Carros, Cabul e bancos

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Se há algo que aprendi como repórter, é que quando você se afasta da "coisa em si" - a verdade central a respeito de uma situação - você se mete em confusão. Barack Obama terá que tomar três decisões imensas após tomar posse - sobre carros, Cabul e bancos - e temos que torcer para que ele baseie essas decisões nas coisas em si, nas verdades centrais sobre cada uma. Porque muitas pessoas tentarão jogar pó de fada em seus olhos.

A primeira questão será o socorro a Detroit. Qual é a verdade central a respeito de Detroit? Os executivos do setor automotivo lhe dirão que é a crise de crédito, os sindicatos e os custos com planos de saúde e aposentadorias. Certamente eles são reais. Mas a verdade central é que por muito tempo Detroit produziu muitos carros que muitas pessoas não queriam comprar. Como até mesmo a General Motors reconheceu em um pedido de desculpas publicado na semana passada: "Às vezes nós traímos a sua confiança ao permitir que nossa qualidade caísse abaixo dos padrões da indústria e nossos projetos deixaram a desejar". Caminhe por qualquer campus universitário atualmente. Você não vê muitos Buicks.

Ao longo dos anos, os chefes de Detroit ficavam repetindo: "Nós temos que fazer os carros que as pessoas querem". Este é o motivo para estarem em apuros. O trabalho deles é fazer os carros que as pessoas não sabem que querem, mas vão querer comprar quando os virem. Eu estaria satisfeito com meu Walkman da Sony caso a Apple não tivesse inventado o iPod. Agora não posso viver sem meu iPod. Eu não sabia que o queria, mas a Apple sim. O mesmo vale para o meu Toyota híbrido.

O consultor do setor automotivo, John Casesa, certa vez notou que as pessoas no comando de Detroit passaram de visionários a operadores, e destes a zeladores. Eu diria que no momento elas passaram de zeladores a coveiros. Se estiverem prontas a trazer alguns visionários e promover uma reestruturação total - dentro ou fora de um pedido de falência- para que possam vir a ganhar dinheiro vendendo carros que as pessoas vão querer comprar, então eu diria para ajudá-las. Eu detestaria ver o fim da indústria automotiva de Detroit. Mas se tudo o que fizermos apenas prolongar os coveiros, então devemos deixar a natureza seguir seu curso.

Depois de Detroit, será pedido a Obama que resgate o Afeganistão. Cuidado. A maré se voltou contra nós porque muitos afegãos não querem comprar nossas políticas, ou mais precisamente, as políticas de nosso aliado, o governo corrupto do presidente Hamid Karzai. Esta é a verdade central.

O principal motivo de nosso socorro ao Iraque - também conhecido como "aumento de tropas"- ter surtido um efeito positivo se deve ao fato dos iraquianos terem votado com suas próprias armas e vidas, investindo contra a Al Qaeda e os militantes xiitas pró-iranianos. O Iraque evitou por ora a falência -um colapso total - porque um número suficiente de iraquianos queria o que estávamos vendendo: liberdade dos extremistas. Essa é a verdade central, e no momento não estamos vendo o suficiente do mesmo no Afeganistão. Cuidado com um resgate a Cabul.

Mas talvez a área mais flagrante onde continuaremos evitando olhar para a verdade central é a de nossos bancos. Aquilo com que estamos lidando é com o efeito de uma bolha de crédito que teve início no final dos anos 80, com o advento da securitização global - o picar e misturar de títulos de tudo, de hipotecas e crédito estudantil até leasing de aviões, e então vendê-los ao redor do mundo.

Quando você pega tamanha alavancagem, tamanha globalização e tamanha complexidade e dá início a ela nos Estados Unidos, e então a estoura, o resultado é uma explosão nuclear financeira. O esvaziamento dessa bolha de crédito destrói tanto a riqueza que mesmo os bancos mais prudentes foram devastados por ela.

O que fazer? As pessoas mais inteligentes que conheço no setor bancário estão rezando para que o Departamento do Tesouro de Obama lide com a verdade central. Isto é, faça uma análise real de quanto valem os principais bancos no pior cenário. Então, tendo isso como base, determine se eles possuem uma relação viável de patrimônio líquido/ações.

Aqueles que tiverem devem receber mais investimento do governo. Aqueles que estiverem em situação apertada devem ser forçados a encontrar novos investidores e se fundirem. E os inviáveis devem ser fechados e seus ativos pobres comprados por uma entidade de propriedade do governo (que as venderiam ao longo do tempo) e seus depósitos transferidos para bancos com saúde para lhes dar ainda mais saúde. Alguns especialistas acreditam que ainda precisamos fechar 1.000 bancos.

Esse processo será doloroso, mas provavelmente o mercado estará limpo até o final do ano, os investidores voltarão e os bancos sobreviventes estarão prontos para emprestar uns aos outros e para você e para mim. A verdade central aqui é que os bancos ainda não querem emprestar porque ainda não sabem o verdadeiro valor de seus próprios balancetes, muitos menos os dos outros.

O mercado precisa ficar limpo. Nós podemos fazê-lo de forma rápida e dolorosa, como fizemos com as empresas pontocom, ou podemos fazer de forma longa e arrastada como o Japão.

Assim, seja a respeito de carros, Cabul ou bancos, nós temos que parar de sonhar com os mundos como os desejamos e começar a lidar com as coisas como são. Se Obama o fizer, seu primeiro ano será altamente doloroso, mas ele poderá ter os três anos seguintes para ser criativo. Se não o fizer, eu temo que os carros, Cabul e os bancos atormentarão toda sua presidência.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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