Senado dos EUA pune desempregados ao não estender o seguro-desemprego

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Reuters

    Pessoas esperam na fila para entrar em centro de emprego dos Estados Unidos

    Pessoas esperam na fila para entrar em centro de emprego dos Estados Unidos

Houve um tempo em que todos consideravam certo que o seguro-desemprego, que normalmente termina após 26 semanas, seria estendido em tempos de desemprego persistente. A maioria das pessoas concordava que era a coisa decente a ser feita.

Mas isso foi no passado. Hoje, os trabalhadores americanos enfrentam o pior mercado de empregos desde a Grande Depressão, com cinco candidatos para cada vaga de trabalho aberta, com o tempo médio de desemprego atualmente em 35 semanas. Mas o Senado partiu para o fim de semana de feriado sem estender os benefícios. Como isso aconteceu?

A resposta é que estamos diante de uma coalizão de insensíveis, sem noção e confusos. Nada pode ser feito a respeito do primeiro grupo e provavelmente não muito a respeito do segundo. Mas talvez seja possível esclarecer parte da confusão.

Por insensíveis, eu falo dos republicanos que fizeram o cálculo cínico de que bloquear qualquer coisa que o presidente Barack Obama tente fazer –incluindo, ou talvez especialmente, qualquer coisa que possa aliviar a dor econômica do país– melhorará as chances deles nas eleições de novembro. Não finja estar em choque: você sabe que eles estão lá e que correspondem a grande parte da bancada republicana.

Por sem noção eu falo de pessoas como Sharron Angle, a candidata republicana ao Senado por Nevada, que tem insistido repetidamente que os desempregados estão escolhendo deliberadamente permanecer desempregados, para continuarem recebendo os benefícios. Um comentário de exemplo: “É possível ganhar mais desempregado do que procurando e aceitando um emprego honesto, mas que não paga tanto quanto. Nosso governo assume tantos direitos que realmente mimamos nossos cidadãos”.

Bem, eu não tenho a impressão de que os americanos desempregados são mimados; desesperados parece ser a descrição mais adequada. Mas é duvidoso que qualquer quantidade de evidência possa mudar a visão de mundo de Angle –e há, infelizmente, muita gente em nossa classe política como ela.

Mas também há, esperamos, pelo menos alguns políticos honestamente desinformados a respeito do que o seguro-desemprego faz –que acreditam, por exemplo, que o senador Jon Kyl, republicano do Arizona, faz sentido quando declara que estender os benefícios agravaria o desemprego, porque “continuar pagando uma compensação aos desempregados é um desestímulo para que procurem por um novo emprego”. Então vamos falar por que essa crença está errada.

O seguro-desemprego reduz o incentivo para procurar trabalho? Sim, os trabalhadores que recebem o seguro-desemprego não estão tão desesperados quanto os trabalhadores sem benefícios e provavelmente serão ligeiramente mais seletivos na procura de um novo emprego. A palavra-chave aqui é “ligeiramente”. A pesquisa econômica recente sugere que o efeito do seguro-desemprego sobre o comportamento do trabalhador é muito menor do que se acreditava. Mas é um efeito real quando a economia está indo bem.

Mas é um efeito completamente irrelevante para nossa situação atual. Quando a economia passa por um boom, e a escassez de trabalhadores está limitando o crescimento, um seguro-desemprego generoso pode manter o emprego mais baixo do que seria em outras condições. Mas como você pode ter notado, no momento a economia não passa por um boom –de novo, há cinco trabalhadores desempregados para cada vaga aberta de trabalho. O corte dos benefícios para os desempregados os tornará ainda mais desesperados por trabalho –mas eles não podem assumir empregos que não existem.

Espere: há mais. Um importante motivo para não haver empregos suficientes no momento é o fraco consumo. Ajudar os desempregados, colocando mais dinheiro no bolso de pessoas que realmente precisam dele, ajuda a estimular o consumo. Este é o motivo para o Escritório de Orçamento do Congresso considerar o seguro-desemprego como uma forma de alto custo-benefício de estímulo econômico. E diferente, digamos, dos grandes projetos de infraestrutura, a ajuda aos desempregados cria empregos rapidamente –enquanto permitir que a ajuda termine, o que está acontecendo no momento, é uma receita para crescimento do emprego ainda menor, não em um futuro distante, mas nos próximos meses.

Mas estender o seguro-desemprego não agrava o déficit orçamentário? Sim, ligeiramente –mas como eu e outros estamos dizendo há muito tempo, economizar em meio a uma economia seriamente deprimida não ajuda a resolver nossos problemas orçamentários a longo prazo. E economizar a custa dos desempregados é cruel e equivocado.

E há alguma chance desses argumentos serem ouvidos? Não pelos republicanos, eu temo: “É difícil fazer com que um homem entenda algo”, disse Upton Sinclair, “quando seu salário” –ou, neste caso, sua esperança de retomar o Congresso– “depende dele não entender”. Mas também há democratas centristas que compraram os argumentos contrários a ajudar os desempregados. Cabe a eles recuar, perceberem que foram enganados e fazer a coisa certa ao aprovarem a extensão dos benefícios.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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