EUA fazem resgate mal feito de bancos

Paul Krugman

Paul Krugman

Nesta semana, o inspetor geral do Programa de Socorro a Ativos Depreciados (Tarp), também conhecido como fundo de resgate aos bancos, divulgou seu relatório sobre o resgate de 2008 à seguradora American International Group (AIG). A essência do relatório é a de que as autoridades do governo não fizeram nenhuma tentativa séria de extrair concessões dos banqueiros, apesar desses banqueiros terem recebido benefícios imensos com o resgate. E mais do que dinheiro foi perdido. Ao dar o que foi na prática um presente multibilionário a Wall Street, os autores de políticas minaram sua própria credibilidade -e colocaram a economia em risco.

O resgate ao AIG fez parte de um padrão: por toda a crise financeira, autoridades-chave -mais notadamente Timothy Geithner, que era presidente do Fed de Nova York em 2008 e atualmente é o secretário do Tesouro- evitaram fazer qualquer coisa que pudesse incomodar Wall Street. E o paradoxo amargo é que esta abordagem de agir de forma segura acabou minando as perspectivas de uma recuperação econômica.

O trabalho de consertar a economia quebrada está longe de concluído -mas concluir o trabalho tornou-se próximo de impossível agora que o público perdeu a fé nos esforços do governo, os considerando pouco mais que doações para as pessoas que nos colocaram nesta encrenca.

A respeito do caso do AIG: durante os anos de bolha, muitas financeiras criaram a ilusão de segurança financeira ao comprarem swaps de crédito do AIG -basicamente, apólices de seguro nas quais o AIG prometia compensar a diferença caso os tomadores de empréstimo dessem calote em suas dívidas. Era uma ilusão, porque a seguradora não tinha nem remotamente dinheiro suficiente para cumprir suas promessas caso as coisas dessem errado. E as coisas deram errado.

Logo, por que proteger os banqueiros das consequências de seus erros? Bem, quando o buraco do AIG se tornou aparente, o sistema financeiro mundial estava à beira do colapso e as autoridades julgaram -provavelmente de forma acertada- que permitir a falência do AIG levaria o sistema financeiro à ruína. Assim, o AIG foi na prática nacionalizado; suas promessas se transformaram em obrigações para os contribuintes.

Mas havia como limitar essas obrigações? Afinal, os bancos teriam sofrido perdas imensas caso o AIG falisse. Logo, parecia justo que eles arcassem com parte do custo do resgate, o que poderia ser feito caso aceitassem um "corte" nos valores que o AIG devia a eles. De fato, o governo pediu que fizessem isso. Mas eles disseram não -e esse foi o fim da história. Os contribuintes não apenas acabaram honrando as promessas tolas feitas por outras pessoas, como acabaram fazendo isso a 100 centavos por dólar.

As coisas poderiam ter sido diferentes? Alguns comentaristas argumentam que as autoridades do governo não tinham como forçar os bancos a aceitarem um corte -ou deixavam o AIG falir, o que não estavam prontas a fazer, ou teriam que honrar os contratos como redigidos.

Mas essa parece ser uma visão ingênua de como Wall Street funciona. As grandes financeiras são um pequeno clube, com um interesse compartilhado na manutenção do sistema; desde os dias de J.P. Morgan, é comum em tempos de crise pedir aos grandes agentes que abram mão dos lucros a curto prazo pelo bem comum do setor. Em 1998, foi um consórcio de banqueiros privados -e não o governo- que levantou os fundos para resgatar o fundo hedge Long Term Capital Management.

Além disso, as grandes financeiras possuem um relacionamento de longo prazo, tanto com o governo quanto entre elas, e podem pagar o preço caso atuem de forma egoísta em tempos de crise. O Bear Stearns, o banco de investimento, atraiu para si muita má vontade ao se recusar a participar daquele resgate em 1998 e acredita-se que essa má vontade foi um grande fator na falência do próprio Bear Stearns, 10 anos depois.

Assim, as autoridades poderiam ter pedido aos banqueiros que oferecessem um acordo melhor, pelo bem deles próprios, e simultaneamente ameaçar nomear e envergonhar aqueles que se recusassem. Foi escolha delas não fazer isso, assim como foi escolha delas não pressionar por um maior controle sobre os bancos resgatados no início de 2009.

E, como eu disse, essas escolhas aparentemente seguras agora colocaram a economia em grave risco. Pois a economia ainda está com problemas profundos e precisa de muito mais ajuda do governo. O desemprego está em dois dígitos; nós precisamos desesperadamente de mais gastos do governo para criação de empregos. Os bancos ainda estão fracos, o crédito ainda está limitado; nós precisamos desesperadamente de mais ajuda do governo para o setor financeiro. Mas tente convencer um eleitor comum a respeito disso. A resposta provavelmente será: "De jeito nenhum. Tudo o que fazem é apenas doar mais dinheiro para Wall Street".

Aqui está a verdadeira tragédia do resgate mal feito: as autoridades do governo, talvez influenciadas por passarem tempo demais com os banqueiros, esqueceram que se você deseja governar de forma eficaz, é preciso manter a confiança das pessoas. E ao tratarem com luva de pelica o setor financeiro -que foi quem nos colocou nesta situação terrível- elas desperdiçaram essa confiança.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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