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A disputa pelo poder em Wisconsin

Paul Krugman

22/02/2011 00h01

Na semana passada, diante das manifestações de protesto contra o novo governador antissindical de Wisconsin, Scott Walker –manifestações que prosseguiram no fim de semana, com grandes multidões no sábado– o deputado Paul Ryan fez uma comparação não intencionalmente adequada: “É como se o Cairo tivesse se mudado para Madison”.

Não foi a coisa mais inteligente para Ryan dizer, já que provavelmente não queria comparar Walker, um companheiro republicano, a Hosni Mubarak. Ou talvez quisesse –afinal, um bocado de conservadores proeminentes, incluindo Glenn Beck, Rush Limbaugh e Rick Santorum, condenou o levante no Egito e insistiu que o presidente Barack Obama deveria ter ajudado o regime de Mubarak a reprimi-lo.

De qualquer forma, Ryan estava mais certo do que imaginava. Pois o que está acontecendo em Wisconsin não envolve o orçamento estadual, apesar do faz de conta de Walker de que está apenas tentando ser fiscalmente responsável. Trata-se sim de disputa de poder. O que Walker e aqueles que o apoiam estão tentando fazer é tornar Wisconsin –e posteriormente os Estados Unidos– menos uma democracia funcional e mais uma oligarquia ao estilo do Terceiro Mundo. E é por isso que qualquer um que acredite que precisamos compensar o poder político das grandes corporações deve ficar ao lado dos manifestantes.

Antes, algumas informações: Wisconsin está de fato enfrentando problemas orçamentários, mas suas dificuldades são menos severas do que as enfrentadas por outros Estados. A receita caiu com a fraqueza da economia, enquanto os fundos para estímulo, que ajudaram a fechar o rombo em 2009 e 2010, acabaram.

Nesta situação, faz sentido pedir por um maior sacrifício, incluindo concessões monetárias por parte dos funcionários públicos. E os líderes sindicais sinalizaram que estão dispostos a fazer concessões.

Mas Walker não está interessado em um acordo. Isso se deve em parte a não querer compartilhar o sacrifício: ao mesmo tempo em que proclama que Wisconsin enfrenta uma terrível crise fiscal, ele tem realizado cortes de impostos que tornam ainda pior o déficit. Principalmente, ele deixou claro que em vez de negociar com os trabalhadores, ele deseja colocar um fim à capacidade dos trabalhadores de negociar.

O projeto de lei que inspirou as manifestações destituiria muitos dos trabalhadores do Estado de direitos de negociação coletiva, na prática destruindo os sindicatos dos funcionários públicos. De modo revelador, alguns funcionários públicos –aqueles que tendem a ter inclinação republicana– estão isentos da proibição; é como se Walker estivesse se gabando da natureza política de suas ações.

Mas por que destruir os sindicatos? Como eu disse, não tem nada a ver com ajudar Wisconsin a lidar com sua atual crise fiscal. Provavelmente também não ajudará as perspectivas orçamentárias do Estado a longo prazo: diferente do que você possa ter ouvido, os funcionários do setor público de Wisconsin e de qualquer outro lugar ganham menos do que funcionários do setor privado com qualificações comparáveis, de modo que não há muito espaço para maiores arrochos salariais.

Logo, não se trata do orçamento; trata-se de poder.

Em princípio, todo cidadão americano tem uma influência igual em nosso processo político. Na prática, é claro, algumas pessoas são mais iguais do que outras. Os bilionários podem colocar em campo exércitos de lobistas; eles podem financiar centros de estudo que defendem a posição desejada em relação às políticas; eles podem canalizar dinheiro para políticos com pontos de vista que lhes agradam (como os irmãos Koch fizeram no caso de Walker). No papel, somos uma nação de uma pessoa/um voto; na realidade, somos mais parecidos com uma oligarquia, onde um punhado de pessoas ricas domina.

Dada esta realidade, é importante ter instituições que possam agir como contrapeso para o poder do dinheiro. E os sindicatos estão entre as mais importantes dessas instituições.

Você não precisa amar os sindicatos, você não precisa acreditar quer suas posições a respeito de políticas estejam sempre certas, para reconhecer que estão entre os poucos agentes influentes em nosso sistema político que representam os interesses dos americanos de classe média e operária, e não dos ricos. De fato, se os Estados Unidos se tornaram mais oligárquicos e menos democráticos nos últimos 30 anos, isso se deve em grande parte ao declínio dos sindicatos do setor privado.

E agora Walker e aqueles que o apóiam estão também tentando erradicar os sindicatos do setor público.

Há uma ironia amarga aqui. A crise fiscal em Wisconsin, assim como em outros Estados, se deve em grande parte ao crescente poder da oligarquia americana. Afinal, foram os agentes super-ricos, e não o público em geral, que promoveram a desregulamentação financeira e, portanto, criaram as condições para a crise econômica de 2008-2009, uma crise cujas consequências são o principal motivo para o atual arrocho orçamentário. E agora a direita política está tentando explorar essa crise, a utilizando para remover um dos poucos freios restantes à influência da oligarquia.

E então, o ataque aos sindicatos será bem-sucedido? Eu não sei. Mas qualquer pessoa que se importe em manter que o governo seja do povo, pelo povo, deve torcer para que não.

Tradução: George El Khouri Andolfato

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