De jeito nenhum, não tem como, não aqui

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Há nove corpos - todos eles de homens jovens - em um necrotério de hospital em Mumbai desde 29 de novembro. Eles estão abandonados lá há algum tempo, porque nenhuma caridade muçulmana local está disposta a enterrá-los em seu cemitério. Isto é uma boa notícia.

Os nove são os terroristas muçulmanos paquistaneses que provocaram o ataque homicida insensato em Mumbai em 26 de novembro - o 11 de Setembro da Índia - matando a tiros mais de 170 pessoas, incluindo 33 muçulmanos, dezenas de hindus, assim como cristãos e judeus. Foi assassinato por assassinato. Eles nem se deram ao trabalho de deixar um bilhete.

Todos os nove ainda estão no necrotério porque a liderança da comunidade muçulmana indiana os chamou pelo nome real - "assassinos", não "mártires" - e se recusa a permitir que sejam enterrados no principal cemitério muçulmano de Mumbai, o Bada Kabrastan com três hectares, dirigido pelo Fundo Muçulmano Jama Masjid.

"As pessoas que cometeram este crime hediondo não podem ser chamadas de muçulmanos", disse um porta-voz do fundo, Hanif Nalkhande, ao "The Times" de Londres. Presume-se que algum dia eles terão que ser enterrados, mas os muçulmanos de Mumbai permanecem desafiadores.

"Os muçulmanos indianos se orgulham de ser tanto indianos quanto muçulmanos, e o terrorismo em Mumbai foi uma guerra tanto contra a Índia quanto ao Islã", explicou M.J. Akbar, o editor indiano muçulmano da "Covert", uma revista investigativa da Índia. "Não há lugar para o terrorismo na doutrina islâmica. O termo corânico para a morte de inocentes é 'fasad'. Os terroristas são fasadistas, não jihadistas. Em um belo verso, o Alcorão diz que a morte de inocentes é semelhante a matar toda a comunidade. Como os (...) terroristas não são nem indianos e nem verdadeiros muçulmanos, eles não têm direito a um enterro islâmico em um cemitério muçulmano indiano."

Certamente os muçulmanos de Mumbai são uma minoria vulnerável em um país predominantemente hindu. Todavia, seu desafio aberto aos terroristas islâmicos se destaca. Ele se destaca em uma paisagem funesta de assassinos suicidas muçulmanos predominantemente sunitas que atacam civis em mesquitas e mercados - do Iraque ao Paquistão e Afeganistão - que são tratados pela mídia árabe, como a "Al Jazeera", ou por líderes espirituais extremistas islâmicos e sites, como "mártires" cujas ações merecem elogio.

Exaltar ou desculpar os militantes suicidas como "mártires" apenas leva à disseminação deste péssimo fenômeno - onde homens e mulheres jovens muçulmanos são recrutados para matarem a si mesmos e outros. O que começou de forma direcionada no Líbano e em Israel agora proliferou para se tornar uma ocorrência quase diária no Iraque, Afeganistão e Paquistão.

É uma ameaça a qualquer sociedade aberta porque, quando as pessoas transformam a si mesmas em bombas, elas não podem ser detidas, e as medidas necessárias para contê-las exige suspeitar e revistar todos em qualquer evento público. E são uma ameaça em particular para as comunidades muçulmanas. Não é possível construir uma sociedade saudável nas costas de homens-bomba, cujo único objetivo é provocar o caos ao exclusivamente matar de forma indiscriminada o máximo possível de civis.

Se um assassinato-suicida é considerado legítimo por uma comunidade quando ataca seus "inimigos" no exterior, ela no futuro será usada como uma tática contra os "inimigos" em casa, exatamente o que tem acontecido no Iraque, Afeganistão e Paquistão.

A única forma eficaz de deter esta tendência é "a aldeia" - a própria comunidade muçulmana - dizer "basta". Quando uma cultura e comunidade religiosa deslegitimiza abertamente este tipo de comportamento, de forma aberta, em alto e bom tom e de forma consistente, isso é mais importante do que detectores de metal ou policiamento reforçado. Religião e cultura são as fontes mais importantes de restrição em uma sociedade.

Este é o motivo para os muçulmanos da Índia, que são a segunda maior comunidade muçulmana no mundo, atrás apenas da Indonésia, e uma com a mais profunda tradição democrática, prestarem um grande serviço ao Islã ao retirar a legitimidade dos assassinos-suicidas, ao se recusarem em enterrar seus corpos. Isso não impedirá a tendência do dia para a noite, mas ajudará com o passar do tempo.

"Os muçulmanos de Bombaim merecem ser parabenizados por terem tomado esta importante decisão", me disse Raashid Alvi, um membro muçulmano do Parlamento da Índia pelo Partido do Congresso. "O Islã diz que se você comete suicídio, então mesmo após a morte você será punido."

O fato dos muçulmanos indianos agirem desta forma certamente se deve, em parte, ao fato de viverem, serem produto e se sentirem empoderados por uma sociedade democrática e pluralista. Eles não são intimidados por líderes religiosos extremistas e não têm medo de se manifestar contra o extremismo religioso em seu meio.

Este é o motivo por se ter notícia de tão poucos, se é que há algum, muçulmanos indianos ingressando na Al Qaeda. E é o motivo para, por mais ultrajantemente caro e por mais incerto que seja o resultado, tentar construir sociedades decentes, pluralistas, em locais como o Iraque não ser tão louco quanto parece. Sem a ajuda das sociedades árabes-muçulmanas onde seus membros se sintam no controle de suas vidas e empoderados para cuidar de seus próprios extremistas - militar e ideologicamente - esta tendência não vai desaparecer.

Tradução: George El Khouri Andolfato

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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