As Cassandras do clima

Paul Krugman

Paul Krugman

De vez em quando eu perco a esperança em relação ao destino do planeta.

Quem tem acompanhado a ciência climática sabe o que eu quero dizer: a sensação de que estamos rumando para a catástrofe, sem que ninguém deseje ouvir falar nela ou fazer algo para evitá-la.

Mas eis o problema: eu não estou usando hipérboles. Nos dias de hoje as previsões terríveis não são feitas por malucos e alucinados. Elas são frutos de modelos climáticos amplamente respeitados, feitos por pesquisadores importantes. Os prognósticos relativos ao planeta pioraram bastante nos últimos anos.

E o que está gerando esta nova onda de pessimismo? Em parte é o fato de algumas das mudanças previstas, como o declínio do gelo do Oceano Ártico, estarem ocorrendo de forma muito mais rápida do que a esperada.

E em parte são as evidências crescentes de que sistemas retroalimentadores que ampliam os efeitos das emissões de gases causadores do efeito estufa criados pelo homem são mais fortes do que anteriormente se achava. Por exemplo, há muito se sabe que o aquecimento global provocará o derretimento da tundra, liberando dióxido de carbono, o que provocará ainda mais aquecimento.

Mas novas pesquisas revelam que a quantidade de dióxido de carbono no "permafrost" (solo congelado das regiões de elevada altitude) é muito maior do que se acreditava anteriormente, o que significa um efeito retroalimentador muito mais intenso.

O resultado de tudo isso é que os cientistas tornaram-se, de forma maciça, Cassandras - dotados da capacidade de prever futuros desastres, mas amaldiçoados com a incapacidade de fazer com que as pessoas acreditem neles.

E não estamos falando apenas de desastres no futuro distante. O verdadeiro aumento drástico da temperatura global provavelmente só ocorrerá na segunda metade deste século, mas muito antes disso haverá bastante estrago.

Por exemplo, um trabalho publicado em 2007 no periódico "Science" é intitulado "Model Projections of an Imminent Transition to a More Arid Climate in Southwestern North America" ("Modelos de Projeções de uma Transição Iminente para um Clima Mais Árido no Sudoeste da América do Norte") - sim, "iminente" - e afirma haver um "amplo consenso entre os criadores de modelos climáticos" de que uma seca permanente, que trará condições semelhantes às do Dust Bowl (seca ocorrida na América do Norte na década de trinta que reduziu a pó árido o solo fértil de vastas áreas), "tornar-se-á a nova climatologia do sudoeste norte-americano dentro de anos ou décadas".

Portanto, se você mora em, digamos, Los Angeles, e gostou daquele céu vermelho e da poeira sufocante em Sydney, na Austrália, na semana passada, não haverá necessidade de viajar para apreciar o espetáculo.

Aquela cena será parte do seu dia-a-dia em um futuro não muito distante. Agora, neste momento eu gostaria de afirmar que nenhum fenômeno climático individual pode ser atribuído ao aquecimento global. A questão, no entanto, é que a alteração climática tornará muito mais comuns episódios como a tempestade de poeira australiana.

Assim sendo, em um mundo racional o desastre climático iminente seria a nossa preocupação política dominante. Mas está evidente que ele não é. Por que não?

Em parte porque é difícil manter a atenção das pessoas focada. O clima flutua - os nova-iorquinos podem recordar-se da onda de calor que empurrou o termômetro para acima de 32ºC em abril - e, mesmo no nível global, isso é suficiente para provocar uma oscilação anual nas temperaturas médias. Como resultado, todo ano em que há uma onda de calor recorde é seguido de alguns anos mais frios: segundo o Departamento de Meteorologia do Reino Unido, 1998 foi o ano mais quente até agora, embora a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa) - que sem dúvida possui os melhores dados - afirme que o ano mais quente foi 2005.

E é muito fácil chegar à falsa conclusão de que o perigo passou. Mas o principal motivo pelo qual estamos ignorando a alteração climática é o fato de Al Gore estar certo: esta verdade é simplesmente muito inconveniente. Ao contrário do que costuma-se afirmar, responder à alteração climática com o vigor que a ameaça exige não devastaria a economia como um todo. Mas isso embaralharia as cartas econômicas, atingindo alguns interesses velados poderosos ainda que fossem criadas novas oportunidades econômicas. E as indústrias do passado contam neste momento com lobistas nos locais certos. Mas as indústrias do futuro não.

Mas isso não é apenas uma questão de interesses velados. É também uma questão de ideias veladas. Durante três décadas a ideologia dominante nos Estados Unidos enalteceu a iniciativa privada e denegriu o governo, mas a mudança climática é um problema que só pode ser enfrentado pela ação governamental. E, em vez reconhecer os limites da sua filosofia, muitos protagonistas de direita optaram por negar que o problema existe.

Portanto, aqui estamos nós, com o maior desafio enfrentado pela humanidade na lista de problemas secundários, se tanto, no que se refere às políticas a serem adotadas. Aliás, não estou dizendo que o governo Obama está errado em dar prioridade à reforma do sistema de saúde. É necessário exibir uma realização concreta aos eleitores antes de novembro deste ano. Mas é melhor que a legislação relativa à alteração climática seja o próximo passo.

E, conforme eu já observei na minha última coluna, temos condições de arcar com os custos de tal iniciativa. Neste momento em que os modelos climáticos geram um consenso de que a ameaça é pior do que pensávamos, os modelos econômicos indicam que os custos do controle de emissões são menores do que muitos temiam.

Portanto, a hora de agir é agora. Ok, a rigor, já passamos muito da hora de agir. Mas antes tarde do que nunca.

Tradução: UOL

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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