Por que a Geórgia (EUA) é o berço dos bancos falidos?

Paul Krugman

Paul Krugman

Enquanto buscamos formas de impedir futuras crises financeiras, muitas perguntas devem ser feitas. Esta talvez você não tenha ouvido: qual é o problema da Geórgia?

Não tenho certeza se as pessoas sabem que a Geórgia foi o maior Estado em número de falências bancárias, com 37 dos 206 bancos apropriados pelo Federal Deposit Insurance Corp (Fdic) desde o início de 2008. As falências bancárias são um sintoma de problemas mais profundos: pode-se argumentar que nenhum Estado sofreu tanto com a falta de disciplina dos bancos. 

Para se ter uma ideia do caso particular da Geórgia, é preciso compreender que a bolha imobiliária foi um assunto geograficamente desigual. Basicamente, os preços subiram fortemente apenas onde as restrições de zoneamento e outros fatores limitavam a construção de novas casas. No resto do país –o que chamei certa vez de Regiões Planas- o zoneamento permissivo e as terras abundantes facilitaram a oferta de novas casas, uma situação que impediu os grandes aumentos de preço e portanto evitou uma bolha mais séria. 

A maior parte da dor de cabeça pós-bolha se concentra nos Estados em que os preços dos imóveis foram aos céus, depois caíram de volta à Terra, deixando muitos proprietários com um patrimônio negativo –casas que valiam menos que suas hipotecas. Não foi por acidente que a Flórida, Nevada e Arizona foram os principais Estados com patrimônio negativo e calote de hipotecas; os preços mais do que dobraram em Miami, Las Vegas e Phoenix e depois apresentaram algumas das maiores quedas. 

Contudo, nem todas as Regiões Planas se saíram bem. Em particular, há um forte contraste entre os dois maiores Estados de planícies, o Texas- que evitou o pior, e a Geórgia, que não. 

Esse contraste pode ser explicado pela geografia das maiores cidades dos dois Estados. Como Dallas e Houston, Atlanta é uma metrópole ampla, com poucos limites à sua expansão. E como outras cidades nas planícies, Atlanta nunca vivenciou um grande aumento nos preços dos imóveis. 

Ainda assim, o Texas conseguiu evitar maior estresse em seu mercado imobiliário ou em seu sistema bancário, enquanto a Geórgia está sofrendo com um severo trauma pós-bolha. A quantidade de hipotecas inadimplentes é mais alta na Geórgia do que na Califórnia; a porcentagem de proprietários de imóveis com patrimônio negativo está bem acima da média nacional. E a Geórgia é a primeira em bancos falidos. 

Então, qual é o problema da Geórgia? Como eu disse, os bancos fizeram loucuras, uma cena que lembrou muito os excessos de poupança e empréstimos dos anos 80. Os altos executivos dos bancos expandiram os empréstimos agressivamente –e se recompensaram generosamente- e passaram a depender pesadamente do “dinheiro quente” de investidores externos, em vez de seus próprios correntistas. 

Foi divertido enquanto durou. Aí a música parou. 

Por que o mesmo não aconteceu no Texas? A resposta mais provável, surpreendentemente, é que o Texas tinha fortes regulamentos de proteção ao consumidor. Em particular, a lei texana tornava difícil para os proprietários de imóveis tratarem suas casas como uma forma de obter dinheiro aumentando suas hipotecas. A Geórgia não tinha proteções similares (e o governo Bush impediu os esforços do Estado de restringir os empréstimos podres diretamente). E a Geórgia sofreu. 

O que é chocante sobre o contraste entre o Texas e o desastre da Geórgia é que não parece ter nada a ver com as questões que dominaram os debates sobre a reforma bancária. Por exemplo, muitos observadores culparam os complexos derivativos financeiros pela crise. Mas os bancos da Geórgia se destruíram com os velhos empréstimos podres. 

E apesar de toda a preocupação com bancos grandes demais para falir, a Geórgia sofreu com uma proliferação de pequenos bancos. De fato, os piores culpados pela corrida de empréstimos foram os relativamente pequenos e novos, que atraíram clientes atendendo comunidades específicas. Assim, o Georgian Bank, fundado em 2001, serviu à elite do Estado, que era entretida no iate e no jato do diretor executivo. Enquanto isso, o Integrity Bank, fundado em 2000, fez uso de seu modelo de negócios “baseado na fé” –apareceu inclusive em um artigo da revista Time em 2005 um artigo chamado “Rezando por lucros”. Os dois faliram. 

Então, qual é a moral da história? Do meu ponto de vista, é uma advertência contra aqueles que buscam uma solução única, que acreditam em uma fórmula mágica, que atacar apenas uma coisa –em particular, forçando grandes bancos a se tornarem menores- resolverá nossos problemas. O caso da Geórgia mostra que o mau comportamento de muitos bancos pode fazer tanto dano quanto o mau comportamento de alguns gigantes financeiros. 

E o contraste entre o Texas e a Geórgia sugere que a proteção ao consumidor é um elemento essencial da reforma. Certamente, devemos limitar o poder dos grandes bancos. Mas se não protegermos também os consumidores dos financiamentos predatórios, há suficientes pequenos agentes –bancários ou não, responsáveis por muitos dos piores abusos dos empréstimos podres- que vão entrar e preencher o vácuo.

Tradutor: Deborah Weinberg

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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