Sim, elas podiam. E fizeram

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Eu estou participando da conferência sobre o clima no Instituto de Energia e Recursos em Nova Déli, quando durante a sessão da tarde duas jovens mulheres americanas - juntamente com suas mães - me fazem um convite.

"Ei, sr. Friedman", elas dizem, "você gostaria de dar uma volta por Nova Déli em nosso carro?"

Eu digo que já ouvi essa oferta antes. Ah, elas dizem, mas você não viu este carro. É um carro elétrico carregável na tomada que também é alimentado por painéis solares no teto - e as duas jovens, recém-formadas em Yale, tinham acabado de percorrer toda a Índia em uma "caravana climática" para destacar as soluções para o aquecimento global que estão sendo desenvolvidas por empresas, comunidades, campi e inovadores indianos, assim como para inspirar outros a agirem.

Elas me perguntam se quero dirigir, mas tenho visões de ser parado por guardas e acabar em uma cadeia em Nova Déli. Não se preocupe, elas me dizem. Os guardas indianos param todos por toda a Índia. Primeiro, eles pedem para ver a carteira de motorista, depois perguntam como o teto solar verde do carro consegue fornecer 10% de sua quilometragem - e depois tentam comprar o carro.

Nós vamos para Panchsheel Marg, uma das principais ruas de Nova Déli. As moças querem me mostrar algo. A embaixada americana e a embaixada chinesa ficam ambas localizadas em Panchsheel, uma em frente à outra. Elas me pedem para olhar para o topo de ambas as embaixadas. O que vejo? Vamos ver... o topo da embaixada americana está repleto de antenas e equipamento de escuta. O topo da embaixada chinesa está cheio de - novos aquecedores solares de água de fabricação chinesa.

Não dá para inventar algo assim.

Mas tentar fazer algo a respeito foi apenas um dos motivos para minhas cicerones, Caroline Howe, uma engenheira mecânica de 23 anos em licença da Escola de Florestamento e Estudos Ambientais de Yale, e Alexis Ringwald, uma bolsista Fulbright na Índia e atualmente uma empreendedora solar, terem se unido a Kartikeya Singh, que estava iniciando a Rede Climática Jovem Indiana, ou IYCN (na sigla em inglês), para conectar os líderes climáticos jovens na Índia, um país sob crescente pressão global para administrar sua pegada de carbono.

"A Índia esta cheia de inovadores climáticos, tão espalhados por todo este país imenso que muitas pessoas não veem que estas soluções já estão funcionando", disse Howe. "Nós queríamos encontrar uma forma de unir as pessoas em torno das soluções existentes para inspirar mais ação e mais inovação. Não resta tempo para ficarmos apenas discutindo o problema."

Howe e Ringwald acharam que a melhor forma de fazer isso era uma turnê de soluções climáticas, usando carros elétricos modificados da Reva Electric Car Company da Índia, cujo presidente-executivo Ringwald conhecia. Elas o persuadiram a doar três de seus carros e adaptá-los com baterias de maior duração, para que pudessem viajar 145 quilômetros com uma só carga de seis horas - e um painel solar que ampliaria isso ainda mais.

Entre 1º de janeiro e 5 de fevereiro, elas conduziram os carros em uma viagem de 3380 quilômetros de Chennai até Nova Déli, parando em 15 cidades e dezenas de vilarejos, treinando estudantes indianos a iniciarem seus próprios programas climáticos e realizando 20 vídeos das 20 maiores inovações de energia desenvolvidas na Índia. Também foram acompanhadas por uma banda alimentada por energia solar, mais um caminhão que rodava com biodiesel extraído de jathropa e pongamia, plantas cultivadas localmente em solo improdutivo. Um grupo de dança de Bollywood se juntou a eles em diferentes paradas e um tcheco, que soube a respeito da viagem pelo YouTube, veio com seu caminhão que rodava com óleo vegetal descartado.

Deepa Gupta, uma co-fundadora do ICYN de 21 anos, disse ao "The Hindustan Times" que a viagem abriu seus olhos para quantas soluções locais de energia estão surgindo na Índia -"como agricultura orgânica em Andhra Pradesh, o uso de alho e neem como pesticidas ou a reciclagem em favelas como Dharavi. Nós vimos coisas já em funcionamento, como a usina solar Gadhia em Valsad, Gujarat, onde o vapor é usado para cozinhar e você pode alimentar quase 50 mil pessoas de uma só vez". (Veja: www.indiaclimatesolutions.com.)

Em Rajpipla, em Gujarat, quando pararam no palácio de um príncipe local para recarregar seus carros, eles descobriram que o negócio dele era cultivar minhocas e vendê-las como alternativas boas para o meio ambiente para os fertilizantes químicos.

Eu conheci Howe e Ringwald após um dia exaustivo, mas tenho que admitir que tão logo elas começaram a me contar sua história, isso realmente me fez sorrir. Após um ano assistindo adultos envolvidos em uma imprudência devastadora nos mercados financeiros e uma ineficácia deprimente nas negociações sobre a mudança climática, é animador saber que o mundo continua produzindo jovens idealistas que não ficam esperando pela ação dos governos, mas estão dando início aos seus próprios projetos e promovendo a inovação.

"Por que essa turnê aconteceu?" perguntou Ringwald. "Por que esse plano louco, insano, de viajar pela Índia em uma caravana de carros elétricos-solares e caminhões movidos a jatropha, com música, arte e dança à energia solar, com uma forte mensagem em prol de soluções climáticas? Bem... o mundo precisa de idéias malucas para mudar as coisas, porque a forma convencional de pensar não está funcionando mais."

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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