Aprovação da reforma da Saúde derrota o medo dos norte-americanos

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Doug Mills / The New York Times - 08.mar.2010

    O presidente dos EUA, Barack Obama, durante palestra sobre a reforma da Saúde

    O presidente dos EUA, Barack Obama, durante palestra sobre a reforma da Saúde

No dia antes da votação da reforma na saúde no domingo, o presidente Barack Obama fez um discurso improvisado aos democratas da Câmara. No final, ele explicou de que forma seu partido deveria aprovar a reforma: “De vez em quando, chega um momento em que você tem uma chance de exercer as melhores esperanças que você tinha sobre si mesmo, sobre este país; (um momento) em que você tem uma chance de fazer valer aquelas promessas que você fez... e este é o momento. Talvez não vençamos, mas estaremos sendo verdadeiros. Talvez não tenhamos sucesso, mas vamos deixar a luz que temos brilhar.” 

Do outro lado, Newt Gringrich, ex-presidente republicano da Câmara –um homem celebrado por muitos em seu partido como líder intelectual- disse que se os democratas aprovarem a reforma na saúde, “eles estarão destruindo o partido deles como Lyndon Johnson estilhaçou o Partido Democrata por 40 anos” aprovando a legislação de direitos civis. 

Eu diria que Gingrich está errado, que as propostas para garantir o atendimento médico são muitas vezes controversas antes de entrarem em vigor –Ronald Reagan argumentou famosamente que o Medicare significaria o final da liberdade americana –mas são sempre populares quando passam a vigorar. 

Mas não era esse o ponto que eu queria ressaltar. Em vez disso, quero que você considere o seguinte contraste: de um lado, o argumento de conclusão do discurso de Obama foi um apelo aos nossos melhores anjos, instando os políticos a fazerem o que é certo, mesmo que aquilo prejudicasse suas carreiras; do outro, o cinismo insensível. Pense no que significa condenar a reforma da saúde comparando-a ao Ato de Direitos Civis. Quem nos EUA de hoje diria que LBJ fez a coisa errada promovendo a igualdade racial? (De fato, nós sabemos quem: as pessoas do protesto do “Tea Party”, que gritaram lemas raciais contra membros democratas do Congresso na véspera da votação.) 

Sim, após fingirem pensar muito sobre o assunto, alguns intelectuais conservadores alegaram preocupação com as implicações fiscais da reforma (mas ficaram estranhamente impassíveis diante da declaração de saúde fiscal do Escritório de Orçamento do Congresso). Outros exigiram mais ação sobre os custos (apesar desta reforma fazer mais para atacar os custos da saúde do que qualquer outra anterior). Da maior parte, contudo, os oponentes da reforma nem fingiram se envolver com a realidade do sistema de saúde atual ou com o plano moderado centrista –muito próximo em linhas gerais à reforma que Mitt Romney introduziu em Massachusetts- que os democratas estavam propondo. 

Em vez disso, o centro da oposição à reforma foi provocar medo descaradamente, sem se ater aos fatos ou a qualquer noção de decência. 

Não foi só a difamação do conselho de morte. Houve promoção do ódio racial, como no texto no “Investor’s Business Daily” que declarou que a reforma na saúde era a “ação afirmativa com esteroides, decidindo tudo com base na cor da pele, desde quem se torna médico até quem recebe tratamento.” Foram alegações loucas sobre o financiamento do aborto. Foi a insistência que havia algo tirânico em dar aos jovens trabalhadores americanos a segurança de atendimento médico quando precisassem, uma garantia que os americanos mais velhos tiveram desde que Johnson –considerado por Gingrich um presidente fracassado- promoveu o Medicare apesar dos gritos dos conservadores. 

E sejamos claros: a campanha do medo não foi desenvolvida por uma minoria radical, desconectada do Partido Republicano. Pelo contrário, os principais membros do partido estiveram envolvidos e aprovando tudo. Políticos como Sarah Palin –que foi, vamos lembrar, vice-candidata republicana à presidência- espalharam avidamente a mentira da sentença de morte, e políticos supostamente razoáveis, como o senador Chuck Grassley, recusaram-se a dizer que aquilo não era verdade. Na véspera da grande votação, membros republicanos do Congresso advertiram que a “liberdade morreria um pouco” e acusaram os democratas de “táticas totalitárias”, referindo-se, acredito eu, ao processo conhecido como “votação”. 

Sem dúvida, a campanha do medo foi eficaz: a reforma na saúde passou de altamente popular a amplamente reprovada, apesar dos números estarem melhorando ultimamente. Mas seria de fato suficiente impedir a reforma? 

A resposta é não. Parece que os democratas conseguiram. A versão do Senado da reforma na saúde vai se tornar lei e será melhorada com a reconciliação. É claro que esta é uma vitória política para Obama e um triunfo para a presidente da Câmara Nancy Pelosi. Mas também é uma vitória para a alma americana. No final, a ofensiva do medo sem princípios e maléfica fracassou em impedir a reforma. Desta vez, o medo perdeu.

Tradutor: Deborah Weinberg

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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