Os tumultos nas reuniões sobre a reforma da saúde nos EUA

Paul Krugman

Paul Krugman

Há uma famosa pintura de Normal Rockwell intitulada "Liberdade de Expressão", descrevendo uma reunião municipal americana idealizada. A pintura, parte de uma série ilustrando as "Quatro Liberdades" de Franklin Delano Roosevelt, mostra um cidadão comum expressando uma opinião impopular. Seus vizinhos obviamente não gostam do que ele está dizendo, mas eles deixam que ele diga o que pensa.

Isso difere muito do que está acontecendo nas reuniões de prefeitura, onde manifestantes irados - alguns deles, aparentemente sem ironia, gritando "Isto aqui é a América!"- têm abafado, e em alguns casos ameaçado, membros do Congresso que tentam conversar a respeito da reforma da saúde.

Alguns comentaristas tentaram minimizar o aspecto de turba desses casos, comparando a campanha contra a reforma da saúde à campanha contra a privatização do Seguro Social em 2005. Mas não há comparação. Eu estudei muitas reportagens de 2005 e, apesar dos ativistas antiprivatização terem sido às vezes ruidosos e rudes, eu não encontro nenhum exemplo de congressistas serem abafados por gritos, congresso tendo suas imagens atacadas, congressistas cercados e perseguidos por multidões que os insultam.

E não encontro qualquer contraparte às ameaças de morte que pelo menos um congressista recebeu.

Então isso é algo novo e feio. O que está por trás disso?

Robert Gibbs, o secretário de imprensa da Casa Branca, comparou as cenas nas reuniões de prefeitura sobre a reforma da saúde aos "distúrbios de Brooks Brothers" em 2000 - a manifestação que interrompeu a contagem dos votos em Miami e supostamente ajudou a colocar George W. Bush na Casa Branca. Retratados na época como manifestantes locais, muitos deles eram na verdade funcionários do Partido Republicano trazidos de avião de Washington.

Mas Gibbs está provavelmente apenas parcialmente certo. Sim, grupos de interesse endinheirados estão ajudando a organizar os tumultos nas reuniões de prefeitura. Organizadores-chave incluem duas falsas organizações populares: FreedomWorks, dirigida pelo ex-líder da maioria na Câmara, Dick Armey, e uma nova organização chamada Conservadores pelos Direitos dos Pacientes.

Esta última, a propósito, é dirigida por Rick Scott, o ex-chefe do Columbia/HCA, uma rede privada de hospitais. Scott foi forçado a deixar o cargo em meio a uma investigação de fraude; a empresa no final se declarou culpada das acusações de cobrar reembolso superfaturado dos planos de saúde estadual e federal, pagando US$ 1,7 bilhão - sim, "bilhão"- em multas. Não dá para inventar esse tipo de coisa.

Mas apesar dos organizadores serem os piores possíveis, eu não vejo qualquer evidência de que as pessoas que estão tumultuando essas reuniões são turbas de aluguel ao estilo da Flórida. Em grande parte, os manifestantes parecem genuinamente irados. A pergunta é, contra o que estão irados?

Ocorreu um incidente que diz muito em uma reunião realizada pelo deputado Gene Green, democrata do Texas. Um ativista se voltou para os demais presentes e perguntou se eram "contrários a qualquer forma de atendimento de saúde socializado ou dirigido pelo governo". A maioria disse que sim. Então Green perguntou quantos dos presentes eram atendidos pelo Medicare (o seguro saúde público para idosos e inválidos). Quase metade levantou a mão.

Agora, pessoas que não sabem que o Medicare é um programa do governo provavelmente estão reagindo mal ao que o presidente Barack Obama está de fato propondo. Elas podem acreditar em parte da desinformação que os oponentes da reforma da saúde estão espalhando, como a alegação de que o plano de Obama levará à eutanásia de idosos. (Essa em particular está vindo diretamente dos líderes republicanos da Câmara.) Mas provavelmente estão reagindo menos ao que Obama está fazendo, ou mesmo ao que têm ouvido que ele está fazendo, a mais em relação a quem ele é.

Isto é, a força motriz por trás dos tumultos nas reuniões é provavelmente a mesma ansiedade cultural e racial por trás do movimento que nega a cidadania de Obama. O senador Dick Durbin sugeriu que aqueles que contestam a cidadania e a reforma da saúde são os mesmos; nós não sabemos quantos manifestantes contrários contestam a cidadania, mas não causaria surpresa se fossem uma fração substancial.

E agentes políticos cínicos estão explorando essa ansiedade para promover os interesses econômicos daqueles que os apoiam.

Isso soa familiar? Deveria: é uma estratégia que teve um papel central na política americana desde que Richard Nixon percebeu que poderia mudar a sorte republicana ao apelar para os temores raciais dos brancos de classe operária.

Muitas pessoas esperavam que a eleição do ano passado marcaria o fim da era do "eleitor branco revoltado" nos Estados Unidos. De fato, os eleitores que podem ser convencidos pelos apelos culturais e temor racial são uma parcela em declínio do eleitorado.

Mas no momento aqueles que apóiam Obama parecem carecer de toda a convicção, talvez porque a realidade prosaica de seu governo não está a altura de seus sonhos de transformação. Enquanto isso, a direita furiosa está cheia de intensidade passional.

E se Obama não puder recapturar parte da paixão de 2008, não puder inspirar seus eleitores a se levantarem e serem ouvidos, a reforma da saúde provavelmente fracassará.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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