Mundo fora de ordem

Paul Krugman

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As viagens internacionais de líderes mundiais em geral servem de gestos simbólicos. Ninguém espera que o presidente Barack Obama volte da China com grandes novos acordos de política econômica ou de qualquer outra coisa.

Esperemos, contudo, que quando as câmeras não estiverem rodando, Obama e seus anfitriões travem alguma conversa franca sobre política monetária, pois o problema do desequilíbrio no comércio internacional está prestes a se tornar substancialmente pior. E, a não ser que a China se corrija, haverá um confronto potencialmente feio adiante.
  • Jason Reed/Reuters

    Paul Krugman: "Ninguém espera que o presidente Barack Obama volte da China com
    grandes novos acordos de política econômica ou de qualquer outra coisa. Esperemos, contudo, que Obama e seus anfitriões travem alguma conversa franca sobre política monetária"

Uma breve descrição do quadro: a maior parte das moedas do mundo "flutuam" umas contras as outras. Ou seja, seus valores relativos sobem ou descem dependendo das forças de mercado. Isso não necessariamente significa que os governos são totalmente isentos: os países algumas vezes limitam a saída de capitais quando há uma corrida contra sua moeda (como fez a Islândia no ano passado) ou toma medidas para desestimular a entrada de dinheiro quente quando temem que especuladores exagerem em sua avaliação positiva (o que o Brasil está fazendo agora). Atualmente, porém, a maior parte das nações tenta manter o valor de sua moeda alinhado com os fundamentos econômicos de longo prazo.

A China é a grande exceção. Apesar dos enormes superávits comerciais e do desejo de muitos investidores de entrarem nesta economia que cresce rapidamente - as forças que deveriam ter fortalecido o yuan, a moeda da China - as autoridades chinesas mantiveram a moeda persistentemente fraca. Eles fizeram isso principalmente trocando yuans por dólares, acumulado em grandes quantidades.

E nos últimos meses a China executaram uma desvalorização, mantendo o índice do câmbio yuan-dólar fixo enquanto o dólar caía fortemente contra outras importantes moedas. Isso deu aos exportadores uma vantagem competitiva crescente sobre seus rivais, especialmente produtores em outros países em desenvolvimento.

O que torna a política monetária da China especialmente problemática é o estado deprimido da economia mundial. O dinheiro barato e o estímulo fiscal parecem ter evitado uma segunda Grande Depressão. Contudo, as políticas não conseguiram gerar suficiente consumo, público ou privado, para combater o desemprego em massa. E a atual moeda artificialmente fraca na China exacerba o problema, de fato desviando a demanda tão necessária do resto do mundo para os bolsos de exportadores chineses artificialmente competitivos.

Mas por que eu digo que este problema está prestes a piorar? Porque no último ano a verdadeira escala do problema chinês foi mascarada por fatores temporários. Daqui para frente, podemos esperar tanto um aumento do superávit comercial da China quanto do déficit comercial dos EUA.

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Esse é o argumento de um novo artigo de Richard Baldwin e Daria Taglioni do Instituto Graduate, Genebra. Eles observam que os desequilíbrios comerciais, tanto o superávit chinês quanto o déficit norte-americano, recentemente estiveram muito menores do que há poucos anos, mas que "essas melhoras globais são em grande parte ilusórias, o efeito colateral transitório do maior colapso comercial que o mundo já viu".

De fato, o mergulho no comércio mundial em 2008-09 foi um recorde e refletiu principalmente o fato do comércio moderno ser dominado por vendas de bens manufaturados duráveis. Diante da crise financeira severa e de sua acompanhante incerteza, tanto os consumidores quanto as corporações adiaram suas compras de tudo o que não fosse imediatamente necessário. Como isso reduziu o déficit comercial americano? A importação de bens como automóveis despencou, assim como algumas exportações dos EUA, mas como entramos na crise importando muito mais do que exportávamos, o efeito líquido foi uma redução da diferença comercial menor.

A crise financeira, contudo, está arrefecendo, e esse processo será revertido. Na semana passada, o relatório comercial dos EUA, mostrou um forte aumento no déficit entre agosto e setembro. E haverá muitos outros relatórios desse tipo.

Tente imaginar: mês após mês, manchetes justapondo os déficits comerciais americanos e os superávits comerciais chineses com o sofrimento de trabalhadores americanos desempregados. Se eu fosse o governo chinês, estaria realmente preocupado com essa perspectiva.

Infelizmente, os chineses não parecem entender: em vez de enfrentarem a necessidade de mudar sua política monetária, eles vêm dando lições aos EUA, dizendo-nos que devemos aumentar a taxa de juros e conter os déficits fiscais - ou seja, tornar nosso problema de desemprego ainda pior.

E tampouco tenho certeza que o governo Obama entende a gravidade da situação. As declarações do governo sobre a política monetária chinesa parecem pro forma , sem sentido de urgência.

Isso precisa mudar. Eu não vejo com maus olhos as oportunidades fotográficas e os banquetes de Obama. Eles fazem parte de seu papel, mas, por trás das cenas, espero que esteja advertindo os chineses que estão jogando um jogo perigoso.

Tradução: Deborah Weinberg

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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