"Entediante", Canadá passa pela crise melhor que os Estados Unidos

Paul Krugman

Paul Krugman

Em tempos de crise, a falta de notícias é boa notícia. A fusão da Islândia ganhou manchetes; a notável estabilidade dos bancos do Canadá, nem tantas.

Mas, enquanto a atenção do mundo passa do socorro financeiro para a reforma financeira, as tranquilas histórias de sucesso merecem pelo menos tanta atenção quanto os fracassos espetaculares. Precisamos aprender com os países que evidentemente acertaram. E no topo dessa lista está nosso vizinho do norte. Neste momento o Canadá é um modelo muito importante.

Sim, eu sei, o Canadá supostamente é entediante. "The New Republic" fez a famosa declaração de que "Iniciativa canadense válida" (de uma coluna editorial do "Times" da década de 1980) foi a manchete mais entediante do mundo. Mas eu sempre considerei o Canadá fascinante, exatamente por ser semelhante aos EUA em muitos aspectos, mas não em todos. A tese é que quando as experiências canadense e americana divergem pode-se apostar que as diferenças de políticas, mais que culturais ou de estrutura econômica, são responsáveis por essa divergência.

E de todo modo, quando se trata de bancos, entediante é bom.

Primeiro, um pouco de história. Na última década, os EUA e o Canadá enfrentaram o mesmo ambiente global. Ambos foram confrontados com a mesma inundação de produtos baratos e de dinheiro barato da Ásia. Economistas de ambos os países declararam alegremente que a era das recessões graves estava terminada.

Mas quando as coisas desmoronaram as consequências foram muito diferentes aqui e lá. Nos EUA, os calotes de hipotecas dispararam, algumas grandes instituições financeiras desabaram e outras sobreviveram somente graças a enormes empréstimos do governo. No Canadá nada disso aconteceu. O que os canadenses fizeram de tão diferente?

Não foi a política de juros. Muitos comentaristas culpam o Federal Reserve pela crise financeira, alegando que o Fed criou uma bolha desastrosa ao manter as taxas de juros baixas demais por muito tempo. Mas as taxas de juros canadenses acompanharam de perto as americanas, por isso parece que os juros baixos por si sós não bastam para produzir uma crise financeira.

A experiência do Canadá também parece refutar a visão, forçosamente defendida por Paul Volcker, o formidável ex-presidente do Fed, de que as raízes de nossa crise estão na escala e no âmbito de nossas instituições financeiras -na existência de bancos que eram "grande demais para falir". Pois no Canadá essencialmente todos os bancos são grandes demais para falir: apenas cinco grupos bancários dominam a cena financeira.

Por outro lado, a experiência do Canadá parece sustentar as opiniões de pessoas como Elizabeth Warren, diretora da comissão do Congresso que supervisiona a ajuda aos bancos, que atribuem grande parte da culpa pela crise ao fracasso em proteger os consumidores de empréstimos enganosos. O Canadá tem uma Agência Financeira do Consumidor independente, e ela restringiu acentuadamente os empréstimos do tipo "subprime".

Acima de tudo, a experiência do Canadá parece reforçar aqueles que dizem que a maneira de manter o setor bancário seguro é mantê-lo entediante -isto é, limitar o nível de riscos que os bancos podem assumir. Os EUA costumavam ter um sistema bancário entediante, mas a desregulamentação da era Reagan tornou as coisas perigosamente interessantes. O Canadá, em comparação, manteve um tédio feliz.

Mais especificamente, o Canadá foi muito mais rígido sobre limitar a alavancagem dos bancos -a medida em que eles podem contar com fundos emprestados. O país também limitou o processo de securitização, em que os bancos empacotam e revendem os direitos de seus empréstimos a vencer- num processo que deveria ajudar os bancos a reduzir seu risco, ao diluí-lo, mas na prática veio a ser uma maneira de os bancos fazerem apostas cada vez mais altas com o dinheiro alheio.

Não há dúvida de que nos últimos anos essas restrições significaram menos oportunidades para os banqueiros terem ideias espertas do que teria sido possível se o Canadá tivesse imitado o zelo desregulamentador americano. Mas, afinal, isso foi positivo.

Então, quais são as probabilidades de que os EUA aprendam com o sucesso do Canadá?

Na verdade, a lei da reforma financeira que a Câmara dos Deputados aprovou em dezembro tornaria o sistema americano significativamente semelhante ao canadense. Ela criaria uma Agência de Proteção Financeira do Consumidor independente, estabeleceria limites para a alavancagem e limitaria a securitização ao exigir que os credores mantivessem parte de seus empréstimos.

Mas as perspectivas de que uma lei comparável consiga os 60 votos hoje necessários para aprovar qualquer coisa no Senado são duvidosas. Os republicanos são claramente contra qualquer reforma financeira significativa - nenhum republicano votou a favor da lei na Câmara - e alguns democratas também estão ambivalentes.

Por isso há uma boa probabilidade de que não façamos nada, ou não muita coisa, para evitar futuras crises bancárias. Mas não será porque não sabemos o que fazer: temos em nosso vizinho um claro exemplo de como manter o sistema bancário seguro.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

UOL Cursos Online

Todos os cursos