Que falta faz Richard Nixon

Paul Krugman

Paul Krugman

Muitas retrospectivas da vida de Ted Kennedy mencionam seu arrependimento por não ter aceito a oferta de Richard Nixon de um acordo bipartidário para a questão da saúde. A conclusão que alguns comentadores tiram desse pesar é que os políticos de hoje deveriam fazer o que Kennedy recusou-se a fazer na época e buscarem o outro lado.

A analogia é ruim, contudo, porque o cenário político de hoje não é nada como o do início dos anos 70. De fato, ao observar a política atual, sinto falta de Richard Nixon.

Não, não perdi a cabeça. Nixon foi certamente a pior pessoa além de Dick Cheney a controlar o executivo. Mas na era de Nixon as figuras importantes dos dois partidos eram capazes de falar racionalmente sobre política e as decisões políticas não eram distorcidas por dinheiro corporativo como são hoje.

Os EUA são um país melhor, de muitas formas, do que eram há 35 anos, mas a capacidade de nosso sistema político de lidar com problemas reais foi degradada a tal ponto que algumas vezes me pergunto se o país ainda é governável.

Como muitos salientaram, o plano de reforma da saúde de Nixon parece muito com as propostas democráticas de hoje. De fato, em certos aspectos, era mais forte. Neste instante, os republicanos estão recuando diante da ideia de exigir que um grande número de empresas ofereça seguro de saúde aos seus funcionários; Nixon propôs exigir que todos os patrões, não apenas as empresas grandes, oferecessem seguro.

Nixon também queria uma regulação mais rígida das empresas seguradoras, e convocou os Estados a "aprovarem planos específicos, supervisionarem tarifas, assegurarem o sigilo adequado, exigirem auditorias anuais e tomarem outras medidas apropriadas." Nenhuma ilusão de que a mágica do mercado resolve todos os problemas.

O que aconteceu então com o tempo em que um presidente republicano podia ter um discurso não ideológico e oferecer uma proposta tão razoável?

Parte da resposta é que os radicais de direita, que sempre existiram -como diz Rick Perlstein, em um artigo: "Maluquice é uma condição pré-existente"- agora, de fato, dominam um de nossos principais partidos. Os republicanos moderados, o tipo de pessoa com quem se poderia negociar um acordo na área da saúde, foram expulsos do partido ou intimidados ao silêncio.

Com quem os democratas devem dialogar, quando o senador Chuck Grassley, de Iowa, que seria o centro de qualquer acordo, ajudou a fomentar as mentiras do "conselho da morte"?

Há contudo, outra razão pela qual a reforma na saúde é muito mais difícil agora do que teria sido sob Nixon: a ampla expansão da influência corporativa.

Tendemos a pensar nas coisas como são hoje, ou seja, um exército de lobistas enorme permanentemente acampado no corredor do poder, com corporações dispostas a fazer anúncios enganosos e organizar protestos populares falsos contra qualquer lei que ameace seu balanço. Esse sistema dominado pelo dinheiro corporativo, porém, é uma criação relativamente recente, aparecendo principalmente no final dos anos 70.

Agora que esse sistema existe, reformas de qualquer tipo tornaram-se extremamente difíceis. Isso é ainda mais verdadeiro para a saúde, onde os gastos crescentes tornaram os interesses muito mais poderosos do que eram nos tempos de Nixon. A indústria de seguros de saúde, em particular, viu seus prêmios irem de 1,5% do PIB em 1970 para 5,5% em 2007, de forma que um pequeno jogador tornou-se um mastodonte político, que atualmente está gastando US$ 1,4 milhão (em torno de R$ 2,7 milhões) por dia para fazer lobby no Congresso.

Esses gastos alimentam debates que, de outra forma, pareceriam incompreensíveis. Por que os democratas "centristas", como o senador Kent Conrad de Dakota do Norte, foram tão fortemente contra o estabelecimento um plano de saúde público, no qual as pessoas poderiam comprar seus seguros diretamente do governo, que competisse com os seguradores privados? Independentemente de seus argumentos incoerentes, o que contou, no final, foi o dinheiro.

Com essa combinação do extremismo do Partido Republicano e o poder corporativo, agora é duvidoso que a reforma de saúde, mesmo que aconteça -o que não é garantido- será tão boa quanto a proposta de Nixon, apesar de os democratas controlarem a Casa Branca e terem ampla maioria no Congresso.

E os outros desafios? Todas as reformas desesperadoramente necessárias, desde controlar efeitos de gases estufa até restaurar o equilíbrio fiscal, terão que passar pelo mesmo corredor polonês de lobby e mentiras.

Não estou dizendo que os reformistas devem desistir. Entretanto, eles têm que entender o que estão enfrentando. Falou-se muito no ano passado sobre como Barack Obama seria um presidente "transformador" -mas a verdadeira transformação, ao que parece, exige muito mais do que eleger um líder fotogênico. Para de fato mudar este país, serão necessários anos de guerra contra interesses profundamente arraigados, que defendem um sistema político profundamente defeituoso.

Tradução: Deborah Weinberg

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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