Não tente fazer isto em casa

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Nos últimos dias, algumas pessoas questionaram se a secretária de Estado Hillary Clinton estaria cometendo um grande erro ao nomear tantos "enviados especiais", como George Mitchell, para lidar com questões problemáticas importantes, como o conflito israelense-palestino. Creio que estas pessoas estão certas ao questionar Clinton a respeito desta pletora de enviados. Mas não acredito que o problema resida no fato de ela contar com enviados demais, e sim no de não ter enviados suficientes. No caso do conflito israelense-palestino, ela poderá precisar de pelo menos meia dúzia de enviados. De fato, este conflito está atualmente fragmentado em tantos pedaços diferentes que poderá ser necessário um Departamento de Estado inteiro para resolvê-lo.

Além de Mitchell, Hillary bem que poderia querer alistar Bill e Chelsea para tentar resolver este problema, e, sem dúvida, Jim Baker e Jimmy Carter também. Por que a secretária deveria desejar sequer perguntar a algum desconhecido completo que ela encontrar nos corredores de Foggy Bottom: "Ei, você gostaria de uma viagem gratuita ao Oriente Médio?". Sem dúvida ajuda conhecer um pouco de história, mas, atualmente, um pouco de conhecimento de biologia é ainda mais útil - por exemplo, é importante saber como uma ameba se reproduz constantemente dividindo-se ao meio.

Por onde começar? Atualmente os palestinos encontram-se divididos entre a Cisjordânia e a faixa de Gaza, com uma Autoridade Palestina secular em Ramallah, na Cisjordânia, e o governo fundamentalista do Hamas na faixa de Gaza. Mas o Hamas subdivide-se nos seus braços militar e político, e o braço militar divide-se ainda mais entre a liderança na faixa de Gaza e a liderança em Damasco, sendo que esta última recebe ordens tanto da Síria quanto do Irã.

Você ainda está me acompanhando?

Até onde sei, os palestinos da faixa de Gaza estão simultaneamente negociando um cessar-fogo com Israel no Cairo, denunciando Israel na Europa por crimes de guerra, escavando túneis no Sinai para contrabandearem mais foguetes para Gaza a fim de atingirem Tel Aviv e tentando obter dinheiro para reconstrução junto ao Irã. Enquanto isso, os líderes palestinos na Cisjordânia estão ocupados. Publicamente eles estão coletando alimentos e cobertores para ajudar os civis palestinos brutalizados pela incursão israelense na faixa de Gaza, enquanto reservadamente exigem saber de autoridades graduadas israelenses por que elas não varreram da face da terra o Hamas em Gaza - as baixas que se danem.

Já Israel tem um governo no qual o primeiro-ministro, a ministra das Relações Exteriores e o ministro da Defesa possuem cada um plano de paz, uma estratégia de guerra e condições para cessar-fogo na faixa de Gaza diferentes. E a ministra das Relações Exteriores e o ministro da Defesa são adversários na eleição de terça-feira em Israel.

E por falar em eleição, um partido totalmente novo, o Yisrael Beiteinu, liderado por Avigdor Lieberman, que foi acusado de tendências violentamente anti-árabes e "fascistas", parece estar destinado a obter os maiores ganhos e possivelmente a tornar-se o novo líder do próximo governo de Israel. Recentemente, o jornal "Haaretz" noticiou que o líder do Partido Trabalhista, Ehud Barak, teria criticado Lieberman como sendo um cordeiro em pele de falcão, perguntando: "Quando foi que ele alguma vez atirou em alguém?".

Como foi que este conflito tornou-se tão fragmentado? Para os iniciantes, essa história é bem longa. A Cisjordânia está hoje em dia tão retalhada e dividida por estradas, barreiras de segurança e cercas para separar os assentamentos malucos de Israel das vilas palestinas que um palestino seria capaz de deslocar-se mais rapidamente de avião de Jerusalém a Paris do que de dirigir de Jenin, no norte da Cisjordânia, até Hebron, no sul do território ocupado.

Um outro motivo para isso é o fato de a própria ideia ter sido tentada e ter fracassado. Para os palestinos, o pan-arabismo, o comunismo e o islamismo surgiram e desapareceram, e nenhuma dessas ideologias proporcionou a eles um Estado ou prosperidade. Como resultado, um número cada vez maior de palestinos passou a cultivar lealdades para com a família, o clã, a vila e a tribo. Em Israel, a solução da organização Peace Now, com base em dois Estados, implodiu com a derrocada dos acordos de paz de Oslo; o aumento da taxa de natalidade palestina transformou qualquer plano de anexar a Cisjordânia em uma ameaça mortal ao caráter judaico de Israel; e os foguetes que se seguiram às retiradas israelenses do Líbano e de Gaza fizeram com que aqueles que diziam que retiradas unilaterais eram a única solução ficassem desacreditados.

Tudo isso levou ao ressurgimento da religiosidade. Segundo o "Haaretz", as seguintes questões foram formuladas por um conhecido rabino em um dos panfletos distribuídos pelo escritório do rabinato do exército israelense antes do último conflito na faixa de Gaza: "É possível comparar os palestinos de hoje aos filisteus do passado? Caso seja, é possível aplicar hoje em dia as lições aprendidas com as táticas militares de Sansão e Davi? Uma comparação deste tipo é possível porque os filisteus do passado não eram nativos e invadiram uma terra estrangeira".

Quem neste mundo desejaria consertar esta situação? Eu preferiria pastorear gatos, ou virar assessor de imagens de John Thain, ou fazer uma colonoscopia, ou tornar-me presidente do "banco ruim" que o presidente Obama poderá criar para armazenar todas as hipotecas tóxicas. Sem dúvida qualquer destas atividades seria mais divertida. Se Mitchell ainda estiver disposto a lidar com isso, bem, que Deus o abençoe. A minha próxima coluna examinará algumas maneiras como poderíamos começar tudo de novo.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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