Tudo para os ricos

Paul Krugman

Paul Krugman

Nós precisamos contar centavos atualmente. Você não sabe que temos um déficit orçamentário? Por meses é só o que se ouve dos republicanos e dos democratas conservadores, que têm rejeitado cada sugestão de que devemos fazer mais para evitar cortes profundos nos serviços públicos e ajudar a economia em dificuldades.

Mas esses mesmos políticos estão ávidos em preencher cheques no valor médio de US$ 3 milhões cada para as 120 mil pessoas mais ricas do país.

O quê... você não soube dessa proposta? Na verdade, você já ouviu: eu estou falando sobre os pedidos para tornar permanentes todos os cortes de impostos de Bush, não apenas aqueles para a classe média.

Um retrospecto: em 2001, quando a primeira série de cortes de impostos de Bush passou pelo Congresso, a legislação foi redigida com um artigo peculiar –o de que toda a coisa expiraria, com os impostos retornando aos níveis de 2000, no último dia de 2010.

Por que essa data? Em parte, ela foi usada para disfarçar a irresponsabilidade fiscal dos cortes de impostos: a remoção do último ano reduziria custo declarado dos cortes, porque esses custos normalmente são calculados ao longo de um período de 10 anos. Também permitiu ao governo Bush aprovar o corte de impostos usando a reconciliação –sim, o mesmo procedimento condenado pelos republicanos quando utilizado para aprovar a reforma da saúde– contornando as regras que visam impedir o uso desse procedimento para aumentar os déficits fiscais a longo prazo.

Obviamente, a ideia era retornar em uma data posterior e tornar esses cortes permanentes. Mas as coisas não transcorreram de acordo com o plano. E agora chegou a hora de decisão.

E qual é a opção agora? O governo Obama deseja preservar as partes do corte de impostos original que beneficiam principalmente a classe média –que é uma proposta cara por si só– mas deixar que expirem no prazo os artigos que beneficiam apenas as pessoas com renda elevada. Os republicanos, com o apoio de alguns democratas conservadores, querem manter a coisa toda.

E há uma verdadeira chance de que os republicanos conseguirão o que querem. Essa é uma demonstração, se é que alguém precisava, de que nossa cultura política não apenas se tornou disfuncional, mas profundamente corrupta.

O que está em jogo aqui? Segundo o não-partidário Centro para Política Tributária, tornar permanentes todos os cortes de impostos de Bush, em vez de seguir a proposta de Obama, custaria ao governo federal US$ 680 bilhões em receita ao longo dos próximos 10 anos. Para comparação, foram necessários meses de negociações difíceis para obter a aprovação pelo Congresso de meros US$ 26 bilhões em ajuda desesperadamente necessária para os governos estaduais e locais.

E para onde iriam esses US$ 680 bilhões? Quase tudo iria para os americanos que integram o 1% mais rico do país, pessoas com rendas de mais de US$ 500 mil por ano. Mas não é só isso: as estimativas do centro para política dizem que grande parte dos cortes de impostos beneficiaria 10% do 1% mais rico. Pegue um grupo de 1.000 americanos escolhidos aleatoriamente e pegue aquele com a renda mais alta; é ele quem receberia grande parte das reduções de impostos daquele grupo. E a redução média de impostos para esses poucos felizardos –os membros mais pobres desse grupo têm rendas anuais de mais de US$ 2 milhões, e um membro médio ganha mais de US$ 7 milhões por ano– seria de US$ 3 milhões ao longo da próxima década.

Como uma doação dessas pode ser justificada em um momento em que os políticos alegam se preocupar com os déficits orçamentários? Bem, a história está se repetindo. A campanha original para os cortes de impostos de Bush fez uso de logro e desonestidade. Na verdade, minha primeira suspeita de que estávamos sendo enganados para invadir o Iraque se baseou na semelhança entre a campanha para a guerra e a campanha para o corte de impostos no ano anterior. E a mesma marca registrada de logro e desonestidade está sendo empregada em prol dos cortes de impostos para os americanos mais ricos.

Naquela época, por exemplo, nos foi dito que se tratava de ajudar as pequenas empresas; mas apenas uma minúscula fração de donos de pequenas empresas receberia algum incentivo fiscal. E quantos donos de pequenas empresas que você conhece ganham vários milhões por ano?

Ou nos disseram que se tratava de ajudar a recuperação da economia. Mas é difícil pensar em uma forma menos custo-eficaz de ajudar a economia do que dar dinheiro para pessoas que já têm em abundância e provavelmente não gastarão um adicional.

Não, isso não tem nada a ver com política econômica sólida. Em vez disso, como eu disse, trata-se de uma cultura política disfuncional e corrupta, na qual o Congresso não agirá para reanimar a economia, alega pobreza quando se trata de proteger os empregos de professores escolares e bombeiros, mas declara não fazer objeção quando se trata de poupar os já ricos até mesmo da menor inconveniência financeira.

Até o momento, o governo Obama está se mantendo firme contra esse ultraje. Vamos torcer para que vença sua luta. Caso contrário, será difícil não perder toda a fé no futuro dos Estados Unidos.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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