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Opinião: Somos os 99,9%

Paul Krugman

26/11/2011 00h01

“Somos os 99%” é um grande lema. Define corretamente o embate em questão como sendo da classe média contra a elite (diferentemente da classe média contra os pobres). E também supera a noção comum, mas errônea, de que a crescente desigualdade deve-se principalmente ao sucesso dos mais preparados em relação aos que têm menos estudo; os grandes vencedores desta nova Era de Ouro foram meia dúzia de pessoas muito ricas, não os graduados em geral.

Se houver alguma falha neste lema, é que o número é baixo. Uma grande fração dos ganhos do 1% superior de fato foi para um grupo ainda menor, para o 0,1% superior - o milésimo mais rico da população. E enquanto os democratas, em geral, querem que a superelite dê pelo menos alguma contribuição para a redução do déficit no longo prazo, os republicanos querem cortar os impostos da superelite, ao mesmo tempo em que reduzem os benefícios de Segurança Social, Medicare e Medicaid em nome da disciplina fiscal.

Antes que eu entre nessas disputas políticas, aí vão alguns números.

O recente relatório do Departamento de Orçamento do Congresso sobre desigualdade não estudou o 1% superior, mas um relatório anterior, somente até 2005, sim. De acordo com este, entre 1979 e 2005, com a inflação ajustada e após o imposto de renda, a renda dos americanos médios subiu 21%. Já a renda dos 0,1% mais ricos subiu 400%.

Na maior parte, esses ganhos gigantescos refletiram um aumento dramático da renda pré-imposto da super-elite. Mas houve também enormes cortes de impostos em favor dos ricos. Em particular, os impostos sobre ganho de capital estão muito mais baixos do que eram em 1979 – e o milésimo mais rico dos americanos recebe metade de toda a renda de ganho de capital.

Com esse histórico, por que os republicanos defendem maior corte de impostos para os muito ricos, mesmo enquanto advertem sobre déficits e exigem cortes drásticos nos programas de segurança social?

Bem, além de denúncias de “guerra de classes!” toda vez que essas questões são levantadas, a resposta usual é que a superelite é “criadora de empregos” – ou seja, que eles fazem uma contribuição muito especial para a economia. Então, o que você precisa saber é que isso é um erro em economia. De fato, seria um erro mesmo que os EUA tivessem a economia de mercado perfeita e idealizada das fantasias conservadoras.

Afinal, em uma economia de mercado idealizada, cada trabalhador receberia exatamente o que ele ou ela contribui para a economia ao trabalhar, não mais nem menos. E isso seria igualmente verdadeiro para trabalhadores que fazem US$ 30.000 por ano e executivos que ganham US$ 30 milhões por ano. Não haveria razão para que as contribuições dos sujeitos de US$ 30 milhões merecessem de tratamento especial.

Mas, você dirá, os ricos pagam impostos! De fato, pagam. E podem – e devem, do ponto de vista dos 99,9%- pagar substancialmente mais impostos, em vez de receberem ofertas de ainda mais alívios fiscais, apesar da alegada crise orçamentária, por causa das coisas maravilhosas que supostamente fazem.

Ainda assim, alguns dos muito ricos não produzem inovações que valem muito mais ao mundo do que a renda que recebem? Seguramente, mas se você olhar para quem realmente compõe a faixa do 0,1% superior, é difícil evitar a conclusão que, na maioria, os membros da superelite são pagos demais pelo que fazem, e não mal pagos.

Quem são os 0,1%? Muito poucos são inovadores como Steve Jobs; a maior parte é formada por topetudos corporativos e apostadores financeiros. Uma recente análise concluiu que 43% da superelite são executivos em empresas não financeiras, 18% estão nas finanças e outros 12% são advogados ou estão na indústria imobiliária. Estas não são, realmente, profissões nas quais há uma clara relação entre a receita de uma pessoa e sua contribuição econômica.

Os salários dos executivos, que subiram horrivelmente na última geração, são estabelecidos por conselhos de diretores nomeados pelas mesmas pessoas cujo salário eles determinam; diretores executivos de fraco desempenho ainda recebem contracheques gordos, e até mesmo os altos executivos fracassados e demitidos muitas vezes recebem milhões quando saem pela porta.

Enquanto isso, a crise econômica demonstrou que grande parte do aparente valor criado pelas finanças modernas era uma miragem. Como disse recentemente o diretor de estabilidade financeira do Banco da Inglaterra, os altos retornos aparentes de antes da crise simplesmente refletiam maior risco – risco que foi arcado não pelos apostadores, e sim por investidores ingênuos ou contribuintes, que terminaram segurando a sacola quando tudo deu errado. E, como observou raivosamente: “Se a criação de risco fosse uma atividade que agregasse valor, jogadores de roleta russa contribuiriam de forma desproporcional para o bem estar mundial”.

Então, os 99,9% devem odiar os 0,1%? Não, de forma alguma. Eles devem meramente ignorar toda a propaganda sobre os “criadores de empregos” e exigir que a superelite pague substancialmente mais impostos.

Tradutor: Deborah Weinberg