A desconexão chinesa

Paul Krugman

Paul Krugman

Altos funcionários monetários geralmente falam em código. Assim, quando Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), falou recentemente sobre a Ásia, os desequilíbrios internacionais e a crise financeira, ele não criticou especificamente a ultrajante política monetária da China.

Mas nem precisava: todo mundo entendeu as entrelinhas. O mau comportamento da China representa uma crescente ameaça ao restante da economia mundial. A única pergunta agora é o que o mundo - e, em particular, os Estados Unidos - fará a respeito.
  • Elizabeth Dalziel/AP

    Paul Krugman: Muitos economistas, eu incluso, acreditam que a onda de compra de ativos pela China ajudou a inflar a bolha imobiliária, preparando o cenário para a crise financeira global. Mas a insistência da China em manter fixo o valor do yuan frente ao dólar, mesmo enquanto o dólar se desvaloriza, pode estar causar mais mal agora



Algumas informações essenciais: o valor da moeda da China, diferente, digamos, do valor da libra britânica, não é determinado pela oferta e demanda. Em vez disso, as autoridades chinesas determinam o valor comprando ou vendendo sua moeda no mercado de moeda estrangeira -uma política possibilitada pelas restrições à capacidade dos investidores privados de movimentar seu dinheiro para dentro ou fora do país.

Não há nada necessariamente errado nessa política, especialmente em um país ainda pobre cujo sistema financeiro poderia se desestabilizar facilmente com os fluxos voláteis de dinheiro especulativo. Na verdade, o sistema serviu à China muito bem durante a crise financeira asiática do final dos anos 90. A questão crucial, entretanto, é se a meta cambial do yuan é razoável.

Até cerca de 2001, era possível argumentar que era: a posição comercial geral da China era desequilibrada demais. Dali em diante, entretanto, a política de manter fixa a cotação do yuan frente ao dólar passou a parecer cada vez mais bizarra. Primeiro, o dólar perdeu valor, especialmente frente ao euro, de forma que ao manter fixo o valor do yuan em relação ao dólar, as autoridades chinesas, na prática, desvalorizaram sua moeda frente às demais. Enquanto isso, a produtividade dos setores de exportação da China decolou; combinada com a desvalorização de fato, isso tornou os bens chineses extremamente baratos nos mercados mundiais.

O resultado foi um imenso superávit comercial chinês. Se fosse permitido que a oferta e demanda prevalecesse, o valor da moeda chinesa teria subido acentuadamente. Mas as autoridades chinesas não permitiram que ela valorizasse. Elas a mantiveram baixa vendendo vastas quantidades da moeda, adquirindo em troca um volume enorme de ativos estrangeiros, a maioria em dólares, atualmente no valor de cerca de US$ 2,1 trilhões.

Muitos economistas, eu incluso, acreditam que a onda de compra de ativos pela China ajudou a inflar a bolha imobiliária, preparando o cenário para a crise financeira global. Mas a insistência da China em manter fixo o valor do yuan frente ao dólar, mesmo enquanto o dólar se desvaloriza, pode estar causando ainda mais mal agora.

Apesar de haver muitas previsões apocalípticas a respeito da desvalorização do dólar, esse declínio é de fato tanto natural quanto desejável. Os Estados Unidos precisam de um dólar mais fraco para ajudar a reduzir seu déficit comercial, e está conseguindo esse dólar mais fraco à medida que investidores nervosos, que correram para a suposta segurança dos títulos da dívida americana no pico da crise, começaram a colocar seu dinheiro para trabalhar em outros lugares.

Mas a China tem mantido sua moeda atrelada ao dólar - o que significa que um país com um imenso superávit comercial e uma economia em rápida recuperação, um país cuja moeda deveria estar valorizando, está na prática promovendo uma alta desvalorização.

E essa é uma coisa particularmente ruim de se fazer em um momento em que a economia mundial permanece profundamente deprimida devido à demanda geral inadequada. Ao buscar uma política de moeda fraca, a China está tirando de outros países parte dessa demanda inadequada, o que está prejudicando o crescimento em quase toda parte. As maiores vítimas, a propósito, provavelmente são os trabalhadores de outros países pobres. Em tempos normais, eu estaria entre os primeiros a rejeitar as alegações de que a China está roubando empregos de outras pessoas, mas no momento essa é a verdade.

E o que vamos fazer?

As autoridades americanas estão extremamente cautelosas a respeito de confrontar o problema da China, a ponto do Departamento do Tesouro, na semana passada, ao mesmo tempo em que expressava "preocupações", certificou em um relatório requisitado pelo Congresso que a China não está - repito, não está - manipulando sua moeda. Eles estão brincando, não é?

No momento, essa cautela faz pouco sentido. Suponha que os chineses façam o que Wall Street e Washington parecem temer, que é começar a vender grande parte de suas reservas de dólares. Sob as atuais condições, isso na verdade ajudaria a economia americana ao tornar nossas exportações mais competitivas.

Na verdade, alguns países, mais notadamente a Suíça, estão tentando apoiar suas economias vendendo suas próprias moedas no mercado de moedas estrangeiras. Os Estados Unidos, principalmente por motivos diplomáticos, não podem fazer isso; mas se os chineses decidirem fazê-lo por nós, nós deveríamos enviar um bilhete de agradecimento.

O importante é que a economia mundial ainda está em um estado precário e políticas que empobrecem o vizinho, adotadas por grandes agentes, não podem ser toleradas. Algo precisa ser feito a respeito da moeda chinesa.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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