Krugman: Os EUA ainda não se perderam (mas o Senado trabalha para isso)

Paul Krugman

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Sempre soubemos que o reinado dos EUA como maior nação do mundo um dia acabaria. Mas a maioria das pessoas imaginava que nossa queda, quando viesse, seria algo grandioso e trágico.

O que estamos vendo, entretanto, é menos uma tragédia do que uma farsa mortífera. Em vez de lutar sob a tensão da expansão imperial, estamos paralisados pelo procedimento. Em vez de reencenar o declínio e a queda de Roma, estamos reencenando a dissolução da Polônia no século 18.

  • Jewel Samad/AFP

    Capitólio, sede do legislativo; Krugman: “o Senado americano parece decidido a atrapalhar o país”

Uma rápida aula de história: nos séculos 17 e 18, o legislativo polonês, o Sejm, operava sob o princípio da unanimidade: qualquer membro poderia anular a legislação gritando "Não permito!" Isso tornou o país amplamente ingovernável, e regimes vizinhos começaram a cortar pedaços de seu território. Em 1795 a Polônia tinha desaparecido, e não ressurgiria por mais de um século.

Hoje o Senado americano parece decidido a fazer o Sejm parecer bom, em comparação.

Na semana passada, depois de nove meses, o Senado finalmente aprovou Martha Johnson para chefiar a Administração de Serviços Gerais, que dirige os edifícios do governo e compra seus suprimentos. É basicamente uma posição apolítica, e ninguém questionou as qualificações de Johnson: ela foi aprovada por uma votação de 94 a 2. Mas o senador republicano Christopher Bond, de Missouri, havia colocado uma "retenção" em sua indicação para pressionar o governo a aprovar um projeto de edificação em Kansas City.

Essa realização dúbia pode ter inspirado o senador republicano Richard Shelby, de Alabama. Em todo caso, Shelby agora colocou em retenção todas as principais nomeações do governo Obama - cerca de 70 cargos governamentais de alto nível -, até que seu estado consiga um contrato de aviões-tanques e um centro de contraterrorismo.

O que dá aos senadores individuais esse tipo de poder? Grande parte da atuação do Senado depende de aprovação unânime: é difícil fazer qualquer coisa a menos que todos concordem com o procedimento. E tem crescido uma tradição segundo a qual os senadores, em troca de não atrapalhar tudo, têm o direito de bloquear nomeados dos quais eles não gostam.

No passado, as retenções eram usadas com parcimônia. Isso porque, como diz um relatório do Serviço de Pesquisa Congressional sobre essa prática, o Senado costumava ser governado por "tradições de harmonia, cortesia, reciprocidade e conveniência". Mas isso foi antigamente. As regras que costumavam ser factíveis tornaram-se hoje paralisantes, porque um dos principais partidos políticos do país caiu no niilismo, e não vê o problema - na verdade vê dividendos políticos - de tornar o país ingovernável.

Quão ruim é isso? É tão ruim que sinto saudade de Newt Gingrich.

Os leitores talvez se lembrem de que em 1995 Gingrich, então presidente da Câmara, cortou as verbas do governo federal e forçou uma paralisação temporária do governo. Foi feio e radical, mas pelo menos Gingrich tinha demandas específicas: ele queria que Bill Clinton aceitasse cortes acentuados no Medicare.

Hoje, em comparação, os líderes republicanos se recusam a oferecer propostas específicas. Eles investem contra o déficit - e no mês passado seus senadores votaram em uníssono contra qualquer aumento no limite da dívida federal, medida que teria precipitado outra paralisação do governo se os democratas não tivessem 60 votos. Mas eles também denunciam qualquer coisa que possa na verdade reduzir o déficit, incluindo, ironicamente, qualquer esforço para gastar as verbas do Medicare de maneira mais sábia.

E com o Partido Republicano nacional tendo abdicado de qualquer responsabilidade por fazer as coisas funcionarem, é apenas natural que senadores individuais se sintam livres para tomar o país como refém até que eles tenham seus projetos preferidos financiados.

A verdade é que, diante do estado da política americana, o modo como o Senado funciona não é mais coerente com um governo funcional. Os próprios senadores devem reconhecer esse fato e promover mudanças nessas regras, incluindo eliminar ou pelo menos limitar a obstrução. Isto é algo que eles poderiam e deveriam fazer, por voto majoritário, no primeiro dia da próxima sessão do Senado.

Não segure o fôlego. Como está, os democratas nem sequer parecem marcar pontos políticos ao salientar o obstrucionismo de seus adversários.

Deveria ser uma mensagem simples (e deveria ter sido a mensagem central em Massachusetts): votar em um republicano, não importa o que você pense dele como pessoa, é votar na paralisia. Mas agora sabemos como o governo Obama lida com aqueles que gostariam de destruí-lo: ele vai diretamente para os capilares. Certamente, Robert Gibbs, o secretário de imprensa da Casa Branca, acusou Shelby de "bobice". É, isso realmente vai repercutir entre os eleitores.

Depois da dissolução da Polônia, um oficial polonês que servia sob Napoleão compôs uma canção que mais tarde - depois da ressurreição do país após a Primeira Guerra Mundial - se tornou seu hino nacional. Ele começa assim: "A Polônia ainda não está perdida".

Bem, a América ainda não está perdida. Mas o Senado está trabalhando para isso.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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