Até que a dívida americana faça sua parte

Paul Krugman

Paul Krugman

Novas projeções orçamentárias mostram um déficit acumulado de US$ 9 trilhões ao longo da próxima década nos Estados Unidos. Segundo muitos comentaristas, esse é um número apavorante, que exige ação drástica - em particular, é claro, cancelar os esforços de estimular a economia e cancelar a reforma da saúde.

A verdade é mais complicada e menos assustadora. No momento, os déficits estão na verdade ajudando a economia. Na verdade, os déficits aqui e em outras grandes economias salvaram o mundo de uma recessão muito mais profunda. O panorama no longo prazo é preocupante, mas não catastrófico.
  • Mark Lennihan/AP

    Se o governo americano cortasse os gastos e aumentasse os impostos, para combater o défict, teríamos uma repetição da Grande Depressão



O único motivo real para preocupação é político. Os Estados Unidos podem lidar com suas dívidas se políticos de ambos os partidos estiverem, no final, dispostos a mostrar ao menos o mínimo de maturidade. Preciso dizer mais?

Vamos começar pelos efeitos do déficit deste ano.

Há dois motivos principais para o aumento do vermelho. Primeiro, a recessão provocou tanto uma queda acentuada na receita tributária quanto um aumento de gastos com seguro-desemprego e outros programas de bem-estar social. Segundo, ocorreram grandes gastos em resgates financeiros. Eles são contados como parte do déficit, apesar do governo estar adquirindo ativos no processo e no final receberá ao menos parte de seu dinheiro de volta.

O que isso nos diz é que, no momento, é bom incorrer em déficit. Considere o que aconteceria se o governo americano e seus pares ao redor do mundo tivessem tentado equilibrar seus orçamentos, como fizeram no início dos anos 30. É um pensamento assustador. Se os governos tivessem aumentado impostos ou cortado gastos diante da recessão, caso tivessem se recusado a resgatar as instituições financeiras em dificuldades, nós poderíamos facilmente ter visto uma repetição da Grande Depressão.

Como eu disse, os déficits salvaram o mundo.

Na verdade, nós estaríamos muito melhor se os governos estivessem dispostos a incorrer em déficits muito maiores ao longo do próximo ano ou dois. A previsão oficial da Casa Branca mostra um país preso no purgatório por um período prolongado, com o alto desemprego persistindo por anos. Se isso estiver correto - e temo que estará - nós deveríamos estar fazendo mais, e não menos, para apoiar a economia.

Mas e quanto a toda dívida que estamos incorrendo? Isso é ruim, mas é importante manter alguma perspectiva. Os economistas normalmente avaliam a sustentabilidade da dívida olhando para a relação entre dívida e produto interno bruto. E apesar de US$ 9 trilhões ser uma soma imensa, nós também temos uma economia imensa, o que significa que as coisas não são tão assustadoras quanto alguém poderia pensar.

Aqui está uma forma de olhar para isso: nós estamos vendo um aumento na relação dívida/PIB de cerca de 40 pontos percentuais. O juro real sobre essa dívida adicional (é subtraída a inflação) será provavelmente de cerca de 1% do PIB, ou 5% da receita federal. Isso não soa como um fardo insuportável.

Agora, isso presume que o crédito do governo americano permanecerá bom, para que possa tomar emprestado a taxas de juros relativamente baixas. Até o momento, isso ainda é verdade. Apesar da perspectiva de grandes déficits, o governo é capaz de tomar dinheiro emprestado a longo prazo a taxas de juros de menos de 3,5%, o que é baixo segundo os padrões históricos. Pessoas fazendo apostas com dinheiro real não parecem preocupadas com a solvência americana.

Os números dizem o motivo. Segundo as projeções da Casa Branca, até 2019, a dívida líquida federal será de cerca de 70% do PIB. Isso não é bom, mas está dentro da faixa que historicamente provou ser administrável para países avançados, mesmo aqueles com governos relativamente fracos. No início dos anos 90, a Bélgica - que é profundamente dividida ao longo de linhas lingüísticas - tinha uma dívida líquida de 118% do PIB, enquanto a Itália - que é, bem, a Itália - tinha uma dívida líquida de 114% do PIB. Nenhuma enfrentou uma crise financeira.

Então não há nada com que se preocupar? Há, mas os riscos são políticos, não econômicos.

Como eu disse, essas projeções para 10 anos não são tão ruins quanto você pode ter ouvido. A longuíssimo prazo, entretanto, o governo americano terá grandes problemas a menos que promova algumas grandes mudanças. Em particular, ele precisa conter o crescimento dos gastos com o Medicare e Medicaid (os seguros-saúde públicos para idosos e inválidos e para pobres, respectivamente).

Isso não seria difícil no contexto de uma ampla reforma da saúde. Afinal, os Estados Unidos gastam bem mais em atendimento de saúde do que outros países ricos, sem resultados melhores, de forma que deveríamos ser capazes de tornar nosso sistema mais custo-eficaz.

Mas isso não acontecerá, é claro, se mesmo as tentativas mais modestas de melhorar o sistema sejam tratadas de forma demagógica - pelos conservadores! - como esforços para "desligar os aparelhos (de sustentação de vida) da vovó".

Logo, não se preocupe com o déficit deste ano; nós na verdade precisamos do déficit federal no momento e continuaremos precisando até que a economia esteja em um caminho sólido de recuperação. E a dívida extra deve ser administrável. Se enfrentamos um problema potencial, não é porque a economia não pode lidar com a dívida adicional. Em vez disso, é a política, idiota.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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