já está combatendo até mesmo as proteções mais básicas aos consumidores.

Se esses esforços de lobby forem bem-sucedidos, nós prepararemos o caminho para um desastre financeiro ainda maior poucos anos mais à frente. A próxima crise poderia parecer com a crise da poupança e empréstimos dos anos 80, quando os bancos desregulamentados apostaram com o dinheiro do contribuinte (e em alguns casos o roubaram) -exceto que envolveria o setor financeiro como um todo.

Resumindo, o trimestre excelente do Goldman é uma boa notícia para o Goldman e para as pessoas que trabalham lá. É uma boa notícia para os superastros financeiros em geral, cujos contracheques estão subindo rapidamente aos níveis pré-crise. Mas é uma notícia ruim para quase todas as outras pessoas.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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