A ameaça suíça

Paul Krugman

Paul Krugman

Foi uma gafe que rodou o mundo. Em um editorial denunciando o plano democrata de reforma na saúde, o "Investor's Business Daily" tentou assustar seus leitores declarando que, no Reino Unido, onde o governo administra a saúde, o físico Stephen Hawking "não teria chances" porque o Serviço de Saúde Nacional consideraria sua vida "essencialmente sem valor".

Por que precisamos da reforma da saúde

  • Alex Brandon/AP

    Nosso país está envolvido no momento em um grande debate sobre o futuro do atendimento de saúde na América. E ao longo das últimas semanas, grande parte da atenção da mídia se concentrou nas vozes mais barulhentas. O que não ouvimos foram as vozes dos milhões e milhões de americanos que enfrentam silenciosamente todo dia um sistema que frequentemente funciona melhor para as seguradoras do que para eles

Hawking, que nasceu no Reino Unido, morou lá a vida toda e foi bem atendido pelo Serviço de Saúde Nacional, não achou graça.

Além de ser vil e estúpido, o editorial não ia ao ponto. O "Investor's Business Daily" gostaria que você acreditasse que o "Obamacare" vai fazer dos EUA um Reino Unido -ou, pior, a versão fantasiosa anti-utópica do Reino Unido. Os detratores em programas de rádio e na Fox News gostariam que você acreditasse que o plano tornará os EUA em uma União Soviética. Mas a verdade é que os planos em questão aproximariam os EUA, em termos grosseiros, à Suíça -que talvez seja ocupada por comedores de queijo vestindo shorts com suspensórios, mas não era um buraco socialista da última vez que vi.

Vamos falar da saúde no mundo avançado.

Todo país rico fora os EUA garante cuidados médicos essenciais aos .seus cidadãos. Há, contudo, amplas variações na forma, com três principais abordagens.

No Reino Unido, o próprio governo dirige hospitais e emprega os médicos. Todo mundo já ouviu histórias assustadoras sobre como isso funciona na prática; essas histórias são falsas. Como todo sistema, o Serviço Nacional de Saúde tem problemas, mas em geral parece fornecer um atendimento bastante bom enquanto gasta 40% do que nós gastamos por pessoa. Por falar nisso, nosso próprio Departamento de Saúde dos Veteranos, que é dirigido de forma similar ao serviço médico britânico, também consegue combinar cuidado de qualidade com custos baixos.

A segunda rota para atingir a cobertura universal delega o atendimento a mãos privadas, enquanto o governo paga a maior parte das contas. É assim no Canadá e, de uma forma mais complexa, na França. Esse sistema também é conhecido da maior parte dos americanos, pois mesmo os que ainda não estão no Medicare têm parentes e amigos que estão.

De novo, você ouve várias histórias de horror sobre tais sistemas, na maior parte falsas. A saúde francesa é excelente. Os canadenses com condições crônicas estão muito mais satisfeitos com seu sistema do que os americanos. E o Medicare é altamente popular, como evidenciado pelas manifestações para que o governo não mexa no programa.

Finalmente, a terceira rota para cobertura universal está nas empresas de segurança privada, usando uma combinação de regulação e subsídios para garantir que todos fiquem cobertos. A Suíça oferece o exemplo mais claro: todo mundo é obrigado a ter seguro, os seguradores não podem discriminar com base no histórico médico ou em condições pré-existentes e cidadãos de baixa renda recebem ajuda do governo para pagar suas apólices.

Neste país, a reforma de saúde de Massachusetts mais ou menos segue o modelo suíço; os custos estão saindo mais caros do que esperado, mas a reforma reduziu grandemente o número de não assegurados. E a forma mais comum de seguro de saúde nos EUA, a cobertura com base no emprego, de fato tem alguns aspectos "suíços": para evitar tornar os benefícios taxáveis, as empresas têm que seguir regras que efetivamente eliminam a discriminação com base no histórico médico e subsidia o atendimento para funcionários de salários menores.

Se estivéssemos começando do início, provavelmente não teríamos escolhido esta rota. Uma saúde "socializada" de verdade sem dúvida custaria menos, e uma extensão direta do Medicare a todos os americanos provavelmente sairia mais barata do que um sistema ao estilo suíço. É por isso que eu e outros acreditamos que uma opção pública verdadeira competindo com os seguros privados é extremamente importante. De outra forma, os custos crescentes poderiam facilmente minar todo o esforço.

Contudo, um sistema de cobertura universal ao estilo suíço poderia ser uma grande melhora em relação ao que temos agora. E já sabemos que tais sistemas funcionam.

Então podemos fazer isso. Nesta altura, só o que está impedindo o atendimento médico universal nos EUA são a ganância do complexo médico-industrial, as mentiras da máquina de propaganda de direita e a inocência dos eleitores que acreditam nessas mentiras.

Tradução: Deborah Weinberg

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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