Conflito entre palestinos e israelenses mostra que estamos na encruzilhada da história

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Peça que eu pare, caso você já tenha ouvido esta história: "Um cara entra em um bar...". Não. A história certa é esta: "Este é o ano mais crítico da história para a diplomacia palestino-israelense. Faltam cinco minutos para a meia-noite. Se não fizermos rapidamente com que a diplomacia volte aos trilhos, teremos o fim da solução baseada em dois Estados".

Eu ouvi esse comentário quase todos os anos durante os últimos 20 anos, mas nunca acreditei nele. Bem, hoje estou acreditando.

Estamos nos aproximando perigosamente do fechamento da janela de oportunidade para uma solução de dois Estados, já que os dois principais fechadores de janelas - o Hamas, em Gaza, e os fanáticos colonos judeus na Cisjordânia - têm ocupado o banco do motorista. O Hamas está ocupado em tornar uma solução de dois Estados inconcebível, enquanto os colonos judeus trabalham sistematicamente no sentido de torná-la impossível.

Se o Hamas continuar obtendo e usando foguetes com raio de alcance cada vez maior, não haverá como o governo israelense tolerar o controle palestino independente da Cisjordânia, já que um foguete lançado do território poderia facilmente fechar o aeroporto de Tel Aviv e paralisar a economia de Israel.

E, caso os colonos judeus continuem com o seu "crescimento natural" com o objetivo de devorarem a Cisjordânia, a solução se tornará também impossível. Nenhum governo israelense esforçou-se para retirar sequer os assentamentos "ilegais", ou não autorizados pelas autoridades israelenses, apesar de terem prometido aos Estados Unidos que tomariam essa medida, de forma que está ficando difícil enxergar como os assentamentos "legais" serão algum dia removidos. É necessário que, nas eleições israelenses de 10 de fevereiro, obtenha-se um governo centrista de unidade nacional que seja capaz de resistir à chantagem dos colonos judeus e dos partidos direitistas que os protegem, para que ainda seja possível implementar uma solução com base em dois Estados.

Isso porque, sem uma solução estável com base em dois Estados, o que teremos será uma nação israelense escondendo-se atrás de um muro alto, defendendo-se de um Estado palestino fracassado governado pelo Hamas na faixa de Gaza, de um Estado fracassado governado pelo Hizbollah no sul do Líbano e de um Estado fracassado governado pelo Fatah em Ramallah.

Portanto, se você acredita na necessidade de um Estado palestino, ou se gosta de Israel, é melhor começar a prestar atenção. Isto não é um teste. Estamos em uma encruzilhada da história.

O que torna a questão tão difícil para a nova equipe de Obama é o fato de a diplomacia do Oriente Médio ter se transformado como resultado da desintegração regional desde Oslo - de três formas fundamentais.

Primeiro, nos velhos tempos, Henry Kissinger podia voar para três capitais, reunir-se com três reis, presidentes ou primeiro-ministros, e firmar um acordo que podia ser mantido. Mas isso não ocorre mais. Atualmente um diplomata que luta pela paz precisa ser ao mesmo tempo construtor de nações e negociador.

Os palestinos encontram-se tão fragmentados política e geograficamente que metade da diplomacia dos Estados Unidos terá que se dedicar a encontrar uma forma de obter a paz entre eles e a construir as suas instituições, para que haja uma instituição coerente e legítima para a tomada de decisões - antes que possamos promover a paz entre israelenses e palestinos.

Segundo, o Hamas conta agora com poder de veto sobre qualquer acordo de paz palestino. É verdade que o Hamas acaba de provocar uma guerra irresponsável que devastou o povo da faixa de Gaza. Mas o Hamas não sairá do cenário. Ele está bem armado e, apesar do seu recente comportamento suicida, profundamente enraizado.

A Autoridade Palestina liderada por Mahmoud Abbas na Cisjordânia não assumirá nenhum compromisso com Israel enquanto temer que o Hamas, que estará de fora, denuncie-a como traidora. Portanto, a segunda tarefa para os Estados Unidos, Israel e os Estados árabes é encontrar uma forma de trazer o Hamas para um governo palestino de unidade nacional.

Conforme disse o especialista em Oriente Médio Stephen P. Cohen: "Para Israel não basta que o mundo reconheça que o Hamas faltou criminalmente com a responsabilidade para com o seu povo. O interesse de longo prazo de Israel é garantir que tenha um parceiro palestino para as negociações, um parceiro que conte com legitimidade suficiente junto ao seu povo para assinar acordos e cumpri-los. Sem que o Hamas faça parte de uma decisão palestina, qualquer acordo de paz israelense-palestino não terá significado".

Mas, trazer o Hamas para um governo de unidade palestino, sem enfraquecer os moderados da Cisjordânia que atualmente lideram a Autoridade Palestina, será complicado. Precisaremos de que a Arábia Saudita e o Egito aceitem, bajulem e pressionem o Hamas para que este mantenha o cessar-fogo, apóie as negociações de paz e abandone os seus foguetes - enquanto o Irã e a Síria puxam o Hamas no sentido inverso.

E isso conduz a um terceiro e novo fator - o Irã como protagonista-chave na diplomacia palestino-israelense. A equipe de Bill Clinton tentou atrair a Síria ao mesmo tempo em que isolava o Irã. O presidente Bush procurou isolar tanto o Irã quanto a Síria. A equipe de Obama, conforme Martin Indyk argumenta no livro "Innocent Abroad: An Intimate Account of American Peace Diplomacy in the Middle East" ("Inocente no Exterior: Um Relato Íntimo da Diplomacia de Paz Norte-Americana no Oriente Médio"), "precisa tentar trazer a Síria para a mesa de negociações, o que enfraqueceria o Hamas e o Hizbollah, e, ao mesmo tempo, conversar com o Irã".

Então, apenas para recapitular: faltam cinco minutos para a meia-noite, e antes que soem as doze badaladas, tudo o que precisamos fazer é reconstruir o Fatah, aglutiná-lo ao Hamas, eleger um governo israelense capaz de congelar os assentamentos judaicos na Cisjordânia, cortejar a Síria e negociar com o Irã - ao mesmo tempo impedindo que este último adquira capacidade nuclear - de forma que possamos conseguir que todas as partes envolvidas passem a conversar. Quem for capaz de alinhar todas as peças desse Cubo de Rubik diplomático merecerá dois prêmios Nobel.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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