Além dos bancos

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Em visita a Israel, fui bastante questionado por israelenses e palestinos sobre qual o espaço que o processo de paz entre os dois povos terá entre as prioridades do presidente Barack Obama. Acredito, disse a eles, que Obama tem três prioridades
imediatas: bancos, bancos e bancos - e nenhum deles fica na Cisjordânia.

Dito isto, uma vez que Obama for capaz de pensar novamente sobre o Oriente Médio, descobrirá que a equipe de Bush deixou um interessante legado aqui: 140 mil soldados norte-americanos trabalhando na reconstrução do Estado iraquiano e apenas um soldado norte-americano - na verdade um general três estrelas do Exército - trabalhando na reconstrução da Cisjordânia. Precisamos de um equilíbrio melhor.

Os soldados americanos no Iraque podem se orgulhar das últimas eleições iraquianas, que fortaleceram os partidos mais seculares e de centro. Mas temos de esperar para ver se os perdedores aceitam a derrota pacificamente e se os vencedores podem de fato exercer um governo melhor. As eleições iraquianas, entretanto, são um exemplo raro de um povo árabe que tem a oportunidade de reconstruir seu próprio futuro a partir da base, e eu continuo torcendo por eles.

Os palestinos precisam de uma oportunidade parecida. É impossível ter uma solução de dois Estados sem que existam dois Estados, e hoje a Autoridade Palestina na Cisjordânia, que ainda apoia o acordo de dois Estados, não tem as instituições de um Estado, principalmente no que diz respeito a uma força policial eficaz.

Portanto, minha esperança é que Obama se concentre não apenas nos planos de paz de cima para baixo, mas também na construção de instituições a partir da base. A melhor forma de isolar o Hamas em Gaza é transformar a Autoridade Palestina na Cisjordânia num governo decente com um controle expansivo de seu território.

É exatamente isso que o oficial do Exército dos EUA na região, o tenente-general Keith Dayton, quer fazer. Eu o acompanhei junto com sua pequena equipe até Jenin - que já foi a cidade mais violenta da Cisjordânia - para vê-los em ação.

Foi uma cena e tanto: assisti a uma companhia de soldados da Autoridade Palestina, recém-treinados, com orgulho e um ar profissional, parados em alerta, com rifles AK-47 ao lado do corpo, ouvindo com um respeito óbvio o general americano
dizer:

"O que vocês fizeram foi mais importante do que qualquer outra coisa para impulsionar o projeto nacional palestino... Vocês tomaram conta das pessoas numa época difícil. É assim que as forças de segurança de um país se comportam".

Não, isso não é coisa que se vê todos os dias.

Dayton falava para o 2º Batalhão Especial da Força de Segurança Nacional Palestina, ou NSF em inglês. O grupo foi treinado pela polícia da Jordânia num programa supervisionado pelo Coordenador de Segurança dos EUA - ou seja, Dayton.

A princípio, ele foi designado pela equipe de Bush em 2005 para ajudar a reformar a segurança palestina, mas só conseguiu financiamento para fazê-lo depois que o Hamas tomou Gaza em 2007.

Cerca de 1.600 soldados palestinos do NSF graduaram-se desde então, e 500 estão agora em treinamento. Treinada em tudo, desde controle da violência até direitos humanos, o NSF é a única força verdadeiramente profissional controlada pelo presidente palestino, Mahmoud Abbas.

O exército israelense, no início desconfiado da missão de Dayton, passou a respeitá-la, e agora permite que ela se expanda até Hebron. O que de fato chamou a atenção de Israel foi que, durante a guerra de três semanas de Israel contra o Hamas em Gaza, a Cisjordânia não eclodiu em revolta, em grande parte porque as tropas do NSF permitiram protestos generalizados, mas evitaram que os manifestantes palestinos entrassem em choque com os soldados israelenses.

"O general Dayton é nosso amigo", disse o coronel Radi Abu Asida do NSF. "Agora temos um treinamento excelente. Agora temos profissionalismo no nosso trabalho de segurança. Dissemos às pessoas durante os protestos em Gaza: 'Vocês podem protestar, mas tem de ser de um jeito moderno'".

Infelizmente, o financiamento para o trabalho de Dayton - assegurado por dois integrantes da Câmara dos EUA com visão futura, Nita Lowey e Gary Ackerman - vai acabar logo. Isso será uma tragédia. Antes que do NSF, "isso aqui era um caos", disse Mohammed Abu Bakr, dono de uma loja de artigos para casamento em Jenin, referindo-se ao vácuo de segurança depois do colapso do regime de Arafat. "Todo mundo queria lutar com todo mundo. Agora tudo está organizado".

A missão de Dayton - um ponto luminoso raro num cenário devastado - é a base sobre a qual devemos construir. "O problema não é só território, mas como ocupamos esse território", disse Gigi Grinstein, presidente do instituto israelense Reut Institute. "Jenin é importante. É o começo da construção da capacidade, que leva à construção das instituições, que leva à construção do Estado, que leva à independência. Mas a legitimidade da polícia palestina depende do avanço do processo de paz e de os israelenses cederem aos palestinos o controle de mais território à medida que os palestinos mostram sua capacidade, acrescentou. "Do contrário, eles são vistos como uma ferramenta para promover a ocupação e serão deslegitimados e atacados".

Então é importante que George Mitchell, enviado especial dos EUA ao Oriente Médio, continue pressionando diplomaticamente a partir de cima, mas nada acontecerá sem um aumento considerável dos esforços dos EUA a partir da base para ajudar a Cisjordânia a reconstruir sua capacidade governamental com credibilidade. Fazendo isso, tudo é possível. Não fazendo, nada é possível. Eloise De Vylder

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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