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Partido Republicano busca candidato à presidência dos EUA

Gingrich (6º da esq. para dir.)  e Romney (4º da esq. para dir.) lideram debate republicano nos EUA, focado em defesa - Win McNamee/Getty Images/AFP
Gingrich (6º da esq. para dir.) e Romney (4º da esq. para dir.) lideram debate republicano nos EUA, focado em defesa Imagem: Win McNamee/Getty Images/AFP

Paul Krugman

17/12/2011 00h01

Aparentemente continua a busca desesperada dos republicanos por alguém que eles possam escolher como candidato à presidência e que não se chame Willard M. Romney. As novas pesquisas indicam que, pelo menos no Estado de Iowa, a popularidade de Gingrich já passou pelo seu pico. O candidato da vez é o congressista Ron Paul.

De certa forma, isso faz sentido. Romney não goza de confiança porque ele é tido como um indivíduo que assume cinicamente qualquer postura que acredite que será benéfica para a sua carreira – uma acusação que pegou por ser verdadeira. Já Paul tem se mostrado altamente consistente. Eu aposto que ninguém encontrará vídeos de alguns anos atrás nos quais ele tenha dito o oposto do que está dizendo no momento.

Infelizmente, a forma que ele escolheu para manter a sua consistência foi ignorar a realidade, agarrando-se à sua ideologia, ainda que os fatos demonstrem que tal ideologia é equivocada. E, ainda mais infeliz é o fato de a ideologia de Paul atualmente dominar um Partido Republicano que costumava ser mais sábio.

Eu não estou me referindo aqui às ideias de Paul contra guerras e nem à sua posição bem conhecida em relação aos direitos civis e relativos à reprodução, que horrorizariam os liberais que acham que ele é uma boa pessoa. Estou falando sobre as ideias dele a respeito da economia.

Paul se apresenta como um adepto da economia “austríaca” - uma doutrina que rejeita John Maynard Keynes mas que repele com veemência quase igual as ideias de Milton Friedman. Isso porque os seguidores da escola austríaca acreditam que o “fiat money”, o dinheiro que é simplesmente impresso sem ser lastreado por ouro, é a raiz de todos os males. Isso significa que eles se opõem veementemente àquele tipo de expansão monetária que Friedman afirmou que poderia ter prevenido a “Grande Depressão” - e que foi na verdade implementada desta vez por Ben Bernanke.

Bem, uma breve digressão: na verdade o Federal Reserve não imprime dinheiro (quem faz isso é o Tesouro). Mas o Fed controla a “base monetária”, a soma das reservas bancárias e da moeda em circulação. Assim, quando as pessoas falam que Bernanke está imprimindo dinheiro, o que elas querem dizer de fato é que o Fed expandiu a base monetária.

E houve, realmente, uma enorme expansão da base monetária. Após a queda do Lehman Brothers, o Fed passou a emprestar somas enormes aos bancos e também a adquirir uma ampla gama de outros ativos, em uma tentativa (bem sucedida) de estabilizar os mercados financeiros. E, durante o processo, ele acrescentou vastas quantias às reservas bancárias. No outono norte-americano de 2010, o Fed deu início a uma nova série de aquisições, em uma tentativa, que teve menos sucesso, de estimular o crescimento econômico. O efeito combinado dessas ações foi que a base monetária mais do que triplicou de volume.

Os “austríacos”, e na verdade muitos economistas de direita, tinham certeza do que aconteceria como resultado dessas medidas: haveria uma inflação devastadora. Peter Schiff, um analistas famoso, que pertence à escola austríaca, e que assessora Paul, chegou a advertir (no programa de televisão de Glenn Beck) para a possibilidade de uma hiperinflação de estilo zimbabuano no futuro próximo.

Assim, aqui estamos nós, três anos depois. E como andam as coisas? A inflação flutuou mas, no fim das contas, os preços para o consumidor subiram apenas 4,5%, o que significa uma taxa de inflação média anual de apenas 1,5%. Quem poderia ter previsto que a emissão de tanto dinheiro provocaria tão pouca inflação? Bem, eu poderia. E de fato previ. E também outros economistas que entendem os ataques de Paul à economia keynesiana. Mas os apoiadores de Paul continuam a alegar que, de alguma forma, ele ainda tem razão quanto a tudo.

Mesmo assim, embora os proponentes originais da doutrina sequer admitam que estavam errados – segundo a minha experiência, nenhum integrante do mundo político jamais admite ter cometido um erro em relação a algo –, você poderia achar que o fato de eles terem errado tanto em relação a algo tão fundamental para o seu sistema de crenças teria feito com que os “austríacos” perdessem popularidade, mesmo dentro do Partido Republicano. Afinal, ainda nos anos Bush, muitos republicanos defendiam ferrenhamente a impressão de dinheiro quando a economia sofresse desaquecimento. “Uma política monetária agressiva pode reduzir a gravidade de uma recessão”, declarou o Relatório Econômico do Presidente de 2004.

No entanto, o que acabou ocorrendo foi que essa doutrina do “hard-money” e a paranoia quanto à inflação tomaram conta do partido, ainda que a inflação prevista jamais tivesse se materializado. Por exemplo, em janeiro deste ano, o deputado Paul Ryan, que, por um motivo inexplicável, é tido como o grande pensador do partido sobre as questões econômicas, reclamou junto a Bernanke de como é terrível “solapar” a moeda e apontou para um aumento dos preços de commodities no final de 2010 e início de 2011 como evidência de que a inflação finalmente chegara. Depois disso os preços das commodities despencaram, mas nem Ryan nem nenhum dos que defendem a sua doutrina econômica manifestaram qualquer sinal de dúvida.

Mas ainda é muito improvável que Ron Paul torne-se presidente. Porém, como eu disse, a doutrina econômica dele tornou-se de fato a política monetária oficial do Partido Republicano, apesar de os fatos terem comprovado que ela está errada. E o que acontecerá se essa doutrina acabar sendo aplicada? Grande Depressão, aqui vamos nós!

Tradutor: UOL