A política do ódio

Paul Krugman

Paul Krugman

Na semana passada tivemos um exemplo daquilo que o presidente Obama gosta de chamar de um momento de aprendizado, quando o Comitê Olímpico Internacional rejeitou a candidatura de Chicago como sede dos Jogos Olímpicos de 2016.

"Aplausos irromperam" na sede da conservadora "Weekly Standard", segundo a mensagem no blog de um membro da editoria da revista que trazia o título "Obama perdeu! Obama perdeu!". Rush Limbaugh disse estar "radiante de alegria". "O Mundo Rejeita Obama", anunciava o site Drudge Report. E assim por diante.

Então, o que foi que nós aprendemos com aquele momento? Uma das lições foi que o movimento conservador moderno, que domina o Partido Republicano, tem a maturidade emocional de um adolescente endiabrado de 13 anos de idade.

Mas, o mais importante, o episódio ilustrou uma verdade essencial sobre o estado em que se encontra a política norte-americana: neste momento, o valor que guia um dos dois grandes partidos políticos da nossa nação é o ódio puro e simples. Se os republicanos acreditam que algo possa ser bom para o presidente, eles são contrários - não importando se essa coisa seja boa ou não para os Estados Unidos.
  • Pablo Martinez Monsivais/AP

    Os conservadores usarão qualquer pretexto para atacar Obama, até mesmo a derrota da candidatura de Chicago para as Olimpíadas de 2016



É verdade que, embora a comemoração da derrota dos Estados Unidos pelo Comitê Olímpico tenha sido pueril, ela não causou nenhum mal concreto. Mas o mesmo princípio do ódio norteou as posições republicanas quanto a questões mais sérias, com consequências potencialmente sérias - em particular, o debate a respeito da reforma do sistema de saúde.

É compreensível que muitos republicanos oponham-se aos planos democratas para ampliar a cobertura de saúde - assim como a maioria dos democratas se opôs à tentativa do presidente Bush de converter o Social Security em um gigantesco 401(k) (uma espécie de plano de aposentadoria patrocinado pelo empregador). Afinal, os dois partidos têm de fato filosofias diferentes quanto ao papel apropriado do governo.

Mas as táticas dos dois partidos têm sido diferentes. Em 2005, quando os democratas fizeram campanha contra a privatização do Social Security, os argumentos deles condiziam com a ideologia subjacente: eles argumentaram que a substituição de benefícios garantidos por contas privadas exporia os aposentados a um risco excessivo.

A campanha republicana contra a reforma do sistema de saúde, por outro lado, não revelou tal coerência. A principal linha de ataque do Partido Republicano é alegar - baseado sobremaneira em mentiras sobre "comitês da morte" e coisas do gênero - que a reforma enfraquecerá o Medicare. E essa linha de ataque contrasta fortemente com as tradições de ambos os partidos e com aquilo em que os conservadores alegam acreditar.

Pensem em como é bizarro o fato de os republicanos apresentarem-se como os defensores dos gastos irrestritos com o Medicare. Para início de conversa, o Partido Republicano moderno considera-se o partido de Ronald Reagan - e Reagan foi um oponente ferrenho da criação do Medicare, advertindo que este destruiria a liberdade norte-americana. (Honesto.). Na década de noventa, Newt Gingrich tentou impor cortes drásticos sobre o financiamento do Medicare. E, nos últimos anos, os republicanos condenaram repetidamente o aumento dos gastos com pessoas que têm direito ao programa - um crescimento que foi motivado em grande parte pelo aumento dos custos com tratamento de saúde.

Mas o plano do governo Obama de ampliar a cobertura baseia-se em parte na economia com o Medicare. E como o Partido Republicano opõe-se a tudo que possa ser bom para Obama, a sigla tornou-se uma defensora feroz de procedimentos médicos ineficientes e de pagamentos excessivos às companhias de seguro.

Como foi que um dos nossos maiores partidos políticos tornou-se tão rude e tão disposto a adotar táticas de terra arrasada, mesmo que isso reduza a capacidade de qualquer futuro governo de administrar o país?

A questão fundamental é que desde os anos Reagan, o Partido Republicano é dominado por radicais - ideólogos e/ou "apparatchiks" que, em um nível fundamental, não aceitam ninguém mais tenha direito a governar.

Quem estiver surpreso com a oposição venenosa e exagerada a Obama deve ter se esquecido dos anos Clinton. Vocês se lembram de quando Rush Limbaugh insinuou que Hillary Clinton seria uma assassina? E de quando Newt Gingrich paralisou o governo federal na tentativa de obrigar Bill Clinton a aceitar aqueles cortes no Medicare? E não vamos nem falar sobre a saga do impeachment.

A única diferença agora é que o Partido Republicano está em uma posição mais frágil, tendo perdido o controle não apenas sobre o congresso, mas, em grande parte, sobre os termos do debate. O público não acredita mais na ideologia conservadora como costumava acreditar; os velhos ataques ao Grande Governo e os elogios à mágica do mercado perderam a sua ressonância. Mas os conservadores continuam acreditando que eles, e somente eles, devem governar.

O resultado tem sido uma abordagem cínica do tipo os fins justificam os meios. Apressar a chegada do dia em que o partido governante correto retornará ao poder é tudo o que importa, de forma que o Partido Republicano usará qualquer porrete que estiver ao seu alcance para bater no atual governo.

É um cenário feio. Mas a verdade é essa. E é uma verdade que precisa ser entendida por toda pessoa que estiver tentando encontrar soluções para os problemas reais dos Estados Unidos.

Tradução: UOL

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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