O imperativo dos empregos

Paul Krugman

Paul Krugman

Se você está procurando emprego neste momento, suas perspectivas são péssimas. Há seis vezes mais americanos buscando trabalho do que ofertas de emprego, e a duração média do desemprego - o tempo que o buscador de emprego médio passou procurando trabalho - é superior a seis meses, o nível mais alto desde a década de 1930.

Você poderia pensar, então, que fazer algo sobre a situação do desemprego seria uma alta prioridade política. Mas, agora que o colapso financeiro total foi evitado, toda a urgência parece ter desaparecido da discussão política, substituída por uma estranha passividade. Existe uma sensação abrangente em Washington de que nada mais pode ou deve ser feito, de que devemos apenas esperar que a recuperação econômica chegue lentamente até os trabalhadores.

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Isso é errado e inaceitável.

Sim, a recessão provavelmente passou no sentido técnico, mas isso não significa que o pleno emprego esteja logo ali depois da esquina. Historicamente, as crises financeiras típicas foram seguidas não apenas por recessões severas, mas por recuperações anêmicas; geralmente se passam anos antes que o desemprego diminua para algo parecido com os níveis normais. E todos os indícios são de que os efeitos da última crise financeira estão seguindo o roteiro habitual. O Federal Reserve, por exemplo, espera que o desemprego, atualmente em 10,2%, fique acima de 8% - número que teria sido considerado desastroso pouco tempo atrás - até algum momento em 2012.

E os danos do alto desemprego constante vão durar muito mais. Os desempregados em longo prazo podem perder suas capacidades, e mesmo quando a economia se recupera eles tendem a ter dificuldade para encontrar emprego porque são considerados de risco pelos potenciais empregadores. Enquanto isso, os estudantes que se formam em um mercado de trabalho pobre começam suas carreiras com uma enorme desvantagem - e pagam um preço em salários mais baixos durante toda a sua vida ativa. O fracasso em atuar contra o desemprego não é apenas cruel, é míope.

Por isso está na hora de um programa de empregos de emergência.

Como um programa de empregos é diferente de um segundo estímulo? É uma questão de prioridades. O estímulo Obama de 2009 se concentrou em restaurar o crescimento econômico. Ele se baseou, na verdade, na crença de que se você aumentar o PIB os empregos virão. Essa estratégia poderia ter dado certo se o estímulo fosse grande o suficiente - mas não foi. E como questão de realidade política é difícil ver como o governo poderia aprovar um segundo estímulo grande o bastante para compensar a escassez do original.

Por isso nossa melhor esperança hoje é de um programa um pouco mais barato, que gere mais empregos por dólar. Esse programa deveria evitar medidas como cortes gerais de impostos, que no máximo levam apenas indiretamente à criação de empregos, com muitas possíveis desconexões no caminho. Em vez disso, deveria consistir em medidas que mais ou menos diretamente salvam ou acrescentam empregos.

Uma dessas medidas seria mais uma rodada de ajuda para os governos estaduais e locais em dificuldades, que viram suas receitas fiscais despencar e que, ao contrário do governo federal, não podem pegar empréstimos para cobrir uma escassez temporária. Mais ajuda poderia evitar o agravamento drástico dos serviços públicos (especialmente a educação) e a eliminação de centenas de milhares de empregos.

Enquanto isso, o governo federal poderia oferecer empregos... oferecendo empregos. Está na hora de pelo menos uma versão reduzida do Works Progress Administration, do New Deal, que oferecesse emprego no serviço público com salários relativamente baixos (mas muito melhores que nada). Haveria acusações de que o governo estaria criando empregos de pouca utilidade, mas o WPA deixou muitas conquistas sólidas em seu rastro. E o ponto chave é que o emprego público direto pode criar muitos empregos por um custo relativamente baixo. Em uma proposta a ser lançada hoje, o Instituto de Política Econômica, um grupo de pensadores progressistas, afirma que gastar US$ 40 bilhões por ano durante três anos em empregos no serviço público criaria um milhão de empregos, o que parece certo.

Finalmente, podemos oferecer às empresas incentivos diretos ao emprego. Provavelmente é tarde demais para um programa de conservação de empregos, como o subsídio muito bem-sucedido que a Alemanha ofereceu aos empregadores que mantiveram sua força de trabalho. Mas os empregadores poderiam ser incentivados a acrescentar trabalhadores conforme a economia se expandir. O Instituto de Política Econômica propõe um crédito fiscal para os empregadores que aumentarem suas folhas de pagamento, o que certamente vale a pena tentar.

Tudo isso custaria dinheiro, provavelmente várias centenas de bilhões de dólares, e aumentaria o déficit orçamentário em curto prazo. Mas isso deve ser pesado contra o alto custo da inação diante de uma emergência social e econômica.

Ainda esta semana o presidente Barack Obama realizará uma "cúpula do emprego". A maioria das pessoas com quem eu falo é cínica sobre o evento e espera que o governo ofereça apenas gestos simbólicos. Mas não precisa ser assim. Sim, podemos criar mais empregos - e sim, devemos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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