Reforma no sistema financeiro ou estouro

Paul Krugman

Paul Krugman

No período sombrio que se seguiu à falência do Lehman Brothers, parecia inconcebível que apenas alguns meses depois os banqueiros estariam retornando exatamente às práticas que levaram o sistema financeiro mundial à beira do colapso. No mínimo, poderíamos pensar que eles demonstrariam certa contenção por medo de provocar uma revolta pública.

Mas agora que recuamos alguns passos do precipício - graças, não vamos esquecer, aos imensos pacotes de socorro financiados pelos contribuintes - o setor financeiro está rapidamente voltando aos negócios como sempre. Mesmo enquanto o resto do país ainda sofre com o crescente desemprego e severas dificuldades, os salários de Wall Street já voltam aos níveis anteriores à crise. E o setor está aplicando sua influência política para bloquear até as menores reformas.
  • AFP PHOTO/Stan HONDA

    Operadores de mercado durante pregão na Bolsa de Valores de Nova York, 16 de set. de 2008


A boa notícia é que autoridades graduadas do governo Obama e o Federal Reserve parecem estar perdendo a paciência com o egoísmo do setor. A má notícia é que não está claro se o próprio presidente Barack Obama está pronto, ainda agora, para enfrentar os banqueiros.

Crédito a quem é devido: fiquei deliciado quando Lawrence Summers, o assessor econômico do governo, atacou a campanha que a Câmara de Comércio dos Estados Unidos, em cooperação com lobistas do setor financeiro, está fazendo contra a proposta de criação de uma agência para proteger os consumidores de abusos financeiros, como empréstimos cujas condições eles não compreendem. Os anúncios da Câmara, declarou Summers, são "o equivalente financeiro-regulatório dos anúncios do 'painel da morte' que estão sendo veiculados em relação ao sistema de saúde pública".

Mas proteger os consumidores de abusos financeiros deveria ser apenas o início da reforma. Se realmente quisermos impedir Wall Street de criar outra bolha, seguida por outro estouro, precisamos mudar os incentivos da indústria - o que significa, particularmente, mudar a maneira como os banqueiros são pagos.

O que há de errado com os honorários da indústria financeira? Resumindo, os executivos dos bancos são generosamente recompensados se produzirem grandes lucros em curto prazo - mas não são punidos de maneira correspondente se mais tarde sofrerem prejuízos ainda maiores. Isto incentiva a exposição a riscos excessivos: alguns dos homens mais responsáveis pela atual crise saíram imensamente ricos com os bônus que ganharam nos bons anos, apesar de as estratégias de alto risco que levaram a esses bônus terem acabado dizimando suas empresas, derrubando nesse processo uma grande parte do sistema financeiro.

O Federal Reserve, despertando de seu sono da era Greenspan, compreende esse problema - e propõe fazer algo a respeito. Segundo relatórios recentes, o conselho do Fed considera a imposição de novas regras sobre honorários nas firmas financeiras, exigindo que os bancos retenham os bônus diante dos prejuízos e liguem o pagamento ao desempenho em longo prazo, e não em curto. O Fed afirma que tem autoridade para fazer isso como parte de seu mandado geral para supervisionar a solidez dos bancos.

Mas a indústria - apoiada por quase todos os republicanos e alguns democratas - vai lutar ferozmente contra essas mudanças. Embora o governo vá apoiar algum tipo de reforma de honorários, não está claro se apoiará plenamente os esforços do Fed.

Fiquei surpreso na semana passada quando Obama, em uma entrevista à Bloomberg News, questionou a tese de se limitar os pagamentos no setor financeiro: "Por que vamos limitar os honorários dos executivos dos bancos de Wall Street, mas não os dos empresários do Vale do Silício ou os dos jogadores de futebol da Liga Nacional?", ele perguntou.

É um comentário surpreendente - e não apenas porque a Liga Nacional de Futebol realmente tem limites aos honorários. As firmas de tecnologia não arrasam o sistema operacional do mundo inteiro quando falem; os jogadores que fazem passes muito arriscados não precisam ser socorridos com bilhões de dólares. Os bancos são um caso especial - e o presidente certamente é inteligente o bastante para saber disso.

Só posso pensar que foi mais um exemplo de algo que já vimos: a relutância visceral de Obama a se envolver em qualquer coisa que pareça retórica populista. E isso é algo que ele precisa superar.

Não é apenas que assumir uma posição populista sobre o pagamento dos banqueiros é uma boa política - embora seja: o governo sofreu mais do que parece notar com a percepção de que está dando o dinheiro suado dos contribuintes para Wall Street, e deveria aproveitar a oportunidade de retratar o Partido Republicano como o partido dos bônus obscenos.

Igualmente importante, é que neste caso populismo é boa economia. De fato, pode-se argumentar que reformar os honorários dos banqueiros é a melhor coisa isolada que podemos fazer para evitar outra crise financeira daqui a alguns anos.

Está na hora de o presidente perceber que às vezes o populismo, especialmente o populismo que deixa os banqueiros irritados, é exatamente do que a economia precisa.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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