O resgate de portas abertas

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Deixe aos cuidados de um indiano inteligente encontrar a forma mais barata e certa de estimular nossa economia: a imigração.

"Tudo o que é preciso é conceder vistos para 2 milhões de indianos, chineses e coreanos", disse Shekhar Gupta, editor do jornal "The Indian Express". "Nós compraremos todos os imóveis subprime. Nós trabalharemos 18 horas por dia para pagá-los. Nós melhoraremos imediatamente a taxa de poupança - nenhum banco indiano atualmente possui mais de 2% de empréstimos inadimplentes, porque não pagar sua hipoteca é considerado vergonhoso aqui. E abriremos novas empresas para criar nossos próprios empregos e empregos para mais americanos."

Apesar de seu tom de brincadeira, Gupta e muitos outros empresários indianos com que conversei nesta semana tentavam argumentar que às vezes os não-americanos podem fazer melhor: "Querida América, por favor não esqueça como você se tornou o país mais rico da história. Não foi por meio de protecionismo, ou bancos estatais ou temendo o livre comércio. Não, a fórmula foi muito simples: construa esta economia realmente aberta, realmente flexível, tolere a destruição criativa para que o capital morto possa ser rapidamente remanejado para idéias e empresas melhores, permita a entrada dos imigrantes mais diversos, inteligentes e enérgicos de cada canto do mundo e então mexa e repita, mexa e repita, mexa e repita, mexa e repita".

Apesar de achar que o presidente Barack Obama está fazendo o melhor que pode para manter os piores impulsos protecionistas do Congresso fora de seu plano de estímulo, o Senado americano infelizmente votou em 6 de fevereiro por restringir a contratação de imigrantes capacitados com vistos de trabalho temporários, conhecidos como H-1B, por bancos e outras instituições financeiras que receberem dinheiro de resgate dos contribuintes.

Um mau sinal. Em uma era em que atrair capacidade intelectual de primeira ordem de todas as partes do mundo é a vantagem competitiva mais importante que uma economia de conhecimento pode ter, por que ergueríamos barreiras contra tamanho poder cerebral de qualquer lugar? Isto se chama "Velha Europa". Se soletra: E-S-T-U-P-I-D-E-Z.

"Se fizerem isso, será uma das melhores coisas para a Índia e uma das piores para os americanos, porque os indianos serão forçados a inovar em casa", disse Subhash B. Dhar, um membro do conselho executivo que dirige a Infosys, a conhecida empresa de tecnologia indiana que envia trabalhadores indianos para os Estados Unidos em apoio a um grande número de empresas. "Nós protegemos nossos empregos por muitos anos e veja onde isso nos levou. Você sabe que para uma empresa indiana, ainda é mais fácil fazer negócios com uma empresa nos Estados Unidos do que com uma empresa de outro Estado indiano?"

Cada Estado indiano tenta proteger sua pequena economia com suas próprias regras. Os Estados Unidos não deveriam tentar copiar isso. "A postura deveria ser, quem quer que possa nos tornar competitivos e dominantes, que venham", disse Dhar.

Se há uma coisa que sabemos com certeza, é isto: o protecionismo não causou a Grande Depressão, mas certamente ajudou a torná-la "Grande". De 1929 a 1934, o comércio mundial despencou mais de 60% - e ficamos todos muito pior.

Nós vivemos em uma era tecnológica onde todo estudo mostra que quanto mais conhecimento você tem como trabalhador e quanto mais trabalhadores com conhecimento houver na economia, mais rápido a renda subirá. Portanto, a peça central de nosso estímulo, o princípio motriz central, deveria ser estimular tudo o que nos torne mais inteligentes e atrair mais pessoas inteligentes para os Estados Unidos. Esta é a melhor forma de criar bons empregos.

Segundo uma pesquisa de Vivek Wadhwa, associado sênior de pesquisa do Programa de Trabalho e Vida Profissional da Escola de Direito de Harvard, mais da metade das novas empresas no Vale do Silício foi fundada por imigrantes ao longo da última década. Estas empresas de tecnologia fundadas por imigrantes empregaram 450 mil trabalhadores e apresentaram vendas de US$ 52 bilhões em 2005, disse Wadhwa em um ensaio publicado nesta semana na BusinessWeek.com.

Ele também citou um estudo recente de William R. Kerr, da Escola de Administração e Negócios de Harvard, e William F. Lincoln, da Universidade de Michigan, que "apontou que em períodos em que a concessão de vistos H-1B caiu, também caiu o número de pedidos de patente feitos por imigrantes (nos Estados Unidos). E quando aumentou a concessão de vistos H-1B, os pedidos de patente também subiram".

Nós não queremos sair desta crise apenas com inflação, uma montanha de dívidas e mais empregos de baixa qualidade. Nós queremos - e precisamos - sair disso com uma nova Intel, Google, Microsoft e Apple.

Eu adoraria ter visto incluso no pacote de estímulo um banco de capital de risco financiado pelo governo, para ajudar a financiar todas as novas empresas que claramente não estão sendo iniciadas no momento -na área de energia limpa elas estão morrendo como moscas- por causa da falta de liquidez das fontes tradicionais de financiamento.

A "Newsweek" publicou um ensaio nesta semana que começava assim: "Poderia o Vale do Silício se tornar outra Detroit?" Sim, poderia. Quando os melhores cérebros do mundo estão à venda, você não os exclui. Você abre ainda mais as portas. Nós precisamos atacar esta crise financeira com green cards não, apenas com dinheiro, e com novas empresas, não apenas com resgates. Basta uma Detroit.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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