Obama deve enfrentar a fúria promovida por seus adversários políticos

Paul Krugman

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  • Pablo Martinez Monsivais/AP

    Rejeição a Barack Obama cresce nos EUA

    Rejeição a Barack Obama cresce nos EUA

Da última vez que um democrata ocupou a Casa Branca, ele enfrentou uma ininterrupta caça às bruxas promovida por seus adversários políticos. Figuras proeminentes da direita acusaram Bill e Hillary Clinton de tudo, de tráfico de drogas a assassinato. E assim que os republicanos assumiram o controle do Congresso, eles submeteram o governo Clinton a um molestamento implacável –a certa altura exigindo um depoimento juramentado de 140 horas a respeito das acusações de que a Casa Branca tinha feito uso indevido de sua lista de cartões de Natal. 

Agora está acontecendo de novo –exceto que desta vez é ainda pior. Vamos entregar o plenário para Rush Limbaugh: “O imã Hussein Obama”, ele declarou recentemente, “provavelmente é o melhor presidente antiamericano que já tivemos”. 

Para se ter uma ideia de quanto importa quando pessoas como Limbaugh falam assim, tenha em mente que ele é um figura muito importante dentro do Partido Republicano; também tenha em mente que a menos que alguma coisa mude na dinâmica política, os republicanos em breve controlarão pelo menos uma das casas no Congresso. A situação ficará muito, muito feia. 

E de onde vem essa raiva? Por que ela está florescendo? O que ela causará aos Estados Unidos? 

Qualquer um que se recorde dos anos 90 poderia prever algo como a atual loucura política. O que aprendemos com os anos Clinton é que um número significativo de americanos simplesmente não considera legítimo um governo de liberais –até mesmo de liberais moderados. A eleição de Barack Obama teria enfurecido essas pessoas mesmo se ele fosse branco. É claro, o fato de ele não ser, e ter um nome que soa estranho, apenas aumenta a raiva. 

A propósito, eu não falo da raiva dos excluídos e dos carentes: os membros do "Tea Party" são relativamente ricos e ninguém está mais furioso atualmente do que os muito, muito ricos. Wall Street se voltou contra Obama sedenta de vingança: no mesmo passado, Steve Schwarzman, o presidente bilionário do Blackstone Group, o gigante de private equity, comparou as propostas para colocar um fim às brechas tributárias para os administradores de fundos hedge com a invasão à Polônia pelos nazistas. 

E forças poderosas estão promovendo e explorando essa raiva. O novo artigo de Jane Mayer na revista “The New Yorker”, a respeito dos super-ricos irmãos Koch e da guerra deles contra Obama, gerou merecida atenção, mas como a própria Mayer aponta, apenas a escala do esforço deles é nova: bilionários como Richard Mellon Scaife já travaram uma guerra semelhante contra Bill Clinton. 

Enquanto isso, a mídia de direita está tocando de novo seus maiores sucessos. Nos anos 90, Limbaugh fez uso de insinuações para alimentar a mitologia anti-Clinton, principalmente a de que Hillary Clinton era cúmplice da morte de Vince Foster. Agora, como acabamos de ver, ele não está medindo esforços para insinuar que Obama é muçulmano. De novo, há um nível adicional de loucura desta vez: Limbaugh é o mesmo que sempre foi, mas agora ele parece moderado em comparação a Glenn Beck. 

E onde, em meio a tudo isso, estão os republicanos responsáveis, líderes que possam se erguer para dizer que alguns partidários estão indo longe demais? Eles não são encontrados em lugar nenhum. 

Para pegar um importante exemplo: a histeria em torno do centro islâmico proposto na Baixa Manhattan quase faz alguém ter saudade dos dias em que o presidente George W. Buh tentou acalmar o ódio religioso, declarando que o Islã é uma religião de paz. Havia um bom motivo para a posição dele: há um bilhão de muçulmanos no mundo e os Estados Unidos não podem arcar em transformar todos eles em inimigos. 

Mas vale lembrar que Bush ainda está presente, assim como muitos de seus ex-funcionários. Onde estão as declarações, do ex-presidente e de membros de seu círculo interno, pregando tolerância e condenando a histeria anti-Islã? Nesta questão, assim como em muitas outras, o establishment republicano está oferecendo um perfil quase uniforme de covardia. 

E o que acontecerá se, como esperado, os republicanos assumirem o controle da Câmara? Nós já conhecemos parte da resposta: a “Politico” relata que eles estão se preparando para repetir o desempenho dos anos 90, com “uma onda de comissões parlamentares de inquérito” –várias delas a respeito de escândalos que já sabemos que são falsos. E também podemos esperar uma queda de braço em torno do orçamento federal; eu até mesmo me arriscaria a prever um tipo de paralisação do governo, como a ocorrida em 1995, nos próximos dois anos. 

Será uma cena muito feia e também perigosa. Os anos 90 foram tempos de paz e prosperidade; agora não são nenhum dos dois. Em particular, nós ainda estamos sofrendo os efeitos da pior crise econômica desde os anos 30 e não podemos arcar com o governo federal sendo paralisado por uma oposição sem nenhum interesse em ajudar o governo do presidente. Mas é isso o que provavelmente teremos. 

Se eu fosse Obama, eu faria todo o possível para rechaçar essa possibilidade, oferecendo novas grandes iniciativas na frente econômica em particular, mesmo que apenas para mudar a dinâmica política. Mas meu palpite é que o presidente continuará a dar apenas passos seguros, o caminho todo até a catástrofe.

Tradutor: George El Khouri Andolfato

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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