Nós não somos a Grécia

Paul Krugman

Paul Krugman

É um vento ruim que não sopra a favor de ninguém, mas a crise na Grécia está deixando algumas pessoas –pessoas contrárias à reforma da saúde e que estão procurando avidamente por uma desculpa para desmontar o Seguro Social– muito, muito felizes. Por toda parte que você olha há editoriais e comentários, alguns posando como reportagens objetivas, afirmando que a Grécia de hoje é os Estados Unidos de amanhã, a menos que abandonemos toda essa tolice a respeito de cuidarmos daqueles que precisam.

Mas a verdade é que os Estados Unidos não são a Grécia –e, de qualquer forma, a mensagem da Grécia não é a que essas pessoas querem que você acredite.

Então, como comparar os Estados Unidos e a Grécia?

Ambos os países incorreram recentemente em grandes déficits orçamentários, mais ou menos semelhantes como percentual do PIB. Os mercados, entretanto, os tratam de modo muito diferente: as taxas de juros sobre os títulos do governo grego são mais do que o dobro do que as taxas sobre os títulos americanos, porque os investidores veem um grande risco de que a Grécia dará um calote em sua dívida, enquanto virtualmente não veem risco de que os Estados Unidos farão o mesmo. Por quê?

Uma resposta é que temos um nível de endividamento muito menor –a quantidade que já devemos, em comparação a novos empréstimos– em relação ao PIB. É verdade, nossa dívida deveria ser menor. Nós estaríamos melhor posicionados para lidar com a atual emergência se tanto dinheiro não tivesse sido desperdiçado nas reduções de impostos para os ricos e em uma guerra sem fundos. Mas mesmo assim nós entramos na crise em muito melhor forma do que os gregos.

Ainda mais importante, entretanto, é o fato de que temos um caminho livre para a recuperação econômica, enquanto a Grécia não tem.

A economia americana está crescendo desde meados do ano passado, graças ao estímulo fiscal e à política expansionista do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Eu gostaria que o crescimento fosse mais rápido; mesmo assim, ele finalmente está produzindo empregos –e também está aparecendo nas receitas. No momento, nós estamos a caminho de cumprir as projeções do Escritório de Orçamento do Congresso de aumento substancial na receita tributária. Unindo essas projeções às políticas do governo Obama, elas deixam implícita uma queda acentuada do déficit orçamentário nos próximos anos.

A Grécia, por sua vez, está presa em uma armadilha. Durante os anos bons, quando havia grande entrada de capital, os custos e preços gregos se desalinharam demais com os do restante da Europa. Se a Grécia ainda tivesse sua própria moeda, ela poderia restaurar a competitividade por meio da desvalorização. Mas ela não tem. E como abandonar o euro ainda é considerado impensável, a Grécia enfrenta anos de deflação opressiva e crescimento econômico baixo ou zero. Logo, a única forma de reduzir os déficits é por meio de cortes orçamentários selvagens, e os investidores estão céticos sobre se esses cortes de fato acontecerão.

Vale a pena notar que o Reino Unido –que está em uma situação fiscal pior do que a americana, mas que, diferente da Grécia, não adotou o euro– permanece capaz de tomar emprestado a taxas de juros relativamente baixas. Ter sua própria moeda, ao que parece, faz uma grande diferença.

Resumindo, nós não somos a Grécia. Nós podemos ter déficits de tamanho comparável, mas nossa posição econômica –e, como resultado, nosso panorama fiscal– é muito melhor.

Dito isso, nós temos um problema orçamentário a longo prazo. Mas qual é a raiz desse problema? “Nós exigimos mais do que estamos dispostos a pagar”, é o argumento habitual. Mas esse argumento é profundamente enganador.

Primeiro, quem são esses “nós” de quem as pessoas falam? Tenha em mente de que o esforço para redução de impostos beneficiou em grande parte uma pequena minoria dos americanos: 39% dos benefícios de tornar permanentes as reduções de impostos promovidas por Bush atenderam ao 1% mais rico da população.

E também tenha em mente que a arrecadação de impostos ficou aquém dos gastos em parte graças a uma estratégia política deliberada, a de “fazer a fera passar fome”: os conservadores privaram deliberadamente o governo de receita em uma tentativa de forçar os cortes de gastos que agora eles insistem ser necessários.

Enquanto isso, quando você olha por trás dessas projeções orçamentárias assustadoras a longo prazo, você descobre que não são provocadas por um problema generalizado de excesso de gastos. Em vez disso, elas em grande parte refletem apenas uma coisa: a suposição de que os custos da saúde aumentarão no futuro como ocorreram no passado. Isso nos diz que a chave para nosso futuro fiscal é uma melhora da eficiência de nosso sistema de saúde –o que é, como você pode lembrar, algo que o governo Obama está tentando fazer, enquanto muitas das mesmas pessoas que agora estão alertando sobre os males dos déficits gritam “painéis da morte!”

Aqui está a realidade: o panorama fiscal dos Estados Unidos nos próximos anos não é ruim. Nós temos um problema orçamentário sério a longo prazo, que terá que ser resolvido com uma combinação de reforma da saúde e outras medidas, provavelmente incluindo um aumento moderado dos impostos. Mas temos que ignorar aqueles que fingem estar preocupados com a responsabilidade fiscal, mas cuja meta real é desmanchar o Estado de bem-estar social –e estão tentando usar crises em outros lugares para nos assustar até darmos a eles o que eles querem.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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