O avanço do extremismo

Paul Krugman

Paul Krugman

Os republicanos de Utah negaram a Robert Bennett, um senador bastante conservador em terceiro mandato, o direito de disputar a reeleição por não ser conservador o bastante. No Maine, os ativistas do partido lutam por uma plataforma que pede, entre outras coisas, pelo fim tanto do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) quanto do Departamento da Educação. E está se tornando cada vez mais aparente que o verdadeiro poder dentro do Partido Republicano está nas mãos de apresentadores de talk show desvairados.

As organizações de notícias perceberam: de repente, a tomada do Partido Republicano pelos extremistas de direita se transformou em história (apesar de muitos repórteres parecerem determinados a fazer de conta que algo equivalente está acontecendo entre os democratas, o que não está). Mas por que isso está acontecendo? E, em particular, por que está acontecendo agora?

A resposta certa, é claro, é devido ao ultraje diante das políticas “socialistas” do presidente Barack Obama –como seu plano de reforma da saúde, que é, bem, mais ou menos idêntico ao plano que Mitt Rommey sancionou em Massachusetts. Muitos na esquerda argumentam que, em vez disso, trata-se de racismo, o choque de ter um negro na Casa Branca –e certamente há um pouco disso.

Mas eu gostaria de oferecer duas hipóteses alternativas: primeiro, o extremismo republicano sempre esteve presente –o que mudou é a disposição da mídia de reconhecê-lo. Segundo, se o poder dos extremistas do partido realmente esta crescendo, se deve à economia, estúpido.

Quanto ao primeiro ponto: quando eu li os relatos dos jornalistas se dizendo chocados com a loucura dos republicanos do Maine, eu me pergunto onde eles estiveram nos aproximadamente oito últimos ciclos eleitorais. A verdade é que a extrema direita domina o Partido Republicano há muitos anos. Na verdade, a nova plataforma do Maine é até um pouco mais branda do que a plataforma do Texas de 2000, que pedia não apenas pelo fim do Federal Reserve, mas também pelo retorno do padrão ouro, pelo fim não apenas do Departamento da Educação, mas também da Agência de Proteção Ambiental e mais.

De alguma forma, o radicalismo dos republicanos do Texas não foi uma história em 2000, um ano eleitoral em que George W. Bush do Texas, que logo se tornaria presidente, era amplamente tratado como moderado.

Ou considere esses apresentadores de talk show. Rush Limbaugh não mudou: sua recente sugestão de que ambientalistas terroristas possam ter causado o desastre ecológico no golfo não é pior do que suas repetidas insinuações de que Hillary Clinton pode ter sido cúmplice de assassinato. O que mudou foi sua respeitabilidade: as organizações de notícias não parecem mais dispostas a atenuar o extremismo de Limbaugh como em 2002, quando o crítico de mídia do “Washington Post” insistiu que os críticos do apresentador de rádio eram aqueles que tinham “perdido alguns parafusos”, de que ele era um “conservador popular” sensível que falava “principalmente sobre políticas”.

Então por que a posição da imprensa mudou? Talvez tenha sido apenas uma deferência ao poder: enquanto os Estados Unidos eram amplamente vistos como estando a caminho de uma maioria republicana permanente, poucos estavam dispostos a chamar o extremismo de direita pelo seu verdadeiro nome. Talvez tenha sido preciso que um democrata chegasse à Casa Branca para dar a alguns observadores a coragem de dizer o óbvio.

Para ser justo, entretanto, nem tudo é questão de percepção. O extremismo de direita pode permanecer o mesmo de sempre, mas claramente há mais seguidores agora do que há dois anos. Por quê? Pode ter muito a ver com a crise econômica.

É verdade, não era para ter funcionado assim. Quando a economia mergulhou na crise, muitos observadores –eu entre eles– esperavam uma guinada política à esquerda. Afinal, a crise expôs a tolice dos dogmas da direita de que os mercados sabem mais, de que regulamentação é sempre ruim. Olhando para trás, entretanto, isso foi ingenuidade: os eleitores tendem a reagir emocionalmente, não em resposta a argumentos analíticos –e em momentos ruins, a tendência emocional de muitos eleitores é pender para a direita.

Essa é a mensagem de um recente artigo dos economistas Markus Bruckner e Hans Peter Gruner, que encontra uma correlação notável entre desempenho econômico e extremismo político nos países avançados: tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, os períodos de baixo crescimento econômico tendem a estar associados aos aumento dos votos para a direita e para os partidos políticos nacionalistas. A ascensão da Tea Party, em outras palavras, é exatamente o que deveria se esperar após a crise econômica.

E para onde vai nosso sistema político? A curto prazo, muito dependerá da recuperação econômica. Se a economia continuar gerando empregos, nós podemos esperar que o movimento da Festa do Chá perca parte do seu fôlego.

Mas não espere que os extremistas percam seu controle do Partido Republicano tão cedo. O que estamos vendo em lugares como Utah e Maine não é realmente uma mudança no caráter do partido: ele é dominado por extremistas há muito tempo. A única coisa diferente é que o restante do país finalmente notou.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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