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Nem sempre há algo podre no reino da Dinamarca

20/10/2015 06h00

Sem dúvida causando surpresa a muitas pessoas que assistiram o debate presidencial democrata, Bernie Sanders citou a Dinamarca como exemplo de como ajudar os trabalhadores. Hillary Clinton fez apenas uma leve objeção, declarando que “não somos a Dinamarca”, mas concordando que a Dinamarca é um exemplo inspirador.

Essa conversa seria inconcebível entre os republicanos, que parecem incapazes de falar sobre os Estados de bem-estar social europeus sem adicionar que estão “em colapso”. Basicamente, no Planeta Republicano, toda a Europa é apenas uma versão maior da Grécia. Mas quão bons são realmente os dinamarqueses?

A resposta é que os dinamarqueses acertam em muitas coisas e, ao fazê-lo, refutam praticamente tudo o que os conservadores americanos dizem a respeito da economia. E também podemos aprender muito com os erros da Dinamarca.

A Dinamarca mantém um Estado de bem-estar social –uma série de programas de governo que visam fornecer segurança econômica– que vai muito além dos sonhos mais radicais dos liberais americanos. A Dinamarca fornece atendimento de saúde universal; o ensino superior é gratuito e os alunos recebem ajuda de custo; as creches são altamente subsidiadas. No geral, as famílias em idade de trabalho recebem mais de três vezes mais ajuda, como parcela do PIB, que seus pares americanos.

Para pagar por esses programas, a Dinamarca coleta muitos impostos. A alíquota mais alta do imposto de renda é de 60,3%; além disso, há um imposto nacional sobre vendas de 25%. No geral, a carga tributária da Dinamarca é quase metade da renda nacional, em comparação a 25% nos Estados Unidos.

Descreva essas políticas para qualquer conservador americano e a previsão dele será de ruína. Certamente esses benefícios generosos destruirão o incentivo para trabalhar, enquanto os altos impostos levarão os geradores de empregos a se esconderem ou se exilarem.

Entretanto, a Dinamarca não parece um cenário de “Mad Max”. Pelo contrário, é um país próspero que se sai muito bem na geração de empregos. Na verdade, os adultos no auge de seus anos de trabalho apresentam uma probabilidade substancialmente maior de estarem empregados na Dinamarca do que nos Estados Unidos. A produtividade do trabalhador é basicamente a mesma que a americana, apesar do PIB per capita ser menor, principalmente porque os dinamarqueses têm muito mais férias.

Nem os dinamarqueses são melancólicos: a Dinamarca está no topo ou perto dele nas comparações internacionais de “satisfação com a vida”.

É difícil imaginar uma melhor refutação da doutrina econômica anti-impostos, antigoverno, que insiste que um sistema como o dinamarquês seria completamente inviável.

Mas o modelo da Dinamarca seria impossível de reproduzir em outros países? Considere a França, outro país que é muito maior e mais diverso que a Dinamarca, mas também mantém um Estado de bem-estar social altamente generoso, pago por impostos elevados. Você pode não saber disso devido à má publicidade que a França recebe, mas os franceses também se equiparam aos americanos em produtividade, apresentam maior probabilidade de estarem empregados no auge de seus anos de trabalho. Impostos e benefícios não são assassinos de empregos como a lenda da direita afirma.

Voltando à Dinamarca, tudo é excelente em Copenhague? Na verdade, não. A Dinamarca é muito rica, mas sua economia recebeu um duro golpe nos últimos anos, porque sua recuperação da crise financeira global tem sido lenta e incompleta. De fato, a queda de 5,5% no produto interno bruto (PIB) real per capita na Dinamarca desde 2007 é comparável aos declínios sofridos por países em crise da dívida, como Portugal ou Espanha, apesar da Dinamarca nunca ter perdido a confiança dos investidores.

O que explica esse desempenho recente ruim? A resposta, principalmente, é uma política monetária e fiscal ruins. A Dinamarca não adotou o euro, mas administra sua moeda como se tivesse, o que significa que compartilha as consequências dos erros monetários, como o aumento das taxas de juros pelo Banco Central Europeu em 2011. E apesar de o país não ter enfrentado pressão do mercado para reduzir gastos –a Dinamarca pode tomar empréstimos de longo prazo a uma taxa de juros de apenas 0,84%– mesmo assim ela adotou austeridade fiscal.

O resultado é um enorme contraste com a vizinha Suécia, que não imita o euro (apesar de ter cometidos seus próprios erros), não adotou muita austeridade e vê um aumento real do PIB per capita enquanto o da Dinamarca cai.

Mas os erros monetários e fiscais da Dinamarca não dizem nada sobre a sustentabilidade de um forte Estado de bem-estar social. Na verdade, as pessoas que condenam coisas como cobertura universal de saúde e creches subsidiadas tendem a ser as pessoas que exigem taxas de juros mais altas e cortes de gastos em uma economia deprimida. (Você se lembra de toda a conversa sobre “depreciação” do dólar?) Isto é, os conservadores americanos na verdade aprovam algumas das políticas dinamarquesas –mas apenas aquelas que provaram ser altamente equivocadas.

Logo, sim, nós podemos aprender muito com a Dinamarca, tanto seus sucessos quanto seus fracassos. E permita-me dizer que foi tanto um prazer quanto um alívio ouvir pessoas que podem chegar à presidência falarem seriamente que podemos aprender algo com a experiência de outros países, em vez de apenas cantarem “EUA! EUA! EUA!”

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