Desastre e negação

Paul Krugman

Paul Krugman

Quando comecei a escrever para o "The Times", era ingênuo sobre muitas coisas. Contudo, meu maior engano foi o seguinte: de fato, eu acreditava que as pessoas influentes podiam ser tocadas pelas evidências, que mudariam suas opiniões se os eventos refutassem completamente suas crenças.

Para ser justo, até que isso acontece de vez em quando. Fui altamente crítico de Alan Greenspan durante alguns anos (muito antes de ser moda), mas precisamos dar crédito ao ex-diretor do Fed (banco central norte-americano): ele admitiu que estava errado sobre a capacidade dos mercados financeiros se policiarem.

Contudo, é um caso raro. Isso foi demonstrado pelo que aconteceu na última sexta-feira (11/12) na Câmara dos Deputados quando -com o derretimento causado por um sistema financeiro desenfreado ainda fresco em nossas mentes e o desemprego em massa que esse derretimento causou ainda em evidência- cada um dos republicanos e 27 democratas votaram contra um esforço bastante modesto para deter os excessos de Wall Street.

Vamos nos lembrar de como entramos na atual confusão.

Os EUA emergiram da Grande Depressão com um sistema bancário fortemente regulado. Os regulamentos funcionaram: o país foi poupado de importantes crises financeiras por quase quatro décadas após a Segunda Guerra Mundial. Contudo, com o esvaecimento da memória da Depressão, os banqueiros começaram a se irritar com as restrições que enfrentavam. E os políticos, sob influência crescente da ideologia do mercado livre, demonstraram boa vontade em dar aos banqueiros o que queriam.

A primeira grande onda de desregulamentação ocorreu sob Ronald Reagan -e rapidamente levou ao desastre, na forma da crise de poupança e de empréstimos dos anos 80. Os contribuintes acabaram pagando mais de 2% do PIB, o equivalente a US$ 300 bilhões (em torno de R$ 500 bilhões) hoje, para arrumar a confusão.

Os proponentes da desregulamentação, porém, não se abateram e, na década que antecedeu a atual crise, políticos dos dois partidos compraram a noção que as restrições da era do "New Deal" aos banqueiros não passavam de regulamentos sem sentido. Em um incidente memorável em 2003, fiscais de bancos de alto escalão tiraram uma foto na qual usavam tesouras de poda e uma serra elétrica para cortar pilhas de papéis representando as regulamentações.

E os banqueiros -liberados tanto pala legislação que removeu as restrições tradicionais quanto pela atitude liberal dos fiscais que não acreditavam na regulamentação- responderam flexibilizando dramaticamente os requisitos para empréstimos. O resultado foi uma explosão no crédito e uma bolha imobiliária monstruosa, seguida da pior crise econômica desde a Grande Depressão. Ironicamente, o esforço para conter o colapso exigiu uma intervenção do governo muito maior do que aquela necessária para impedir a crise em primeiro lugar, com o resgate de instituições em dificuldades, empréstimos de grande escala do Federal Reserve ao setor privado e assim por diante.

Com esse histórico, era de se esperar que surgiria um consenso nacional em favor da restauração de uma fiscalização financeira mais eficaz, para evitar uma repetição do desastre. Mas não. Converse com os conservadores sobre a crise financeira e entrará em um universo alternativo e bizarro, no qual os burocratas do governo, e não os banqueiros gananciosos, causaram o colapso. É um universo no qual as agências de empréstimo patrocinadas pelo governo geraram a crise, apesar dos credores privados de fato terem feito a maioria ampla dos empréstimos podres. É um universo no qual os reguladores coagiram banqueiros a emprestarem para pessoas não qualificadas, apesar de apenas uma das 25 principais financiadoras ter sido sujeita aos regulamentos em questão.

Ah, e os conservadores simplesmente ignoram a catástrofe imobiliária comercial: em seu universo, os únicos empréstimos ruins foram aos pobres e às minorias, porque os empréstimos podres aos incorporadores de shoppings e torres de escritórios não se encaixam no discurso.

Em parte, a prevalência dessa narrativa reflete o princípio enunciado por Upton Sinclair: "É difícil fazer um homem compreender algo quando seu salário depende da não compreensão desse fato". Como ressaltaram os democratas, três dias antes da votação da reforma dos bancos na Câmara, os líderes republicanos reuniram-se com mais de 100 lobistas da indústria financeira para coordenar estratégias. Isso também reflete como o Partido Republicano moderno está comprometido com uma ideologia falida, que não o deixa enfrentar a realidade do que aconteceu com a economia norte-americana.

Então, o papel cabe aos democratas, mais especificamente aos democratas "centristas" do Senado -pois a Câmara já aprovou seu projeto de lei. Estão dispostos a aprender algo com o desastre que assomou a economia norte-americana e a defender a reforma financeira?

Esperamos que sim. Pois uma coisa está clara: se os políticos se recusarem a aprender com a história da recente crise financeira, vão nos condenar a repeti-la.

Tradução: Deborah Weinberg

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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