Yuan desvalorizado é obstáculo para a recuperação econômica global

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Reuters

    Visitante passa diante do pôster que mostra o processo de desenho e impressão da moeda chinesa, o yuan, durante exposição no Museu Nacional da China, em Pequim

    Visitante passa diante do pôster que mostra o processo de desenho e impressão da moeda chinesa, o yuan, durante exposição no Museu Nacional da China, em Pequim

As tensões estão crescendo devido à política econômica chinesa e com razão: a política da China de manter sua moeda, o yuan, desvalorizada se transformou em um obstáculo significativo para a recuperação econômica global. Algo precisa ser feito.

Para dar uma ideia do problema: enormes queixas de que a China estava manipulando sua moeda –vendendo o yuan e comprando moedas estrangeiras, para manter o yuan fraco e as exportações chinesas artificialmente competitivas– começaram por volta de 2003. Àquela altura a China estava adicionando US$ 10 bilhões (cerca de R$ 17,5 bilhões) por mês às suas reservas, e em 2003 ela teve um superávit geral em conta corrente –uma medida da balança comercial– de US$ 46 bilhões (cerca de R$ 81 bilhões).

Hoje, a China está adicionando mais de US$ 30 bilhões (cerca de R$ 53 bilhões) por mês às suas reservas de US$ 2,4 trilhões (cerca de R$ 4,2 trilhões). O Fundo Monetário Internacional espera que a China tenha um superávit em conta em 2010 de mais de US$ 450 bilhões (cerca de R$ 790 bilhões) –10 vezes mais do que o número de 2003. Esta é a política cambial mais distorcedora já adota por um grande país.

E é uma política que prejudica seriamente o restante do mundo. Grande parte das grandes economias do mundo está presa em uma armadilha de liquidez –profundamente deprimidas, mas incapazes de gerar uma recuperação por meio do corte de taxas de juros, porque as taxas relevantes já estão próximas de zero. A China, por engenharia de um superávit comercial injustificável, está na prática impondo um antiestímulo a essas economias, que elas são incapazes de compensar.

E como devemos responder? Acima de tudo, o Departamento do Tesouro americano deve deixar de ser negligente.

Duas vezes por ano, por lei, o Tesouro deve emitir um relatório identificando os países que “manipulam a taxa de câmbio entre sua moeda e o dólar americano visando impedir o balanço eficaz dos pagamentos ou ganhar vantagens competitivas injustas no comércio internacional”. A intenção da lei é clara: o relatório deve ser um levantamento factual, não uma declaração de política. Na prática, entretanto, o Tesouro tem se mostrado sem disposição de agir em relação ao yuan assim como em fazer o que a lei determina, que é explicar ao Congresso por que não está agindo. Em vez disso, ele passou os últimos seis ou sete anos fingindo não ver o óbvio.

Será que o próximo relatório, previsto para 15 de abril, manterá a tradição? Veremos.

Se o Tesouro apontar a manipulação da moeda chinesa, então o que acontecerá? Aqui nós temos que superar um equívoco comum: a visão de que os chineses nos têm sob o ponta de sua arma, porque não ousamos provocar a China a se desfazer de seus ativos em dólar.

O que temos que perguntar é: o que aconteceria se a China tentasse vender uma grande parte de seus ativos em dólar? As taxas de juros subiriam? As taxas de juros de curto prazo americanos não mudariam: elas estão sendo mantidas próximas do zero pelo Fed (Federal Reserve, o banco central americano), que não elevará as taxas enquanto as taxas de desemprego não caírem. As taxas de longo prazo poderiam subir ligeiramente, mas elas são determinadas principalmente pelas expectativas do mercado para as futuras taxas de curto prazo. Além disso, o Fed poderia compensar o impacto nas taxas de juros de uma retirada chinesa expandindo suas próprias compras de títulos de longo prazo.

É verdade que se a China descartasse seus ativos americanos, o valor do dólar cairia frente a outras grandes moedas, como o euro. Mas isso seria bom para os Estados Unidos, já que tornaria nossos produtos mais competitivos e reduziria nosso déficit comercial. Por outro lado, seria ruim para a China, que sofreria grandes perdas em suas reservas em dólar. Resumindo, no momento a China é que está sob a ponta de uma arma americana, não o contrário.

Logo, não temos motivo para temer a China. Mas o que devemos fazer?

Alguns ainda dizem que devemos argumentar gentilmente com a China, não enfrentá-la. Mas estamos argumentando com a China há anos, enquanto seu superávit incha, sem chegar a lugar nenhum: no domingo, Wen Jiabao, o primeiro-ministro chinês, declarou –absurdamente– que a moeda de seu país não está desvalorizada. (O Instituto Peterson para Economia Internacional estima que o yuan está entre 20% e 40% abaixo de seu valor real.) E Wen acusou outros países de fazerem o que a China está fazendo de fato, buscando enfraquecer suas moedas “visando aumentar suas próprias exportações”.

Mas se a argumentação não funciona, qual é a alternativa? Em 1971, os Estados Unidos lidaram com um problema semelhante, mas muito menos severo, de desvalorização de moeda estrangeira impondo uma sobretaxa temporária de 10% sobre as importações, que foi removida poucos meses depois, após a Alemanha, Japão e outros países permitirem a valorização de suas moedas frente ao dólar. A esta altura, é difícil ver a China mudando suas políticas, a menos que enfrentasse a ameaça de uma ação semelhante –exceto que desta vez a sobretaxa teria que ser muito maior, digamos de 25%.

Eu não proponho a adoção de uma política dura dessas levianamente. Mas a política cambial chinesa está agravando os problemas econômicos do mundo em um momento em que esses problemas já são muito severos. É hora de assumir uma posição.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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