Krugman: Os republicanos e o Medicare

Paul Krugman

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“Não corte o Medicare. Os projetos de reforma da saúde aprovados pela Câmara e pelo Senado reduzem o orçamento do Medicare em aproximadamente US$ 500 bilhões (cerca de R$ 930 bilhões). Isso é errado.” Assim declarou Newt Gingrich, o ex-presidente da Câmara, em um recente artigo de opinião escrito em parceria com John Goodman, o presidente do Centro Nacional para Análise de Políticas.

E a ironia morreu.

Bem, Gingrich estava apenas repetindo a atual posição do partido. Denúncias furiosas contra qualquer esforço para buscar economia de custos no Medicare (o seguro-saúde público americano para idosos e inválidos) –painéis da morte!– são peças centrais dos esforços republicanos para satanizar a reforma da saúde. O que é incrível, entretanto, é estarem escapando impunes disso.

  • 21.08.2001 - Rick Wilking/Reuters

    Idosos ouvem discurso do então presidente dos EUA Goerge W. Bush sobre previdência social

Por que é incrível? Não é apenas pelo fato dos republicanos agora estarem posando como defensores ferrenhos de um programa que odeiam desde os dias em que Ronald Reagan alertava que o Medicare destruiria a liberdade da América. Nem se deve ao fato de, como presidente da Câmara, Gingrich ter tentado pessoalmente promover cortes profundos no Medicare –e, em 1995, chegou até mesmo a suspender o funcionamento do governo federal em uma tentativa de pressionar Bill Clinton a aceitar esses cortes.

Afinal, seria possível explicar esta meia volta supondo que os republicanos mudaram de opinião, que finalmente perceberam quanto bem o Medicare faz. E se você acreditar nisso, eu tenho alguns títulos baseados em hipotecas que você pode ter interesse em comprar.

Não, o que é realmente inacreditável é isto: enquanto os republicanos condenam propostas modestas para conter a alta dos custos do Medicare, eles estão buscando desmontar todo o programa. E o processo de desmanche começaria com cortes de gastos no valor de cerca de US$ 650 bilhões (cerca de R$ 1,2 trilhão) ao longo da próxima década. Eu sei que matemática não é fácil, mas eu acredito que isso é mais do que os cerca de US$ 400 bilhões (e não US$ 500 bilhões) em economia de custos do Medicare projetados nos projetos de lei de reforma da saúde dos democratas.

Eu estou falando aqui do “Roteiro para o Futuro da América”, o plano orçamentário recentemente lançado pelo deputado Paul Ryan, o líder da bancada republicana no Comitê Orçamentário da Câmara. Outros líderes republicanos têm se esquivado a respeito do status oficial desta proposta, mas está bem claro que a visão de Ryan representa de fato o que o Partido Republicano tentaria fazer caso retornasse ao poder.

O quadro mais amplo que surge a partir do “roteiro” é o de uma agenda econômica que não mudou nada em resposta aos fracassos econômicos dos anos Bush. Em particular, Ryan oferece um plano de privatização do Seguro Social que é basicamente idêntico às propostas de Bush de cinco anos atrás.

Mas o que realmente vale a pena notar, dada a forma como o Partido Republicano tem feito campanha contra a reforma da saúde, é que Ryan propõe fazer com o Medicare.

Na proposta de Ryan, ninguém atualmente com menos de 55 anos teria cobertura do Medicare como ele existe atualmente. Em vez disso, as pessoas receberiam vales e seriam instruídas a comprarem seus próprios planos de saúde. E mesmo esta nova versão privatizada do Medicare ruiria com o passar do tempo, porque o valor desses vales quase certamente ficaria cada vez mais defasado diante do custo de fato do plano de saúde. Quando os americanos atualmente na faixa dos 20 ou 30 anos chegassem à idade em que teriam direito ao Medicare, não restaria quase nada do programa.

Mas e quanto aqueles que já têm cobertura do Medicare ou que ingressarão no programa ao longo da próxima década? Eles estão seguros, diz o roteiro; eles ainda terão direito ao Medicare tradicional. Exceto, isto é, pelo fato de que o plano “fortalece o atual programa com mudanças como cobranças adicionais proporcionais à renda para o benefício de medicamentos prescritos, para assegurar a sustentabilidade a longo prazo”.

Se soa como um jargão ininteligível deliberadamente confuso, é porque é. Felizmente, o Escritório de Orçamento do Congresso, que avaliou o roteiro, oferece uma tradução: “Os inscritos de renda mais alta pagarão valores mais altos, e alguns pagamentos feitos pelo programa seriam reduzidos”. Resumindo, seriam realizados cortes no Medicare.

E é possível estimar o tamanho desses cortes a partir da análise do escritório de orçamento, que compara a proposta de Ryan com os parâmetros da política atual. Como eu já disse, o total ao longo da próxima década seria de cerca de US$ 650 bilhões– substancialmente mais do que as economias de custos do Medicare nos projetos de lei democratas.

Resumindo, então, a cruzada contra a reforma da saúde se baseia em pura hipocrisia: os republicanos que odeiam o Medicare, que tentaram cortar o Medicare no passado e ainda buscam desmontar o programa, estão marcando pontos políticos ao condenar propostas para economias de custo modestas –economias que são substancialmente menores do que os cortes de gastos escondidos em suas próprias propostas.

E se os democratas não se entenderem e conduzirem a reforma quase completa até a linha de chegada, este ato de tirar o fôlego de hipocrisia descomunal será bem-sucedido.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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