A ameaça fantasma

Paul Krugman

Paul Krugman

Algo de engraçado ocorreu na rota rumo a um outro New Deal (políticas econômicas implementadas em 1933 pelo presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt). Um ano atrás, a única coisa da qual nós precisávamos ter medo era o próprio medo; hoje, a doutrina reinante em Washington parece ser: "Tenha medo. Tenha muito medo". O que aconteceu? É verdade que "centristas" do Senado prejudicaram os esforços para resgatar a economia. Mas as evidências sugerem que, além de enfrentar oposição política, o presidente Barack Obama e o seu círculo interno de assessores também foram intimidados pelas histórias apavorantes de Wall Street.

Pensem no contraste entre aquilo que os assessores de Obama estavam dizendo na véspera da posse e aquilo que eles dizem agora.

Em dezembro de 2008, Lawrence Summers, que em breve tornar-se-ia o mais importante economista do governo, pediu uma ação decisiva. "Muitos especialistas acreditam que o desemprego poderá chegar a 10% ao final do ano que vem", alertou Summers. "Diante dessa perspectiva, fazer muito pouco representa um perigo maior do que fazer demais".

Dez meses depois, o desemprego chegou a 10,2%, indicando que, apesar do alerta do economista, o governo não fez o suficiente para criar empregos. Seria então de se esperar que houvesse uma determinação de se fazer mais.

Mas em uma recente entrevista à "Fox News", o presidente pareceu inseguro e nervoso quanto à sua política econômica. Ele falou vagamente sobre possíveis incentivos fiscais para a criação de empregos. "Mas é importante reconhecer que, se continuarmos aumentando a dívida, mesmo em meio a esta recuperação, em algum momento as pessoas poderão perder a confiança na economia norte-americana de uma maneira que poderia de fato levar a uma recessão dupla".

Heim? O que?

A maioria dos economistas com os quais eu converso acredita que o maior risco para a recuperação da economia deriva da inadequação das medidas do governo: o estímulo foi muito pequeno, e acabará no ano que vem, e ao mesmo tempo o desemprego está destruindo a confiança dos consumidores e dos empresários.

Mas é politicamente difícil para o governo Obama aplicar um segundo pacote integral de estímulos econômicos. Mesmo assim, ele deveria estar tentando fornecer a maior quantidade possível de auxílio à economia. E, lembrem-se, Obama é o dono do palanque; a função dele é persuadir os Estados Unidos a fazerem aquilo que precisa ser feito.

Porém, em vez disso, Obama está concordando com aqueles que dizem que nós não podemos criar mais empregos. E um relatório da Politico.com sugere que a redução de déficit, e não a criação de empregos, será o cerne do primeiro discurso sobre o Estado da União proferido pelo presidente. O que aconteceu?

Eu demorei um pouco para entender isso. Mas as preocupações manifestadas por Obama tornam-se compreensíveis se supusermos que ele está tirando as suas ideias, direta ou indiretamente, de Wall Street.

Desde que teve início a Grande Recessão, os analistas econômicos de algumas (não todas) das principais firmas de Wall Street advertiram que as tentativas de combater a crise gerariam males econômicos ainda piores. Eles dizem, especialmente, que não nos devemos preocupar com a capacidade do governo dos Estados Unidos de tomar dinheiro emprestado de longo prazo a taxas de juros notavelmente baixas - a qualquer momento os déficits de orçamento provocarão um colapso da confiança do investidor, e as taxas de juros dispararão.

E foi esta última alegação que Obama ecoou na sua entrevista à "Fox News". Ele está certo em se preocupar? Bem, no passado houve altas súbitas dos juros de longo prazo, sendo que a mais famosa foi em 1994. Mas em 1994 a economia dos Estados Unidos estava criando 300 mil empregos por mês, e o Fed elevava continuamente as taxas de juros de curto prazo. É difícil enxergar por que algo de similar deveria ocorrer agora, quando a economia ainda perde empregos e o Fed não demonstra nenhum desejo de elevar as taxas tão cedo.

Eu argumentaria que um modelo melhor é o do Japão na década de noventa, quando aquele país teve grandes déficits de orçamento, mas exibiu também uma economia persistentemente deprimida - e presenciou uma queda quase contínua das suas taxas de juros de longo prazo. Há uma boa possibilidade de que as autoridades estejam sendo aterrorizadas por uma ameaça fantasma - uma ameaça que só existe na cabeça delas.

E será que não deveríamos avaliar as fontes? Até onde posso dizer, os analistas que atualmente alertam para a disparada das taxas de juros tendem a ser as mesmas pessoas que insistiram, alguns meses após o início da Grande Recessão, que a maior ameaça enfrentada pela economia era a inflação. E não nos esqueçamos de que Wall Street - que de alguma forma deixou de perceber a maior bolha imobiliária da história - não tem um histórico muito bom quando se trata de prever o comportamento do mercado.

Mesmo assim, vamos assumir que existe algum risco de que o fato de o governo tomar mais providências quanto ao desemprego de dois dígitos reduziria a confiança no mercado de ações. Esse risco precisa ser cotejado com a certeza do sofrimento maciço que ocorrerá caso não tomemos mais medidas - e com possibilidade, como eu disse, de um colapso da confiança entre os trabalhadores e os empresários comuns.

E Summers estava certo no início: face à maior catástrofe econômica desde a Grande Depressão, é muito mais arriscado fazer muito pouco do que fazer demais. É triste, e infeliz, o fato de o governo parecer ter perdido a verdade de vista.

Tradução: UOL

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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