O plano de estímulo de Obama: muito pouco de uma boa coisa

Paul Krugman

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A boa notícia é que a Lei Americana de Recuperação e Reinvestimento, também conhecida como o plano de estímulo de Obama, está funcionando como os livros de macroeconomia dizem que funcionaria. Mas essa também é a má notícia - porque uma análise dos mesmos livros diz que o estímulo foi pequeno demais, dada a escala de nossos problemas econômicos. A menos que algo mude drasticamente, nós estamos olhando para muitos anos de desemprego elevado.

E a notícia realmente ruim é que os "centristas" no Congresso não são capazes ou não estão dispostos a chegar à mesma conclusão óbvia, que é a de que precisamos de mais gastos federais para criação de empregos.

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A respeito da boa notícia: há não muito tempo a economia americana estava em queda livre. Sem a lei de recuperação, a queda livre provavelmente teria continuado, à medida que os trabalhadores desempregados cortassem seus gastos, os governos estaduais e locais despojados de dinheiro realizassem demissões em massa e mais.

O estímulo não eliminou completamente esses efeitos, mas foi o suficiente para quebrar o ciclo vicioso de declínio econômico. A ajuda aos desempregados e aos governos estaduais e locais provavelmente foi o fator mais importante. Se você quiser ver a lei de recuperação em ação, visite uma sala de aula: sua escola local provavelmente teria demitido muitos professores se o estímulo não tivesse sido aprovado.

E a queda livre foi detida. O relatório do PIB da semana passada mostrou a economia crescendo de novo, em uma taxa anual melhor do que a esperada de 3,5%. Como Mark Zandim, da Moody's Economy.com, disse em um recente depoimento: "O estímulo está fazendo o que deveria fazer: dar um curto-circuito na recessão e estimular a recuperação".

Mas não está fazendo o suficiente.

Suponha que a economia continue crescendo a 3,5%. Se isso vier a acontecer, o desemprego no final começaria a cair - mas muito, muito lentamente. A experiência da era Clinton, quando a economia cresceu a uma taxa média de 3,7% por oito anos (você sabia disso?) sugere que, nas atuais taxas de crescimento, nós teríamos sorte em ver a taxa de desemprego cair em meio ponto percentual por ano, o que significa que seria necessária uma década para retornar a algo como plano emprego.

Pior, está longe de claro que o crescimento prosseguirá nessa taxa. Os efeitos do estímulo crescerão com o tempo - ele provavelmente ainda criará ou salvará um total de cerca de 3 milhões de empregos- mas seu maior impacto sobre o crescimento do PIB (diferente de seu nível) já está ficando para trás. Um crescimento sólido só continuará se os gastos privados pegarem o bastão à medida que o efeito do estímulo diminuir. E, até o momento, não há sinal de que isso acontecerá.

Logo, o governo precisa fazer muito mais. Infelizmente, as perspectivas políticas de uma maior ação não são boas.

O que fico ouvindo de Washington são dois argumentos: ou (1) o estímulo fracassou, o desemprego continua crescendo, então não devemos fazer mais, ou (2) o estímulo teve sucesso, o PIB está crescendo, então não precisamos fazer mais. A verdade, que o estímulo foi muito pouco de uma boa coisa -que ajudou, mas não foi grande o bastante - parece ser complicada demais para uma era de política de mensagens breves.

Mas podemos arcar com mais? Nós não podemos arcar com não fazer.

O desemprego elevado não pune apenas a economia hoje; ele também pune o futuro. Diante de uma economia deprimida, as empresas cortam gastos de investimento - tanto gastos em instalações e equipamento quanto investimentos "intangíveis" em coisas como desenvolvimento de produtos e treinamento dos trabalhadores. Isso prejudicará o potencial da economia por muitos anos.

Os falcões do déficit gostam de se queixar de que os jovens de hoje terão que pagar impostos muito mais altos para o serviço da dívida que estamos incorrendo agora. Mas se alguém realmente se preocupasse com as perspectivas dos jovens americanos, essa pessoa estaria pressionando por uma maior criação de empregos, já que o fardo do desemprego elevado recai desproporcionalmente sobre os trabalhadores jovens - e aqueles que entram na força de trabalho nos anos de alto desemprego sofrem danos permanentes à carreira, nunca alcançando aqueles que se formam em tempos melhores.

Mesmo se a alegação de que teremos que pagar pelos atuais gastos em estímulo com impostos mais altos depois é em grande parte errada. Gastar mais na recuperação levará a uma economia mais forte, tanto agora quanto no futuro -e uma economia mais forte significa mais receita para o governo. Os gastos em estímulo provavelmente não pagarão a si mesmos, mas seu verdadeiro custo, mesmo em um sentido fiscal estreito, é apenas uma fração do valor nominal.

Ok, eu sei que não estou sendo prático. Grandes programas econômicos não passam pelo Congresso sem o apoio dos democratas relativamente conservadores, e esses democratas estão dizendo aos repórteres que perderam seu apetite por estímulos.

Mas eu espero que seus estômagos comecem a roncar em breve. Nós agora sabemos que o estímulo funciona, mas não estamos fazendo o suficiente. Pelo bem dos desempregados de hoje, e pelo bem do futuro da nação, nós precisamos fazer muito mais.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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