Depois da reforma da Saúde, será que a reforma dos sistema financeiro sairá?

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Stan Honda/AFP

    Fachada da rua onde funciona o centro financeiro dos EUA, em Nova York

    Fachada da rua onde funciona o centro financeiro dos EUA, em Nova York

A reforma da saúde é lei. A seguir: reforma financeira. Mas ela acontecerá? A Casa Branca está otimista, porque acredita que os republicanos não vão querer ser vistos como aliados de Wall Street. Eu não estou tão certo. A pergunta chave é quantos senadores acreditam que podem escapar impunes alegando que guerra é paz, escravidão é liberdade e regulamentação dos grandes bancos significa fazer um grande favor aos grandes bancos. 

Um pouco de história: nós costumávamos ter um sistema viável para evitar crises financeiras, apoiado em uma combinação de garantias do governo e regulamentação. De um lado, os depósitos bancários eram segurados, impedindo as grandes corridas aos bancos que foram a causa central da Grande Depressão. Do outro, os bancos eram fortemente regulamentados, para que não tirassem proveito das garantias do governo correndo riscos excessivos. 

De 1980 em diante, entretanto, esse sistema gradualmente ruiu, em parte devido à desregulamentação bancária, mas principalmente por causa da ascensão do sistema bancário “paralelo”: instituições e práticas –como financiamento de investimentos a longo prazo com tomada de empréstimo overnight– que recriaram os riscos da atividade bancária à moda antiga, mas que não eram cobertos pelas garantias e nem pela regulamentação. O resultado, em 2007, foi um sistema financeiro tão vulnerável a crises severas quanto o sistema de 1930. E veio a crise. 

E agora? Nós já recriamos, na prática, garantias do tipo New Deal: quando o sistema financeiro mergulhou na crise, o governo interveio para resgatar as empresas financeiras em risco, para evitar um colapso completo. E é preciso ter em mente que os maiores resgates ocorreram sob um governo republicano conservador, que alegava acreditar profundamente no livre mercado. Há todo motivo para acreditar que essa será a regra daqui em diante: na hora do vamos ver, independente de quem esteja no poder, o setor financeiro será resgatado. Na prática, as dívidas dos bancos paralelos, como os depósitos dos bancos convencionais, agora são garantidas pelo governo. 

A única dúvida agora é se o setor financeiro pagará um preço por este privilégio, se Wall Street será obrigada a se comportar de forma responsável em troca do apoio do governo. E quem poderia ser contra isso? 

Bem, que tal John Boehner, o líder da minoria na Câmara? Recentemente, Boehner falou aos banqueiros, os encorajando a combater os esforços do Congresso para impor uma regulamentação mais rígida. “Defendam-se, não deixem que aqueles pequenos funcionários punks tirem proveito de vocês”, ele pediu. Ao “tirar proveito” ele quis dizer impor algumas condições ao setor em troca da ajuda do governo. 

Barney Frank, o presidente do Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, prontamente produziu alguns botões “Pequeno Funcionário Punk” e os distribuiu aos assessores legislativos. 

Mas Boehner não é o problema: Frank já conseguiu um bom apoio à reforma financeira na Câmara. Em vez disso, a pergunta é o que acontecerá no Senado. 

No Senado, a legislação na mesa foi elaborada pelo senador Chris Dodd de Connecticut. Ela é significativamente mais fraca do que o projeto de lei de Frank e precisa ser fortalecida, um assunto que discutirei em futuras colunas. Mas nenhum projeto de lei se torna lei se os senadores republicanos ficarem no caminho da reforma. 

Mas os oponentes da reforma não temeriam ser considerados aliados dos bandidos (o que eles são)? Talvez não. Em janeiro, Frank Luntz, o estrategista do Partido Republicano, circulou um memorando sobre como se opor à reforma financeira. Sua ideia chave era de que os republicanos poderiam dizer que alto é baixo –que a reforma financeira é um “pacote de resgate aos grandes bancos”, em vez de uma série de restrições aos bancos. 

Assim, há poucos dias, o senador Richard Shelby do Alabama, em uma carta atacando o projeto de lei de Dodd, alegou que uma parte essencial da reforma –uma supervisão mais dura das empresas financeiras maiores, mais importantes para o sistema– é na verdade um resgate, porque “o mercado considerará essas empresas como sendo ‘grandes demais para falir’ e implicitamente seguradas pelo governo”. Hã, senador, os mercados já veem essas empresas como implicitamente seguradas pelo governo, porque são: independente do que pessoas como Shelby possam dizer agora, em qualquer futura crise essas empresas serão resgatadas, independente de qual partido esteja no poder. 

A única pergunta é se vamos regulamentar os banqueiros para que não abusem do privilégio da ajuda do governo. E é essa regulamentação –não futuros resgates– que os oponentes da reforma estão tentando bloquear. 

Logo, são os punks contra os plutocratas –aqueles que querem deter os bancos descontrolados, e os banqueiros que querem liberdade para colocar a economia em risco, liberdade ampliada pelo conhecimento de que os contribuintes os socorrerão em uma crise. Independente do que digam, o fato é que pessoas como Shelby estão do lado dos plutocratas; o povo americano deveria ficar ao lado dos punks, que estão tentando proteger seus interesses.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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