Elvis deixou a montanha

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

De sua forma imprevisível, o Fórum Econômico Mundial em Davos geralmente serve como um medidor rudimentar do mais recente sentimento ou mania no cenário mundial. Este ano não decepcionou. O que me chama a atenção é a urgência silenciosa que se infiltrou em tantos painéis de discussão e conversas privadas entre investidores, políticos e ativistas sociais. Para colocar de forma simples: todo mundo está procurando pelo cara - o cara capaz de dizer exatamente o que aflige o sistema financeiro mundial, exatamente como sairmos dessa encrenca e exatamente o que devemos fazer para salvar nossas poupanças.

Mas eis o que é realmente assustador: o cara não está aqui. Ele deixou o prédio. Elvis deixou a montanha. Acostume-se com isso.

O que quero dizer? Primeiro, se ainda não está aparente para você, estará em breve. Não há bala mágica para esta crise econômica, não há pacote mágico de resgate, não há estímulo mágico. Nós tramamos um tremendo emaranhado financeiro com hipotecas de risco envoltas em títulos e derivativos complexos, anabolizados com alavancagem e então globalizados até os cantos mais remotos do planeta, de forma que por mais que queiramos pensar que isso acabará em breve, isso é altamente improvável.

Nós teremos que aprender a viver com muito mais incerteza por muito mais tempo do que nossa geração já experimentou. Nós continuamos despejando dinheiro no buraco negro bancário desta crise, esperando desesperadamente que o ouviremos bater no fundo e começar a preenchê-lo. Mas até o momento, por mais que nos esforcemos para escutar, não conseguimos ouvir nada. E continuamos despejando...

Um amigo corretor me disse que isso o lembrava de quando ele era adolescente e seu médico diagnosticou que ele não podia digerir produtos com trigo. Ele disse ao médico: "Ora, apenas me receite uma pílula". E o médico lhe disse que não há pílula. "Você quer dizer que terei que conviver com isto?" ele perguntou. Somos nós. Não há pílula - não para esta confusão.

O fato de não haver uma pílula única não significa que nada pode ser feito. Nós precisamos de um estímulo grande o suficiente para criar mais empregos. Nós precisamos remover os ativos tóxicos dos balancetes dos bancos. Nós precisamos que o Tesouro feche os bancos insolventes, promova a fusão dos fracos e fortaleça os poucos saudáveis. E precisamos fazer tudo isso corretamente. Mas mesmo assim, a recuperação não será nem rápida e nem indolor. De fato, os sussurros aqui eram de que o que até agora era uma crise exclusivamente econômica poderá em breve se transformar em um dominó de crises políticas -como aconteceu na Islândia, onde a falência dos bancos derrubou o governo na segunda-feira.

(Humor de Davos: Capital da Islândia? Resposta: US$ 25.)

Segundo, teremos que nos acostumar com a perda da confiança. Todas essas instituições e pessoas sólidas às quais confiamos nosso dinheiro, nossas aposentadorias e o dinheiro do cofrinho de nossos filhos - como o Citigroup, Merrill Lynch, Bank of América- não parecem mais confiáveis. Nunca antes na minha vida adulta eu olhei ao redor para todos os bancos na minha cidade e pensei: "Não sei se prefiro guardar meu salário debaixo do colchão".

O escândalo de Bernard Madoff, é claro, apenas reforçou essa perda da confiança. Seu grau de traição - sua suposta disposição de desviar as economias de toda a vida de pessoas que conhecia a vida toda - é tão frio que traça um novo território no comportamento humano. Ele está a caminho de se tornar um adjetivo. Administradores de capital já estão sendo obrigados a provar para novos clientes potenciais que suas salvaguardas internas são "à prova de Madoff".

Eu escrevi bastante sobre a comunidade indiana de terceirização, de forma que conhecia B. Ramalinga Raju, o presidente da Satyam acusado de desviar US$ 1 bilhão de sua própria empresa. O que é realmente triste é que não o conheci por meio de seus negócios, mas sim pelo interesse nas obras de caridade de sua família. Ela criou o primeiro sistema de telefone de emergência em seu Estado natal e call centers nas aldeias indianas, para que os jovens locais pudessem arrumar empregos. Tudo isso também era falso? Ou ele era um fraudador com bom coração? Não sei. Quando você não consegue confiar nem nas obras de caridade de uma pessoa, você atingiu um novo ponto baixo.

"Nós todos teremos que aprender a conviver com um nível mais baixo de confiança em nossas vidas", me disse aqui um amigo banqueiro africano. Mas a mente recua diante disso, o que pode explicar o motivo para tantas pessoas com as quais conversei aqui estarem torcendo para que o presidente Barack Obama seja o cara.

Como Harry Truman, Obama está definitivamente presente na criação de algo. Ele está entrando em cena "não após uma guerra, mas após o mesmo tipo de destruição das instituições causada por uma guerra", disse Peter Schwartz, o presidente da Global Business Network. "Seu trabalho é restaurar a confiança nestas instituições que estão na base de nossa economia."

Esta pode ser a tarefa de resgate mais importante de Obama: educar o país de que não há saída fácil aqui, exceto tomar nosso medicamento, corrigirmos nossos fundamentos e trabalharmos para sairmos disto, tijolo por tijolo, voltando a ganhar dinheiro -como dizia a velha propaganda da Smith Barney - "do modo antigo" -fazendo jus a ele.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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