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Oportunistas contra os benefícios sociais

Gerald Herbert/AP
Pré-candidato republicano, Mitt Romney, discursa para eleitores em Ohio, Estados Unidos Imagem: Gerald Herbert/AP

2012-02-18T00:00:00

18/02/2012 00h00

Primeiro, Atlas deu de ombros. Depois, ele coçou a cabeça, confuso. Os republicanos modernos são extremamente conservadores. Seria possível até dizer (se fôssemos Mitt Romney), que eles são severamente conservadores. Os cientistas políticos que usam votos congressuais para analisar tendências descobriram que a atual maioria republicana no congresso dos Estados Unidos é a mais conservadora desde 1879, a data mais distante para a qual há dados disponíveis.

E o que esses conservadores radicais detestam, acima de tudo, é a dependência de programas do governo. Rick Santorum declara que o presidente Barack Obama está fazendo com que os Estados Unidos se habituem ao “narcótico da dependência”. Romney adverte que os programas do governo “estimulam a passividade e a indolência”. E o deputado Paul Ryan, presidente da Comissão de Orçamento da Câmara, exige que os membros do seu gabinete leiam o livro de Ayn Rand, “Atlas Shrugged” (“Atlas deu de Ombros”), no qual capitalistas heroicos lutam contra os oportunistas “moochers” que tentam roubar-lhes a totalmente merecida riqueza. Os heróis vencem a luta ao interromperem as suas iniciativas produtivas e fazerem discursos intermináveis.

Portanto, muitos leitores do “New York Times” ficaram surpresos ao descobrir, ao lerem um excelente artigo publicado pelo jornal na semana passada, que as regiões dos Estados Unidos mais viciadas no narcótico de Santorum – as regiões nas quais os programas do governo representam a maior parcela dos rendimentos pessoais – são precisamente aquelas que estão elegendo esses severos conservadores. Mas não seria de se esperar que os Estados Unidos dos republicanos fossem a terra dos valores tradicionais, onde as pessoas repudiam comida tailandesa e não aceitam esmolas do governo?

O artigo substanciou a sua argumentação com mapas que mostram a distribuição da dependência no país, mas é possível chegar à mesma conclusão a partir de uma comparação mais formal. Aaron Carrol, da Universidade de Indiana, nos diz que, em 2010, os moradores dos dez Estados classificados pelo Gallup como os “mais conservadores” receberam 21,2% da sua renda na forma de auxílios do governo, enquanto que nos dez Estados mais liberais essa proporção foi de apenas 17,1%.

Mas não há nenhum mistério quanto ao fato de os Estados de maioria republicana utilizarem tão intensamente os programas do governo. Esses Estados são relativamente pobres, o que significa que a população conta com menos fontes de renda além dos programas sociais do governo e que uma quantidade maior de pessoas se qualificam para programas voltados para pessoas carentes, como o Medicaid.
Aliás, a mesma lógica explica por que houve um aumento abrupto dessa dependência a partir de 2008.

Ao contrário do que sugerem Santorum e Romney, Obama não ampliou radicalmente a rede de segurança social. O que ocorreu foi que a situação terrível da economia reduziu as rendas e fez com que um número maior de pessoas passasse a se qualificar para receber benefícios, especialmente o seguro desemprego.

Basicamente, a rede de segurança continua a mesma, mas há uma quantidade maior de indivíduos caindo nela. Mas por que as regiões que dependem da rede de segurança social elegem políticos que desejam acabar com ela? Eu me deparei com três explicações principais.

Primeiro há a tese de Thomas Frank no seu livro “What’s the Matter With Kansas?” (“Qual é o Problema do Kansas?”). Os norte-americanos da classe trabalhadora são induzidos a votar contra os seus próprios interesses devido à forma como o Partido Republicano explora as questões sociais. E é verdade que é muito mais provável que os norte-americanos que frequentam regularmente a igreja votem nos republicanos, não importando o nível de renda desses eleitores, do que os seus compatriotas que não exibem um comportamento tão religioso.

Mesmo assim, conforme observa Andrew Gelman, da Universidade Colúmbia, a diferença mais drástica em termos de tendência de votos é encontrada entre os eleitores mais afluentes: eleitores de alta renda dos Estados republicanos votam em sua esmagadora maioria nos republicanos, enquanto que os moradores ricos dos Estados democratas apresentam uma tendência apenas um pouco maior do que os seus vizinhos mais pobres de votar nos republicanos. Da mesma forma que Frank, Gelman cita questões sociais, mas na direção oposta. Os eleitores afluentes da região nordeste dos Estados Unidos tendem a ser liberais que beneficiar-se-iam de reduções de impostos, mas que sentem repulsa por coisas como a guerra movida pelo Partido Republicano contra os métodos contraceptivos.

Finalmente, Suzanne Mettler, da Universidade Cornell, observa que muitos beneficiários dos programas do governo parecem confusos quanto ao lugar que ocupam no sistema. Ela nos diz que 44% das pessoas que recebem o Social Security, 43% das que recebem seguro desemprego e 40% das que utilizam o Medicare afirmam nas pesquisas que “não utilizaram nenhum programa do governo”.

Assim, é de se presumir que esses eleitores imaginem que as promessas de cortar os gastos do governo significam cortar programas apenas para aqueles indivíduos pobres que não querem trabalhar, e não para eles próprios. E esta é uma confusão que é deliberadamente encorajada pelos políticos. Por exemplo, quando Romney respondeu ao novo orçamento do presidente, ele condenou Obama por não ter cortado gastos com benefícios sociais – e, logo a seguir, o atacou por ter reduzido as verbas para o Medicare.

É claro que a verdade é que uma grande parcela dos gastos sociais destina-se aos idosos, aos portadores de deficiências e às famílias da classe trabalhadora, de forma que qualquer corte significativo teria que incidir sobre pessoas que acreditam não utilizar nenhum programa do governo.

A conclusão a qual eu chego a partir de tudo isso é que os analistas que descrevem os Estados Unidos como sendo um país fundamentalmente conservador estão equivocados. Sim, os eleitores elegeram alguns conservadores severos. Mas esses eleitores ficariam chocados e furiosos se tais políticos impusessem de fato as suas agendas para a redução do papel do governo.