O que nós aprendemos com o encontro da reforma da saúde

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Chuck Kennedy/White House Photo

    Barack Obama lidera encontro bipartidário para discutir reforma do sistema da saúde nos EUA

    Barack Obama lidera encontro bipartidário para discutir reforma do sistema da saúde nos EUA

Se tivermos sorte, o encontro de quinta-feira (25) será o último ato no grande debate da reforma da saúde, o prólogo da aprovação de um projeto de lei imperfeito, mas mesmo assim histórico. Se isso acontecer, o debate terminará como começou: com os democratas oferecendo planos moderados que exploram antigas ideias republicanas, e os republicanos respondendo com difamação e informações deliberadamente erradas.

Ninguém realmente esperava algo diferente. Mas o que é revelador a respeito da reunião bipartidária foi o fato dos republicanos –que tiveram semanas para se prepararem para este evento em particular e que estão fazendo campanha contra a reforma há um ano– não terem se dado ao trabalho de apresentar um argumento capaz de resistir a uma checagem mínima dos fatos.

Era óbvia a direção em que as coisas seguiriam tão logo o primeiro republicano a falar, o senador Lamar Alexander, fez seus comentários. Ele presumidamente foi escolhido porque ele é popular e amigável, podendo fazer com que a posição de seu partido soasse razoável. Mas logo de cara ele soltou uma lorota bombástica, afirmando que sob o plano democrata, “para milhões de americanos, os preços dos planos de saúde vão subir”.

Uau. Eu acho que é possível dizer que ele não estava tecnicamente mentindo, já que a análise pelo Escritório de Orçamento do Congresso do plano dos democratas do Senado diz que os preços médios com planos de saúde subiriam. Mas também deixa claro que isso só aconteceria porque as pessoas comprariam coberturas maiores e melhores. O “preço de um plano de saúde com cobertura limitada” cairia, não aumentaria –e o custo de fato para muitos americanos cairia, graças à ajuda federal.

Sua mentira sobre os preços dos planos de saúde foi rapidamente seguida por uma mentira sobre o processo. Os democratas, já tendo aprovado um projeto de reforma da saúde com 60 votos no Senado, agora planejam usar uma votação de maioria simples para modificar alguns dos números, um processo conhecido como reconciliação. Alexander declarou que a reconciliação “nunca foi usada para algo assim”. Bem, eu não sei o que “algo assim” significa, mas a reconciliação já foi usada em outras reformas da saúde –e foi usada para aprovação de ambos os cortes de impostos de Bush, a um custo de US$ 1,8 trilhão (cerca de R$ 3,2 trilhões), duas vezes mais do que o da reforma da saúde.

Mas o que realmente chamou minha atenção a respeito da reunião foi a incapacidade dos republicanos de explicar como eles propõem lidar com o assunto que, acertadamente, está no centro emocional do debate da saúde: a situação difícil dos americanos que sofrem de condições médicas pré-existentes.

Em outros países avançados, todo mundo recebe atendimento essencial independente de seu histórico médico. Mas nos Estados Unidos, um episódio de câncer, uma desordem genética herdada, ou mesmo, em alguns Estados, ser vítima de violência doméstica, impede que a pessoa possa ter um seguro, deixando um atendimento de saúde adequado fora do seu alcance financeiro.

Uma das grandes virtudes do plano democrata é que finalmente colocaria um fim neste caso inaceitável de excepcionalismo americano. Mas qual é a resposta republicana? Alexander foi estranhamente inarticulado sobre o assunto, dizendo apenas que “os republicanos da Câmara têm algumas ideias sobre como meu amigo em Tullahoma pode pagar um plano de saúde barato para sua esposa que teve câncer de mama”. Mas ele não ofereceu nenhuma pista sobre quais seriam essas ideias.

Na verdade, os republicanos da Câmara não têm nada a oferecer aos americanos com históricos médicos problemáticos. Pelo contrário, a grande ideia deles –permitir uma concorrência sem restrições além das divisas estaduais– levaria a uma corrida ao mínimo denominador comum. Os Estados com regulamentações mais fracas –por exemplo, aqueles que permitem que as seguradoras neguem cobertura às vítimas de violência doméstica– estabeleceriam o padrão para o país como um todo. O resultado seria atormentar ainda mais os aflitos, tornando a vida dos americanos com condições pré-existentes ainda mais difícil.

Você não precisa acreditar em mim. Veja a análise do Escritório de Orçamento do Congresso sobre o plano republicano na Câmara. A análise emprega termos prudentes, com o escritório de orçamento declarando de forma um tanto obscura que, apesar de que o número de americanos sem plano de saúde não mudaria muito, “o pool de pessoas sem plano de saúde teria em média menos saúde do que sob a lei atual”. Mas aqui está a tradução: apesar de que algumas pessoas passariam a ter plano de saúde, as pessoas que perderiam a cobertura seriam aqueles que mais precisam. Sob o plano republicano, o sistema de saúde americano se tornaria ainda mais brutal do que é agora.

E o que nós aprendemos com a reunião? O que eu vi foi que o sucesso das difamações, como os painéis da morte, obviamente encheu de arrogância os políticos republicanos. A esta altura, eles obviamente acreditam que podem fazer qualquer afirmação falsa, dizendo coisas que podem ser facilmente refutadas, sem pagar nenhum preço. E podem estar certos.

Mas os democratas podem acabar rindo por último. Tudo o que eles precisam fazer –e eles têm o poder de fazer– é concluir o trabalho e sancionar a reforma da saúde.

 

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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