Ativando o capital de risco

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Ler a notícia de que a General Motors e a Chrysler estão se preparando para receber mais cerca de US$ 20 bilhões em ajuda governamental - além dos outros bilhões que já receberam ou pediram - me deixa com a sensação frustrante de que estamos subsidiando os fracassados, por um único motivo: porque eles alegaram que o custo dos seus funerais seria superior ao de mantê-los respirando por aparelhos na UTI. Desculpem, meus amigos, mas este não é o estilo norte-americano. Não foi socorrendo os perdedores que, como país, ficamos ricos, e não é desta maneira que sairemos desta crise.

A General Motors transformou-se em uma gigantesca máquina de destruir riqueza - possivelmente a maior máquia do gênero na história - e já é hora de tanto ela quanto a Chrysler entrarem com um processo de falência de forma que possam de fato começar tudo de novo, sob um novo gerenciamento, com novos acordos trabalhistas e novas visões empresariais. Quando se trata de auxiliar companhias, o precioso dinheiro público deveria concentrar-se em criar novos empreendimentos, e não em resgatar empresas falidas.

Você deseja investir US$ 20 bilhões em dinheiro do contribuinte na criação de empregos? Ótimo. Convoque as 20 maiores firmas de capital de risco dos Estados Unidos, que atualmente estão com pouco dinheiro porque os seus parceiros - os fundos de pensão e fundações universitárias - estão quebrados, e faça-lhes a seguinte oferta: o Tesouro dos Estados Unidos dará a cada uma até US$ 1 bilhão para o financiamento das melhores ideias para a aplicação de capital de risco. Se elas fracassarem, todos nós perderemos. Mas se alguma delas acabar tornando-se a próxima Microsoft ou Intel, os contribuintes darão a você 20% do lucro dos investidores e ficarão com 80%.

Se você vai gastar bilhões de dólares do contribuinte, essa quantia não pode ser aplicada em banqueiros que são peças decorativas de escritórios, em especuladores imobiliários super-alavancados e em executivos da indústria automobilística que, ano após ano, gastam mais energia resistindo às mudanças e fazendo lobby em Washington do que liderando as iniciativas para mudar e superar a Toyota.

Tenho viajado pelo país em uma turnê de lançamento de livro, e toda noite retorno ao meu hotel com os bolsos cheios de cartões pessoais de inventores da área de energia limpa. O nosso país está repleto de inovadores em busca de capital. Assim, não podemos deixar que todas essas companhias fracassadas que suplicam por ajuda afoguem os potenciais vencedores que poderiam nos tirar desta situação. Algumas das nossas melhores companhias, como a Intel, surgiram durante recessões, quando a necessidade torna os inovadores ainda mais inventivos e os indivíduos que dispõem-se a correr riscos ainda mais ousados.

Sim, temos que ajudar o sistema bancário, que é a base de tudo; e encontrar uma forma justa de impedir que pessoas trabalhadoras, que jogaram de acordo com as regras, tenham as suas casas confiscadas é ao mesmo tempo uma iniciativa correta e essencial para a estabilidade.

Mas, além disso, temos que pensar, falar e planejar de maneiras mais ambiciosas. Estamos em uma situação difícil, mas não estamos fora do jogo. Quando investirmos dinheiro do contribuinte, um dos objetivos deve ser criar uma nova geração de companhias de biotecnologia, tecnologia da informação, nanotecnologia e tecnologias não poluentes, com inovadores reais, empregos genuinamente do século 21 e lucros potencialmente concretos para os contribuintes. O nosso lema deve ser, "Criação de novas empresas, e não o socorro a empresas fracassadas: Estimulemos o próximo Google; e não as velhas General Motors".

É preciso reconhecer que o pacote de estímulo financeiro que a equipe de Obama e o congresso democrata aprovaram recentemente - sem praticamente nenhum apoio dos republicanos - até certo ponto faz exatamente isso. É algo que merece elogios. Mas, agora, façamos mais.

O setor de energias renováveis - eólica, solar e térmico-solar - estava quase morto neste país. No outono do ano passado a maioria dos novos projetos empacou porque, para obterem financiamento, dependiam da venda dos créditos fiscais para energias renováveis às firmas de Wall Street. Como essas firmas de Wall Street faliram ou amargaram prejuízos tremendos, elas não necessitaram de créditos fiscais porque não tiveram lucros para compensar. O pacote de estímulo financeiro criou um mecanismo para que os inovadores na área de energias renováveis contornem Wall Street e utilizem os seus créditos fiscais diretamente por meio do Tesouro dos Estados Unidos, para qualquer projeto que tenha início entre agora e o final de 2010.

As indústrias eólica e solar dos Estados Unidos "estavam mortas no quarto trimestre", diz John Woolard, diretor-executivo da BrightSource Energy, que constrói e opera usinas termo-solares de última geração no Deserto de Mojave. Novos projetos termo-solares com uma capacidade de quase cinco gigawatts de - o equivalente a cinco grandes usinas nucleares - em vários estágios de aprovação governamental estão temporariamente suspensos devido à falta de financiamento.

"Agora todos esses projetos seguirão em frente", diz Woolard. "Estamos falando de milhares de empregos... Conseguimos de fato algo de bom nessa legislação".

Esses empregos serão gerados nas áreas de engenharia, construção e operação de enormes sistemas solares e usinas eólicas, bem como na fabricação de novos sistemas fotovoltaicos. Juntos, eles promoverão a inovação nessas áreas - e transferirão as tecnologias eólica e solar para a parte inferior da curva de aprendizado custo-volume, de forma que elas sejam capazes de competir com os combustíveis fósseis e de tornar-se indústrias de exportação com "preço ChinIndia", ou seja, o preço que possibilite a concorrência com China e Índia.

É assim que o dinheiro do contribuinte deve ser usado para estímulos: financiamento limitado, por um período limitado, dirigido para uma indústria repleta de empresas dotadas de novas tecnologias e que, com um pequeno empurrão do Tio Sam, não apenas sobreviverão a esta crise, mas também nos ajudarão a prosperar quando a crise chegar ao fim. Nós precisamos, e o mundo precisa, de um Estados Unidos que não apenas sobreviva, mas que também prospere.

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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