Reforma, senão...

Paul Krugman

Paul Krugman

A reforma da saúde é incerta. Seu destino está nas mãos de um punhado de senadores "centristas" - senadores que alegam estar preocupados se a legislação proposta é fiscalmente responsável.

Mas se estivessem realmente preocupados com a responsabilidade fiscal, eles não estariam preocupados com o que aconteceria em caso de aprovação da reforma da saúde. Em vez disso, eles deveriam estar preocupados com o que aconteceria se não fosse aprovada. Pois os Estados Unidos não poderão controlar seu orçamento sem controlar os custos da saúde - e esta é nossa última e melhor chance de lidar com estes custos de forma racional.

Aqui estão algumas informações: as projeções fiscais a longo prazo para os Estados Unidos pintam um quadro sombrio. A menos que ocorram grandes mudanças políticas, os gastos crescerão consistentemente mais rápido do que a receita, levando ao final a uma crise da dívida.

O que há além dessas projeções? O envelhecimento da população, que elevará o custo do seguro social, faz parte da história. Mas o principal motor dos futuros déficits é o crescente custo do Medicare e do Medicaid (o seguro-saúde público para idosos e pessoas de baixa renda, respectivamente). Se os custos da saúde subirem no futuro como subiram no passado, uma catástrofe fiscal seria inevitável.
  • Paul J. Richards/AFP

    Manifestante exibe cartaz em frente ao Congresso dos EUA durante protesto realizado em novembro contra a proposta de reforma da saúde do presidente Barack Obama


Poderia se pensar, dado este quadro, que a ampliação da cobertura para aqueles que, caso contrário, não estariam segurados exacerbaria o problema. Mas isso é um erro, por dois motivos.

Primeiro, os não segurados nos Estados Unidos são, em média, relativamente jovens e saudáveis; fornecer cobertura a eles não elevaria muito os custos gerais da saúde.

Segundo, a reforma proposta da saúde vincula a expansão da cobertura à medidas sérias de controle de custos para o Medicare. Pense nisso como uma grande barganha: cobertura para (quase) todos, ligada a um esforço para aumentar os incentivos para um atendimento eficaz, o uso da pesquisa médica para guiar os médicos aos tratamentos que realmente funcionam e mais. Este é "o melhor esforço que alguém já fez", disse Jonathan Gruber, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Uma carta assinada por 23 especialistas em saúde proeminentes -incluindo Mark McClellan, que dirigiu o Medicare durante o governo Bush - declara que as medidas de controle de custos do projeto "reduzirão os déficits a longo prazo".

O fato de estarmos vendo a primeira tentativa realmente séria de controlar os custos da saúde, como parte de um projeto de lei que tenta fornecer cobertura aos não segurados, parece confirmar o que os reformistas vinham dizendo há anos: o caminho para o controle dos custos passa pela cobertura universal. Nós só podemos lidar com custos fora de controle como parte de um acordo que também forneça aos norte-americanos a segurança de um atendimento de saúde garantido.

Esta observação por si só deveria fazer qualquer um preocupado com responsabilidade fiscal apoiar esta reforma. Ao longo da próxima década, concluiu o Escritório de Orçamento do Congresso, a legislação proposta reduziria, e não aumentaria, o déficit fiscal. E ao nos dar uma chance, finalmente, de conter os gastos crescentes do Medicare, ela melhoraria enormemente nossas perspectivas fiscais a longo prazo.

Mas há outro motivo para o fracasso em aprovar a reforma poder ser devastador - a natureza da oposição.

A campanha republicana contra a reforma da saúde se apoiava em parte em argumentos tradicionais, argumentos que remontavam aos dias em que Ronald Reagan tentava assustar os norte-americanos a se oporem ao Medicare - denúncias de "medicina socializada", alegações de que cobertura universal de saúde é um caminho para a tirania, etc.

Mas nos rounds finais da luta pela reforma da saúde, o Partido Republicano passou a se concentrar mais e mais em um esforço para satanizar os esforços para controle de custos. O projeto de lei no Senado imporia "cortes draconianos" ao Medicare, diz o senador John McCain, que propôs cortes muito mais profundos no ano passado, durante sua campanha presidencial. "Se você é idoso e está no Medicare, é melhor ter medo deste projeto de lei", diz o senador Tom Coburn.

Se essas táticas funcionarem, e a reforma da saúde fracassar, pense na mensagem que transmitiriam: significaria que qualquer esforço para lidar com o maior problema orçamentário que enfrentamos seria explorado com sucesso pelos adversários políticos como sendo um ataque aos norte-americanos mais velhos. Levaria muito tempo até qualquer um estar disposto a encarar esse desafio de novo; basta lembrar que após o fracasso do esforço de Bill Clinton, foram necessários 16 anos para a próxima tentativa de reforma da saúde.

Esse é um motivo para qualquer um realmente preocupado com a política fiscal ficar ansioso para ver o sucesso da reforma da saúde. Se ela fracassar, os demagogos terão vencido e nós provavelmente não lidaremos com nosso maior problema fiscal até sermos forçados a agir por causa de uma terrível crise da dívida.

Assim, para os centristas ainda no muro a respeito da reforma da saúde: se vocês se importam com responsabilidade fiscal, é melhor temerem o que acontecerá em caso de fracasso da reforma.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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