A ineficiência do Federal Reserve no controle da deflação nos Estados Unidos

Paul Krugman

Paul Krugman

  • AFP

    Congressistas dos EUA confirmam que Ben Bernanke será mantido como presidente do Fed por mais um mandato.

    Congressistas dos EUA confirmam que Ben Bernanke será mantido como presidente do Fed por mais um mandato.

Em 2002, um professor que virou funcionário do Federal Reserve (FED, o banco central dos Estados Unidos), chamado Ben Bernanke, proferiu uma palestra altamente citada intitulada “Deflation: Making Sure ‘It’ Doesn’t Happen Here” (“Deflação: nos assegurando que ela não ocorrerá aqui”). Assim como outros economistas, eu próprio incluído, Bernanke ficou altamente perturbado com a deflação teimosa e aparentemente incurável do Japão, que por sua vez estava “associada a anos de crescimento dolorosamente lento, aumento do desemprego e, aparentemente, problemas financeiros ingerenciáveis”. Não seria de se esperar que esse tipo de coisa ocorresse em uma nação avançada que conta com governantes sofisticados. Será que algo similar poderia ocorrer nos Estados Unidos?

Não há com o que se preocupar, diz Bernanke: o Fed possui as ferramentas necessárias para evitar uma versão norte-americana da síndrome do Japão, e ele as usará se isso for necessário.

Atualmente, Barnanke é o presidente do Fed – e o seu discurso de 2002 é tido como a sua palavra final. Nós não estamos sofrendo literalmente uma deflação (não ainda). Mas a inflação está bem abaixo da taxa de juros preferida pelo Fed, de 1,7% a 2%, e apresenta uma tendência de cair ainda mais. Seria razoável supor que, segundo certos indicadores, nós estaremos presenciando uma deflação em algum momento do ano que vem. Enquanto isso, nós já padecemos de um crescimento dolorosamente lento, de um desemprego altíssimo e de problemas financeiros não gerenciáveis. E qual é a resposta do Fed? Ele está discutindo – com uma lentidão grave – se talvez, possivelmente, deveria cogitar tentar fazer algo quanto à situação, qualquer dia desses.

A ineficiência do Fed, na verdade, não é única. Tem sido impressionante e irritante ver a classe política dos Estados Unidos rebaixar os padrões de normalidade à medida que a crise econômica se desenrola. Há apenas dois anos, quem quer que fizesse uma previsão da situação atual (além de o desemprego estar desastrosamente elevado, a maioria das previsões diz que ele permanecerá muito alto durante vários anos) teria sido desprezado como sendo um alarmista maluco. Agora, no entanto, que o pesadelo tornou-se realidade – e, sim, isso é um pesadelo para milhões de norte-americanos –, Washington parece não ter pressa alguma. Esperanças estão sendo destruídas? As pequenas empresas estão falindo? Vidas vem sendo arruinadas? Não esquentem a cabeça; falemos dos males dos déficits fiscais.

Mas seria de se esperar que o Fed fosse diferente. Porque, o Fed, ao contrário do governo Obama, retém uma considerável liberdade de ação. Ele não precisa de 60 votos no Senado; os limites externos das suas políticas não são determinados pelas ideias de senadores dos Estados de Nebraska e Maine. Além disso, seria de se esperar que o Fed estivesse intelectualmente preparado para esta situação. Bernanke pensou longa e profundamente em como evitar uma armadilha econômica de estilo japonês, e os pesquisadores do Fed estão obcecados há anos com essa mesma questão.

Mas, aqui estamos nós, derrapando visivelmente rumo à deflação – e o Fed assiste a tudo parado.

O que ele deveria estar fazendo? A política monetária convencional, com base na qual o Fed reduz as taxas de juros de curto prazo ao comprar dívidas de curto prazo do governo dos Estados Unidos, chegou ao seu limite: essas taxas de juros de curto prazo já estão perto de zero, e não podem cair significativamente ainda mais (os investidores não comprarão títulos que fornecem juros negativos, já que eles podem, em vez disso, acumular dinheiro). Mas a mensagem de Bernanke em 2002 era de que há outras coisas que o Fed pode fazer. Ele pode comprar dívidas de longo prazo do governo. E também adquirir dívidas do setor privado. Ele pode tentar modificar as expectativas ao anunciar que manterá as taxas de juros de curto prazo baixas durante muito tempo. Ele pode elevar a sua meta de inflação de longo prazo, para ajudar a convencer o setor privado de que pegar dinheiro emprestado é uma boa ideia, e acumular dinheiro é um erro.

Ninguém sabe até que ponto tais ações surtiriam efeito. A questão, no entanto, é que existem coisas que o Fed poderia e deveria estar fazendo, mas não está. Por que não?

Afinal, os funcionários do Fed, assim como a maioria dos observadores, tem uma visão bem sombria em relação às perspectivas da economia. Na minha opinião, a visão deles não é suficientemente sombria: os presidentes do Fed, que fazem previsões todas as vezes que o comitê que estabelece as taxas de juros se reúne, não está levando suficientemente a sério a tendência de deflação. Entretanto, mesmo as projeções deles mostram um elevado desemprego e uma inflação abaixo da meta persistindo até pelo menos o final de 2012.

Sendo assim, por que não tentar fazer algo quanto a isso? A justificativa que eu ouvi que se aproxima mais de uma explicação foi um discurso recente de Kevin Warsh, da diretoria do Fed, no qual ele declarou que fazer aquilo que Bernanke recomendou em 2002 poderia minar a “credibilidade institucional” do Fed. Mas como, exatamente, a credibilidade do Fed é preservada quando ele não consegue enfrentar o alto desemprego, e, ao mesmo tempo, deixa consistentemente de alcançar as suas próprias metas de inflação? Qual é a credibilidade do Banco do Japão após presidir 15 anos de deflação?

O que quer que esteja ocorrendo, o Fed precisa repensar as suas prioridades. E rápido. A “coisa” mencionada por Bernanke não é uma possibilidade hipotética. É algo que está prestes a acontecer. E o Fed deveria fazer tudo o que pudesse para evitar que isso acontecesse.

Tradutor: UOL

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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