Todos os zumbis do presidente

Paul Krugman

Paul Krugman

O debate em torno da "opção pública" na reforma da saúde é desanimador em muitos aspectos. Talvez o aspecto mais deprimente para os progressistas, entretanto, seja o quanto ganharam força os oponentes da maior opção em planos de saúde - no Congresso, se não junto à opinião pública - simplesmente repetindo, incansavelmente, que a opção pública seria, ó horror, um programa do governo.

Washington, ao que parece, ainda é governada pelo reaganismo - por uma ideologia que diz que a intervenção do governo é sempre ruim e que deixar o setor privado livre para fazer o que bem entende é sempre bom.

Pode me chamar de ingênuo, mas eu realmente esperava que o fracasso do reaganismo na prática poria um fim nele. Mas na verdade, o reaganismo provou ser uma doutrina zumbi: apesar de morto, ele continua se levantando.
  • Scott Olson/Getty Images/AFP

    Obama errou ao elogiar Reagan e não combater
    o discurso de que "toda ação do governo é ruim"



Vamos falar um pouco sobre por que a era Reagan deveria ter acabado.

Primeiro, antes mesmo da atual crise, a economia de Reagan tinha fracassado em fornecer o que prometia. Lembra de como impostos mais baixos sobre rendas mais altas e a desregulamentação, liberando a "magia do mercado", supostamente resultariam em rendas muito maiores para todos? Bem, isso não aconteceu.

Mas certamente os ricos se beneficiaram enormemente: a renda real do 0,1% mais rico dentre os americanos aumentou sete vezes entre 1980 e 2007. Mas a renda real de uma família média aumentou apenas 22%, menos de um terço do aumento ao longo dos 27 anos anteriores.

Além disso, grande parte desses ganhos obtidos pelos americanos comuns ocorreu durante os anos Clinton. O presidente George W. Bush, que teve a distinção de ser o primeiro presidente reaganista a contar com um Congresso plenamente republicano, também teve a distinção de presidir o primeiro governo desde Herbert Hoover no qual uma família típica não teve qualquer ganho significativo de renda.

E há o pequeno assunto da pior recessão desde os anos 30.

Há muito o que ser dito sobre o desastre financeiro dos últimos dois anos, mas a versão resumida é simples: políticos cativos da ideologia reaganista desmontaram as regulamentações do New Deal que impediram crises bancárias por meio século, acreditando que os mercados financeiros poderiam cuidar de si mesmos. O efeito foi tornar o sistema financeiro vulnerável a uma crise estilo anos 30 - e a crise ocorreu.

"Nós sempre soubemos que o interesse próprio insensato era moralmente ruim", disse Franklin Delano Roosevelt em 1937. "Agora nós sabemos que é economicamente ruim." E no ano passado nós aprendemos de novo essa lição.

Ou não? O impressionante no atual cenário político é quanto nada mudou.

O debate em torno da opção pública tem sido deprimente, como eu disse, em sua estupidez. Os oponentes da opção - não apenas republicanos, mas democratas como o senador Kent Conrad e o senador Ben Nelson- não ofereceram nenhum argumento coerente contra ela. Nelson alertou de forma agourenta que se a opção estivesse disponível, os americanos a prefeririam em vez de um plano de saúde privado - o que ele considera algo certamente ruim, em vez do que aconteceria se o plano do governo fosse, na prática, melhor do que aqueles que as seguradoras privadas oferecem.

Mas é o mesmo em outras frentes. Os esforços para fortalecer a regulamentação bancária parecem estar perdendo força, já que os oponentes da reforma declaram que mais regulamentação levaria a menos inovação financeira - isso poucos meses após as maravilhas da inovação terem deixado o sistema financeiro à beira do colapso, um colapso que só foi evitado com enormes injeções de dinheiro dos contribuintes.

E por que essas ideias zumbis não morrem?

Parte da resposta é que há muito dinheiro por trás delas. "É difícil fazer com que um homem entenda algo quando seu salário" - ou, eu adicionaria, suas contribuições de campanha - "dependem dele não entender", disse Upton Sinclair. Em particular, vastas somas de dinheiro do setor de seguros estão fluindo para democratas obstrucionistas como Nelson e o senador Max Baucus, cujas negociações da Gangue dos Seis têm sido um obstáculo crucial para a legislação.

Mas parte da culpa também deve ser atribuída ao presidente Barack Obama, que famosamente elogiou Reagan durante as eleições primárias democratas e não tem confrontado em discursos o fundamentalismo do "governo é ruim". Isso é irônico, de certa forma, já que grande parte do que tornava Reagan tão eficaz, para o bem ou para o mal, era que ele buscava fazer a América mudar seu modo de pensar tanto quanto seu código tributário.

Como isso tudo será resolvido? Eu não sei. Mas é difícil evitar a sensação de que uma oportunidade crucial está sendo perdida, que estamos naquele que deveria ser um ponto de mudança, mas estamos fracassando em mudar.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

UOL Cursos Online

Todos os cursos