Uma verdade incoerente

Paul Krugman

Paul Krugman

No momento, o destino da reforma da saúde parece estar nas mãos de democratas relativamente conservadores -principalmente membros da Coalizão Blue Dog (cachorro azul, uma referência à cor associada aos democratas), criada em 1995. E pode haver a tentação de dizer que o presidente Barack Obama precisa dar a estes democratas o que eles querem.

Mas ele não pode -porque o que os Blue Dogs querem não faz sentido.

Para ter uma idéia do problema, é preciso entender o esboço da reforma proposta (todos os planos democratas na mesa concordam com os itens essenciais).

A reforma, como está, se apoiaria em quatro pilares principais: regulamentação, mandatos, subsídios e concorrência.

Por regulamentação, eu falo da imposição de regras nacionais que impediriam as seguradoras de negar cobertura com base no histórico médico, ou retirar a cobertura quando a pessoa adoece. Isso impediria as seguradoras de buscar distorcer o sistema, ao dar cobertura apenas para pessoas com saúde.

Por outro lado, os indivíduos também seriam impedidos de distorcer o sistema: os americanos seriam obrigados a adquirir um plano mesmo estando com saúde, em vez de buscarem adquirir um apenas quando precisassem de atendimento. E todas, exceto as menores empresas, seriam obrigadas a fornecer seguro aos seus funcionários, ou pagar taxas para ajudar a cobrir o custo dos subsídios -subsídios que tornariam os planos de saúde acessíveis para as famílias americanas de renda mais baixa.

Finalmente, haveria uma opção pública: um plano de saúde do governo concorrendo com os planos privados, o que ajudaria a conter os custos.

A parte dos subsídios da reforma da saúde custaria cerca de um trilhão de dólares ao longo da próxima década. Em todos os planos atualmente na mesa, este despesa seria compensada com uma combinação de economias de custo em outras áreas e impostos adicionais, de forma que não haveria um efeito geral sobre o déficit federal.

Então, quais são as objeções dos Blue Dogs?

Bem, eles falam muito sobre responsabilidade fiscal, que basicamente se resume à preocupação com o custo desses subsídios. É tentador parar bem aqui e apontar a falácia. Afinal, onde estavam essas preocupações a respeito de responsabilidade fiscal em 2001, quando a maioria dos democratas conservadores votou entusiasticamente pelo grande corte de impostos de Bush naquele ano -um corte que acrescentou US$ 1,35 trilhão ao déficit?

Mas na verdade é muito pior que isso -porque ao mesmo tempo em que se queixam do custo do plano, os Blue Dogs estão fazendo exigências que aumentariam enormemente o custo.

Há muita publicidade sobre a oposição dos Blue Dogs à opção pública e merecidamente: um plano sem uma opção pública para conter os preços dos planos de saúde custaria aos contribuintes muito mais do que um plano sem essa opção.

Mas os Blue Dogs também se queixam da obrigação ao empregador, que contraria ainda mais sua suposta preocupação com os gastos. O Escritório de Orçamento do Congresso já apresentou seu parecer sobre este assunto: sem a obrigação ao empregador, a reforma da saúde seria minada à medida que muitas empresas abandonassem seus planos de saúde, forçando os trabalhadores a buscarem ajuda federal -causando um inchaço do custo dos subsídios. Não faz nenhum sentido queixar-se do custo dos subsídios e ao mesmo tempo se opor à obrigação aos empregadores.

E o que os Blue Dogs querem?

Talvez sejam apenas completos hipócritas. Vale a pena lembrar a história de um dos fundadores da Coalizão Blue Dog: o ex-deputado Billy Tauzin, da Louisiana. Tauzin virou republicano logo após a criação do grupo; oito anos depois, ele buscou a aprovação da Lei de Modernização do Medicare (o seguro médico federal americano) de 2003, um projeto de lei altamente irresponsável que incluía dádivas imensas às seguradoras e laboratórios farmacêuticos. E então ele deixou o Congresso para se tornar o presidente ricamente remunerado da PhRMA, o lobby da indústria farmacêutica.

Uma interpretação, então, é que os Blue Dogs estão basicamente seguindo os passos de Tauzin: se a posição deles é incoerente, é porque são apenas instrumentos corporativos, defendendo interesses especiais. E como o Centro para Política Responsável apontou em um relatório recente, ultimamente as seguradoras e laboratórios farmacêuticos têm despejado dinheiro nos cofres da Blue Dog.

Mas acho que não sou tão cínico. Afinal, os atuais Blue Dogs são políticos que não seguiram a rota de Tauzin -eles não trocaram de partido mesmo quando o Partido Republicano detinha todas as cartas e analistas declaravam que a maioria republicana seria permanente. Logo, estes são alguns democratas que, apesar de seu relativo conservadorismo, demonstraram algum compromisso com seu partido e seus valores.

Mas agora eles enfrentam seu momento da verdade. Pois não podem obter grandes concessões na forma da reforma da saúde sem condenar todo o projeto: o derrubar de qualquer um dos quatro pilares principais da reforma causará o colapso da coisa toda -e provavelmente levará a presidência de Obama junto.

É o que os Blue Dogs realmente querem que aconteça? Veremos em breve.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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