Chamando o Tio Sam

Thomas L. Friedman

Thomas L. Friedman

Nos dias de hoje é muito útil vir à Ásia para ser lembrado da posição ocupada pelos Estados Unidos. Apesar de toda a conversa nos últimos anos a respeito do declínio inevitável dos Estados Unidos, os olhos não estão voltados neste momento para Tóquio, Pequim, Bruxelas ou Moscou - e tampouco para quaisquer dos pretendentes à coroa de peso pesado mundial. Todos os olhos andam fixados em Washington, esperando que os norte-americanos tirem o mundo desta queda econômica em parafuso. Em nenhum momento nos últimos 50 anos nós nos sentimos mais fracos. E em momento algum nos últimos 50 anos o mundo nos considerou mais importantes do que agora.

Embora seja verdade que desde o fim da Guerra Fria os líderes e intelectuais globais reclamam com frequência de um mundo com um excesso de poder norte-americano, atualmente não se ouve muito essa reclamação, já que a maioria das pessoas reconhece que somente um Estados Unidos economicamente revitalizado tem o poder necessário para impedir que a economia mundial entre em uma depressão global. Sempre foi fácil reclamar de um mundo com excesso de poder norte-americano, contanto que não se tivesse que viver em um mundo com poder norte-americano insuficiente. E, neste momento, o perigo é esse: um mundo com insuficiente poder norte-americano.

No fundo de suas mentes, muitas pessoas parecem estar percebendo que a alternativa a um mundo dominado pelos Estados Unidos não é um mundo dominado por um outro país, ou por um país melhor. A alternativa é um mundo sem liderança. Nem a Rússia nem a China têm o desejo ou a capacidade de fornecer os bens públicos globais que os Estados Unidos - quando está em sua melhor forma - é capaz de proporcionar. Neste momento a União Europeia está tão dividida que não consegue concordar sequer quanto a um pacote de estímulo efetivo.

Então, não é de se admirar que, ainda que esta crise econômica tenha começado nos Estados Unidos, com as péssimas práticas de concessão e tomada de empréstimos, as pessoas tenham, não obstante, refugiando-se no dólar estadunidense. Um exemplo: a moeda sul-coreana desvalorizou-se cerca de 40% em relação ao dólar apenas nos últimos seis meses.

"Nenhum outro país consegue substituir os Estados Unidos", disse-me uma autoridade graduada sul-coreana. "Os Estados Unidos ainda são o número um em forças armadas, número um em economia, número um na promoção de direitos humanos e número um em idealismo. Só os Estados Unidos podem liderar o mundo. Nenhum outro país pode. A China não consegue. A União Europeia está muito dividida, e a Europa encontra-se militarmente muito atrás dos Estados Unidos. Assim, é só os Estados Unidos... Nunca tivemos um mundo tão unipolar".

Mas muitos asiáticos ressentem-se com o fato de os norte-americanos os terem censurado por causa da crise bancária da Ásia na década de 1990, e agora nós cometemos vários erros similares. Mas essa schadenfreude não dura muito. Em conversas aleatórias aqui em Seul com intelectuais, jornalistas e empresários asiáticos e sul-coreanos, descobri gente realmente preocupada. Eles perguntaram: será que os norte-americanos poderiam não estar sabendo o que estão fazendo? Ou, pior: poderiam saber o que estão fazendo, mas o problema seria simplesmente muito maior do que qualquer coisa que já vimos?

Esta é uma região na qual as marcas norte-americanas têm um grande peso, e as pessoas estão extremamente nervosas por verem marcas financeiras norte-americanas gigantescas como o Citigroup e a AIG cambaleando.

As grandes nações comerciais, como a Coreia do Sul, estão particularmente nervosas com a possibilidade de os Estados Unidos sucumbirem ao protecionismo econômico, o que fragilizaria o sistema de comércio global.

"Não há ninguém capaz de substituir os Estados Unidos. Sem liderança norte-americana, não há liderança", disse Lee Hong-koo, ex-embaixador sul-coreano em Washington. "Isso representa uma pressão enorme sobre o povo norte-americano para que ele faça algo de positivo. Não dá para ficar tentado pelo nacionalismo usual. Quando as coisas não vão bem, a maioria das pessoas torna-se nacionalista. E, no mundo econômico, isto é protecionismo... Estamos felizes por ver que Obama não está fazendo tal coisa. O povo norte-americano tem que perceber quanta esperança e expectativa outros povos estão colocando sobre os ombros dele".

E estamos falando apenas no setor econômico. O primeiro grande teste de Obama na área de segurança poderá ocorrer aqui - e em breve. A Coreia do Norte ficou mais louca do que nunca. Ela tornou-se ainda mais pobre devido à crise econômica global e à retirada de auxílio econômico pelo novo governo sul-coreano. Agora a Coreia do Norte está ameaçando testar um dos seus mísseis de longo alcance Taepodong-2, que são capazes de atingir o Havaí, o Alasca e outros alvos mais distantes.

Os norte-coreanos fizeram um teste desses pela última vez em 2006, mas o foguete explodiu 40 segundos após o lançamento. Caso a Coreia do Norte teste novamente um míssil balístico intercontinental desse tipo, as forças norte-americanas terão que cogitar destruí-lo na plataforma de lançamento ou abatê-lo no céu. Jamais deveríamos ter permitido que a Coreia do Norte obtivesse uma ogiva nuclear. Nós certamente não queremos que os norte-coreanos testem um míssil de longo alcance capaz de lançar uma ogiva nuclear nas nossas costas, ou nas costas de qualquer outro país.

Nunca antes tão voltados para si próprios. Nunca antes tão procurados. Esses são os Estados Unidos de hoje. Este momento faz lembrar uma questão levantada pelo especialista em política externa da Universidade Johns Hopkins, Michael Mandelbaum, no seu livro, "The Case for Goliath" ("Em Defesa de Golias"). Quando se trata da maneira como outros países veem o papel proeminente dos Estados Unidos no mundo, ele escreve: "Qualquer que seja a duração dos Estados Unidos, três coisas podem ser previstas com segurança: "Esses países não pagarão pelo Estados Unidos; eles continuarão a criticá-lo; e terão saudades quando ele desaparecer".

Tradução: UOL

Thomas L. Friedman

Colunista de assuntos internacionais do "New York Times" desde 1995, Friedman já ganhou três vezes o prêmio Pulitzer de jornalismo.

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