Progresso nas energias renováveis traz esperança contra o aquecimento global

Paul Krugman

Paul Krugman

  • Ethan Miller/Getty Images/AFP

    Usina solar no deserto de Mojave, na Califórnia

    Usina solar no deserto de Mojave, na Califórnia

O que está realmente em jogo na eleição americana deste ano? Bem, entre outras coisas, o destino do planeta.

O ano passado foi o mais quente já registrado, por ampla margem, o que deveria acabar com --mas não o fará-- as afirmações dos negadores do clima de que o aquecimento global parou. A verdade é que a mudança climática fica cada vez mais assustadora; é de longe a mais importante questão política que os EUA e o mundo enfrentam. Mas esta eleição não teria muita importância para essa questão se não houvesse a perspectiva de uma ação efetiva contra a catástrofe iminente.

A situação nessa frente mudou drasticamente para melhor nos últimos anos, porque agora estamos muito perto de realizar uma revolução de energias renováveis. Além disso, conseguir essa revolução energética não exigirá uma revolução política. Tudo o que é preciso são mudanças políticas razoavelmente modestas, algumas das quais já aconteceram e outras estão a caminho. Mas essas mudanças não se realizarão se as pessoas erradas acabarem chegando ao poder.

Para entender do que estou falando, você precisa saber algo sobre a atual situação da economia climática, que mudou muito mais nos últimos anos do que a maioria das pessoas percebe.

Muitas pessoas que pensam nessa questão provavelmente imaginam que praticar uma redução drástica nas emissões de gases do efeito estufa envolveria necessariamente grandes sacrifícios econômicos. Essa opinião é ortodoxia obrigatória na direita, onde forma uma espécie de segunda linha de defesa contra a ação, caso a negação da ciência climática e a caça às bruxas contra os cientistas climáticos não façam o serviço.

Por exemplo, no último debate republicano, Marco Rubio, a última e melhor esperança do establishment republicano-- insistiu, como já tinha feito antes, que um programa de "cap and trade" [limitação e negociação das emissões de carbono] seria "devastador para nossa economia".

Para encontrar alguma coisa equivalente na esquerda, você precisaria sair muito da corrente dominante, chegando a ativistas que insistem que a mudança climática não pode ser combatida sem que se derrube o capitalismo. Ainda assim, tenho a sensação de que muitos democratas acreditam que a política habitual não se adequaria à tarefa, que precisamos de um terremoto políticopara tornar a ação possível. Em particular, continuo ouvindo que os esforços ambientais do governo Obama foram tão aquém da necessidade que mal vale a pena mencioná-los.

Mas as coisas são na verdade muito mais esperançosas, graças ao notável progresso tecnológico em energias renováveis.

Os números são realmente surpreendentes. Segundo um relatório recente da firma de investimentos Lazard, o custo da geração de eletricidade usando energia eólica caiu 61% entre 2009 e 2015, enquanto o custo da energia solar caiu 82%. Estes números --que estão de acordo com outras estimativas-- mostram índices de progresso que normalmente só esperaríamos ver na tecnologia da informação. E eles situam o custo da energia renovável em um nível em que é competitiva com os combustíveis fósseis.

Mas ainda há algumas questõesespeciais nas renováveis, em particular problemas de intermitência: os consumidorespodem querer energia quando o vento não está soprando nem o sol, brilhando. Mas essa questão parece ter importância cada vez menor, em parte graças à melhora da tecnologia de armazenamento, em parte à percepção de que a "resposta da demanda" --pagar aos consumidorespara que reduzam o uso de energia nos horários de pico-- pode reduzir muito o problema.

Então o que será necessário para alcançar uma mudança em grande escala de combustíveis fósseis para renováveis, uma mudança para vento e sol, em vez de fogo? Incentivos financeiros, e estes não precisam ser enormes. Os créditos fiscais para renováveis que fizeram parte do plano de estímulos de Obama e foram ampliados sob o recente acordo orçamentáriofizeram muito para acelerar a revolução energética. O Plano de Energia Limpa da Agência de Proteção Ambiental, que se for implementado criará fortes incentivos para se abandonar o carvão, fará muito mais.

E nada disso precisará de novas leis; podemos ter uma revolução energética mesmo que os malucos mantenham o controle da Câmara.

Mas os céticos poderão dizer que mesmo que todas essas coisas boas aconteçam não serão suficientes, por si sós, para salvar o planeta. Por um lado, estamos falando apenas da geração de eletricidade, que é uma grande parte do problema da mudança climática, mas não a coisa inteira. Por outro, estamos falando só de um país, quando o problema é global.

Mas eu diria que o tipo de progresso que hoje está a nosso alcance poderia produzir um ponto de inflexão, na direção certa. Quando a energia renovável se tornar um sucesso evidente e, sim, um poderoso grupo de interesse, o antiambientalismo, começar a perder sua influência política, uma revolução energética nos EUA nos permitirá assumir a liderança na ação global.

A salvação da catástrofe climática, em suma, é algo que podemos realisticamente esperar que aconteça, sem a necessidade de um milagre político. Mas o fracasso também é uma possibilidade muito real. Tudo está pendente na balança.

Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Paul Krugman

Professor de Princeton e colunista do "New York Times" desde 1999, Krugman venceu o prêmio Nobel de Economia em 2008.

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