Abdullah II: a solução dos cinco Estados

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Em fevereiro de 2002, viajei para a Arábia Saudita e entrevistei o então príncipe real, hoje rei Abdullah, em seu haras em Riad. Perguntei-lhe por que a próxima cúpula árabe não poderia simplesmente propor a Israel a paz plena e a normalização das relações, por todos os 22 países árabes, para a retirada de todas as terras ocupadas e a criação de um Estado palestino. Abdullah disse que eu tinha lido sua mente ("Você arrombou minha escrivaninha?", ele perguntou) e que estava prestes a propor exatamente isso, o que ele fez mais tarde, dando origem ao "plano de paz Abdullah".

Infelizmente, nem a equipe de Bush nem Israel jamais elaboraram o plano Abdullah. E o líder saudita sempre evitou apresentar suas ideias diretamente à população israelense. Desde então, tudo deteriorou.

Por isso eu tenho me perguntado ultimamente o que Abdullah proporia se lhe pedissem para atualizar seu plano. Eu até sondei se ele gostaria de dar outra entrevista, mas aparentemente ele não quer. Como não sou fácil de dissuadir, decidi fazer a próxima melhor coisa: ler sua mente de novo. Aqui está a minha adivinhação do memorando que Abdullah tem na gaveta para o presidente Obama. Eu o chamaria de "Abdullah II: A Solução de Cinco Estados para a Paz Árabe-Israelense".

Caro presidente Obama,

Parabéns pela sua posse e por despachar rapidamente seu novo enviado, George Mitchell, um bom homem, para o Oriente Médio. Eu gostaria que Mitchell pudesse recomeçar de onde paramos oito anos atrás, mas a morte de Arafat, o declínio da Autoridade Palestina na Cisjordânia, a guerra de 2006 entre o Hizbollah e Israel no Líbano, a guerra de 2009 entre o Hamas e Israel em Gaza, a constante expansão dos assentamentos coloniais israelenses e o aprofundamento do envolvimento do Irã com o Hamas e o Hizbollah - tudo isso criou uma nova realidade.

Especificamente, a Autoridade Palestina não tem condições hoje de assumir o controle da Cisjordânia, o Hamas é incapaz de administrar Gaza e a introdução de foguetes fornecidos pelo Irã ao Hamas criou uma situação na qual Israel não devolverá a Cisjordânia aos palestinos agora, porque teme que o Hamas a use para lançar foguetes sobre o aeroporto internacional de Israel. Mas se não fizermos nada os colonos sionistas devorariam o resto da Cisjordânia e a sagrada Jerusalém. O que pode ser feito?

Estou propondo o que eu chamaria de uma solução de cinco Estados:

1. Israel concorda em princípio em se retirar de toda a Cisjordânia e dos bairros árabes de Jerusalém oriental, assim como fez de Gaza. Quaisquer territórios que Israel pudesse reter na Cisjordânia para seus colonos teriam de ser trocados - centímetro a centímetro - por terras de Israel propriamente dito.

2. Os palestinos - Hamas e Fatah - concordam em formar um governo de união nacional. Esse governo concorda em aceitar um número limitado de tropas e policiais egípcios para ajudar os palestinos a controlar Gaza e a monitorar suas fronteiras, assim como tropas e policiais jordanianos fariam o mesmo na Cisjordânia. A Autoridade Palestina concordaria com "programas de assistência de segurança" de cinco anos com o Egito em Gaza e com a Jordânia na Cisjordânia.

Com o Egito e a Jordânia ajudando a manter a ordem, os palestinos poderiam se concentrar em construir sua própria segurança e instituições políticas de credibilidade para sustentar sua plena independência ao final de cinco anos.

3. Israel efetuaria uma retirada gradativa nesses cinco anos de todos os seus assentamentos na Cisjordânia e na Jerusalém árabe - exceto aqueles que se concorde em conceder a Israel como parte de trocas de territórios - no mesmo ritmo em que os palestinos cumprem as etapas de segurança e governança aceitas previamente por todas as partes. Os EUA seriam o único árbitro do cumprimento desse ritmo por ambos os lados.

4. A Arábia Saudita pagaria todos os custos dos fiduciários egípcios e jordanianos, mais uma taxa de serviço de US$ 1 bilhão por ano para cada país - assim como todas as necessidades orçamentárias da Autoridade Palestina. Todo o plano seria baseado nas Resoluções 242 e 338 da ONU e abençoado pelo Conselho de Segurança da ONU.

As virtudes dessa solução de cinco países - Palestina, Egito, Jordânia, Israel e Arábia Saudita - são numerosas: o Egito e a Jordânia, os países árabes que têm tratados de paz com Israel, atuariam como garantidores da transição e de que a retirada israelense não deixaria um vácuo de segurança na Cisjordânia, faixa de Gaza ou Jerusalém árabe que pudesse ameaçar Israel. Israel teria tempo para uma retirada gradativa de seus assentamentos, e os palestinos teriam a oportunidade de construir uma nação de maneira ordenada. Essa seria uma solução árabe que poria fim às tentativas do Irã de "persianizar" a questão palestina.

Presidente Obama, muita coisa foi negociada para se voltar diretamente à solução de dois Estados. Seria como tentar construir uma casa com tijolos mas sem cimento. Não há confiança nem estrutura para construí-la. Os israelenses e os palestinos precisam do tipo de cimento que só o Egito, a Arábia Saudita e a Jordânia podem fornecer. Isso daria segurança aos israelenses, e aos palestinos um claro caminho para um Estado independente.

Espero que o senhor considere cuidadosamente a solução de cinco Estados.

Que a paz esteja consigo,

Abdullah bin Abdul Aziz

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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